Halloween. Sete sugestões entre o medo e o riso

Estamos naquela altura do ano em que o género do terror é rei nas salas de cinema. Desde Halloween O Final, derradeiro momento da saga iniciada pelo clássico de Carpenter, às máquinas de sustos mais ou menos anónimas, a escolha é muita mas não necessariamente interessante. Procurando noutro lado - sem deixar de incluir uma estreia em sala -, eis um pack de propostas que ajudam a preservar o espírito do Dia das Bruxas.

OVO, de Hanna Bergholm

Cinemas e Filmin

Entre as novidades da época, Ovo é do mais original que se encontra. Uma primeira longa-metragem, da finlandesa Hanna Bergholm, impregnada de cultura do cinema de género, com rasgo de terror adulto e sátira inteligente, que decompõe a psicologia dos laços familiares. Começa com a fachada do "quotidiano encantador" de uma família nuclear - estilo sonho americano em versão finlandesa - e, aos poucos, vai mostrando as rachas do retrato perfeito, tal como uma casca de ovo em vias de se partir... O título vem precisamente de uma dessas membranas com crosta arredondada que a protagonista, uma jovem ginasta de competição, descobre no ninho de um pássaro sinistro. Ela esconde o ovo no quarto, mantém-no aconchegado, mas é surpreendida pelo tamanho que este vai adquirindo. Quando a casca parte, a criatura repugnante que sai lá de dentro, qual parente sombrio de E.T. - O Extraterrestre, torna-se uma espécie de amigo secreto, que evolui para algo mais próximo de uma leitura social e psíquica.

Há uma sessão especial de Halloween amanhã no Cinema Fernando Lopes, em Lisboa, apresentada pelo realizador Carlos Conceição, e depois o filme estreia-se em sala a 3 de novembro, ficando disponível em simultâneo na plataforma Filmin.

DRÁCULA DE BRAM STOKER,
de Francis Ford Coppola

Filmin

A assinalar 30 anos (no próximo dia 13 de novembro), Drácula de Bram Stoker é um clássico para qualquer ocasião. Grande sucesso de Coppola, esta enésima adaptação de um dos romances mais influentes da literatura gótica representou uma faustosa passagem do realizador pelo universo dos filmes de vampiros. Interpretado por Gary Oldman, insuperável, o conde Drácula encarna aqui um romantismo paredes-meias com a ideia de grandeza; como se o terror se transformasse num género aristocrático, através de um vampiro movido pelas matérias do coração.

Na altura em que preparava o filme, Coppola fez questão de rever todas as adaptações do livro de Bram Stoker, banhando-se também na arte de Orson Welles e Eisenstein, em particular, a de O Mundo a Seus Pés e Ivan, O Terrível. Duas fontes de inspiração que se refletem claramente no modo como a figura vampírica de Oldman surge enquanto extensão dos cenários, na imagem de uma gigante sombra. Apenas detalhes. "O mais importante é lembrar-me o quanto adorava ir ver filmes de terror com o meu irmão", escreveu Coppola no seu diário.

O GABINETE DE CURIOSIDADES DE GUILLERMO DEL TORO

Netflix

O gabinete ou armário de curiosidades foi um formato de coleção privada num tempo em que o mundo ainda constituía um grande mistério e poucos tinham a possibilidade de viajar. Podia ser todo um edifício, uma câmara ou, mais propriamente, uma peça de mobiliário. O recheio desses gabinetes era composto por uma diversidade de objetos raros que encerravam histórias, mantendo "o passado vivo"... Assim nos explica Guillermo del Toro o significado deste novo título Netflix. Enquanto criador e anfitrião da série, o cineasta mexicano apresenta cada episódio (oito no total) escolhendo um objeto que contém o dito passado vivo: chaves para uma antologia de contos de terror assinados por diferentes realizadores.

Entre todos eles há em comum um design de produção muito característico de Del Toro, desde logo, contando aqui com o seu habitual colaborador no guarda-roupa, o luso-canadiano Luís Sequeira. Entre pesadelos e monstros, trata-se de servir o medo com requinte e em doses concentradas, muito para além da simples técnica do susto.

X, de Ti West

TVCine

Estreado em março nos cinemas portugueses, X passou quase completamente despercebido, apesar de ser um regresso em grande forma do realizador de Hóspedes Indesejados (2011). Depois de uma pausa das longas-metragens, com este poema feminista slasher, Ti West vem provar que continua a ser uma das vozes mais refrescantes do cinema de terror, sem abdicar do minimalismo criativo que o define. A história de X leva-nos ao Texas rural dos anos 1970, onde uma equipa de rodagem e respetivos atores se preparam para fazer um filme pornográfico "de qualidade" - cinema independente, como lhe chama o rapaz da câmara -, sem perceber que escolheram o local errado... Acontece que o casal de idosos que lhes alugou um casebre tem os seus próprios segredos.

Começando com vestígios de um massacre, o filme infunde o terror através de uma mise-en-scène impressionante, que apanha o nervo mais delicado de uma certa América. Homenageia-se aqui o Massacre no Texas (1974) e Psico (1960), mas são as notas tarantinescas que tornam este vinho irresistível - em exibição no TVCine Top.

Entretanto, já foi lançada a prequela, Pearl, e parece que se recomenda.

BEETLEJUICE - OS FANTASMAS DIVERTEM-SE, de Tim Burton

HBO Max

Na dúvida, Tim Burton é sempre uma escolha segura de Halloween. Podíamos ir para outros títulos seus, mas Beetlejuice (1988) tem qualquer coisa de entretenimento cinco estrelas, em jeito de diversão destravada. É o filme em que um jovem casal feliz interpretado por Alec Baldwin e Geena Davis morre pouco depois do início, passando à condição de fantasmas dentro da sua própria casa, que em breve terá como novos habitantes uma família excêntrica e, aparentemente, impossível de assustar. Eles tentam de tudo em matéria de arrepios - até um número musical com a canção Banana Boat Song, que põe toda a gente a dançar de uma forma hilariante. Inclusive, ficam amigos da rapariga gótica da família (Winona Ryder em modo Wednesday, da Família Addams). Mas em último recurso têm de chamar um vigarista do Além, Beetlejuice (Michael Keaton, genial!), para resolver a situação...

Eis a garantia de um serão delirante, com um mestre de cerimónias que viu 167 vezes O Exorcista e diz que se "diverte cada vez mais". É o chamado terror alegre.

TRÊS BRUXAS LOUCAS, de Kenny Ortega

Disney+

A estreia recente de Três Bruxas Loucas 2, em exclusivo no serviço Disney+, justifica o (re)encontro com o primeiro filme, de 1993. É o tipo de produção que se destina abertamente à quadra de Halloween, contando a história de três irmãs solteiras, bruxas enforcadas em Salem no século XVII, que continuam a habitar o imaginário de uma pequena comunidade. Bette Midler, Sarah Jessica Parker e Kathy Najimy interpretam em ambos os filmes essas manas Sanderson, eternas desvairadas que aparecem na noite mais importante do ano, por involuntária convocação, para animar a malta com o seu desejo de vingança e sede de juventude - uma das delícias desse primeiro Hocus Pocus é um número musical com o tema I Put a Spell on You, estilo concerto pop em pleno baile de máscaras... Pura comédia familiar, ideal para cumprir a tradição.

FRANKENWEENIE, de Tim Burton

Disney+

De novo, Tim Burton. Em vez de A Noiva Cadáver, escolhemos a animação Frankenweenie (2012), com raízes emocionais muito fortes na obra do realizador americano. Esta longa-metragem a preto e branco nasce de uma curta homónima que Burton realizou em 1984 (também disponível no Disney+), ainda na qualidade de aprendiz que tentava singrar no cinema. Inspirado no Frankenstein (1931) de James Whale, esse pequeno filme falava de um rapaz a entrar na adolescência que, perante as maravilhas da eletricidade, tenta ressuscitar o seu cão Sparky, atropelado por um carro. Quando o consegue, a vizinhança entra em alvoroço, tal como acontece com os camponeses raivosos de Frankenstein.

O que essa curta continha da essência burtoniana é algo que se espraia na animação: a ternura dos seres marginais (que também está na origem de Eduardo Mãos de Tesoura). É, por isso, muito comovente revisitar esta narrativa que junta coração e Ciência num curto-circuito social fascinante, com Gremlins e Godzilla à mistura. A liberdade criativa e o poder de citação de Burton não têm limites.

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