As rimas da história 

Enquanto se contabilizam os mortos e detidos nos protestos do Irão, incluindo as sentenças, o cinema do país continua a mostrar a sua vitalidade. A mais recente prova é III Guerra Mundial, de Houman Seyedi, um drama imprevisível com uma nota forte de comédia absurda.

O mínimo que se pode dizer do cinema iraniano é que está bem e recomenda-se. Depois de no último ano ter chegado às nossas salas uma expressiva amostra de filmes dos novos realizadores que estão a marcar a paisagem recente desta cinematografia - em particular Saeed Roustaee (A Lei de Teerão e Os Irmãos de Leila) e Panah Panahi (Estrada Fora) -, para além de Um Herói, do consagrado Asghar Farhadi, 2023 prepara-se para ser mais um ano de afirmação iraniana na sala escura. Não só porque na próxima semana serão repostas duas obras de uma grande referência, Abbas Kiarostami, a par do lançamento de Ursos Não Há, o novo de Jafar Panahi, mas porque, antes de tal operação, somos bafejados com a estreia de III Guerra Mundial, o filme que revela por cá o olhar de mais um cineasta iraniano, Houman Seyedi.

Distinguido no último Festival de Veneza com dois prémios da secção Orizzonti, para melhor filme e melhor ator, III Guerra Mundial não será literalmente aquilo que o seu título sugere, embora não deixe de corresponder a uma dimensão dramática profundamente enraizada no horror da guerra - não é, para todos os efeitos, um filme de guerra tout court. Arranca com uma epígrafe atribuída a Mark Twain: "A história não se repete, mas muitas vezes rima." E para se perceber o que isso significa, convém tomar atenção aos pormenores desta impressionante e robusta fábula humana que só ganha contornos claros já quase a meio, quando a personagem principal, Shakib (Mohsen Tanabandeh), se torna mais proativa.

No início, Shakib é apenas um trabalhador braçal, a viver como sem-abrigo, dependente de salários ocasionais. Surge uma oportunidade de trabalho numa construção e ele embarca numa das carrinhas que levam ao local, ainda antes de saber que se trata de um set de filmagem onde vai ser rodado um filme sobre o Holocausto.

Por esta altura, III Guerra Mundial tem o tom de uma comédia negra, com Shakib e os restantes trabalhadores, mão-de-obra barata, de repente a serem chamados para entrar no filme como prisioneiros de um campo de concentração: mandam-nos vestir trajes às riscas e filmam-nos a despirem-nos numa cena que é suposto ilustrar o pânico numa câmara de gás... Decorre tudo com uma fluidez bizarra, que visa apenas mostrar como o uso do poder acontece "naturalmente", neste caso, no contexto da rodagem de um mau filme (como várias vezes se ouve os membros da equipa comentar). Chegado o momento em que é preciso substituir o ator que interpreta Hitler, Shakib é escolhido também para a tarefa. Como se fosse só mais uma.

O desgraçado bem tenta recusar o papel, alegando que não sabe representar (quando perguntado, diz nem sequer saber quem foi Hitler), mas, como tudo naquela patética rodagem, o que importa é andar para frente, vestir a farda, acertar o bigode e aprender a saudação nazi. Qual fantoche humano, esta personagem que nada fez para chegar onde chegou, nem desejou mais do que o seu sustento, vê-se em verdadeiros trabalhos quando uma prostituta surda, com quem mantém contacto, lhe pede ajuda: quer fugir do seu violento proxeneta e esconder-se na casa (que serve de cenário no filme) onde Shakib se abriga à noite.

Este pedido, aceite, irá proporcionar a guinada determinante e explosiva num quadro de evolução que aponta para a tragédia. Difícil é, naquele ponto, vislumbrar até onde Houman Seyedi é capaz de levar essa tragédia. III Guerra Mundial é um filme que tece o suspense por meio de outras matizes, seja a sátira, seja o drama social, camuflando a sensação de perigo na desordem de um set, que é a desordem da própria vida. Por outras palavras: as coisas acontecem, e quando nos apercebemos, alguém já deu uma volta de 180 graus. Não como boneco ao serviço de um guião, mas como um ser apanhado na linha delicada de instabilidade emocional que tudo muda.

Estas "linhas" muito marcadas de um cinema que procura adquirir um semblante de género, sem dele depender, é algo que já se notava no impulso dos filmes de Saeed Roustaee. Mas aqui, como de resto no caso de Roustaee, a virtude está no modo como essa expressão não deixa de conviver com um intrínseco olhar sobre a sociedade iraniana. As palavras de Houman Seyedi à publicação The Hollywood Reporter transmitem-no de forma cristalina: "Quando vens de um país como o Irão, procuras sempre estar do lado do povo. (...) eu não sou exceção. Tento inspirar-me nos factos ao nosso redor, como as condições económicas, a maneira como o meu pai e a minha mãe lidam com as dificuldades de pagar as despesas. Essa inspiração mostra-me o caminho para contar a história."

Não é, então, por acaso que o protagonista de III Guerra Mundial, um zé-ninguém, se constitui a peça ideal para sondar o funcionamento da hierarquia. Seyedi nem sequer constrói a típica narrativa de ascensão absoluta - mesmo quando veste a farda de Hitler, as mordomias que esta "estrela de cinema" alcança não vão muito além de um sofá para dormir à noite e chazinhos servidos nas pausas da rodagem. O que perturba passa menos pelo que se vê do que por aquilo que cresce no âmago de um homem. Quando nos apercebemos, já a sua performance inepta se aprimorou.

dnot@dn.pt

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