A arte urbana é política

Um é artista, o outro pensa a arte pública enquanto fenómeno social. A poucas semanas do italiano Franz Cerami apresentar em Lisboa o seu novo trabalho, o DN falou com ele e com o antropólogo visual Ricardo Campos.

As ruas de uma cidade não são uma tela em branco nem um suporte que permita ao artista estar a sós com a sua imaginação. Quem o afirma, à laia de aviso, é o italiano Franz Cerami, artista digital e professor de Retórica e Digital Storytelling na Universidade de Nápoles, que, em setembro próximo (assim o permitam os condicionamentos sanitários) virá a Lisboa apresentar o trabalho de videomapping Lighting Flowers & Pink City. Uma vinda que, na verdade, será um regresso, já que a 8 de julho, Cerami esteve na Embaixada da Itália em Lisboa para uma conferência a dois, com o antropólogo visual português, Ricardo Campos. O DN falou com ambos a propósito dos temas que os inquietam: arte, política e convivência pacífica em território urbano.

A arte urbana é, pela sua própria natureza, pública. Para si, Franz, é também uma forma de intervir na cidade e nas vidas das pessoas?

Franz Cerami: Eu sempre trabalhei em arte pública e creio que tive desde muito cedo a consciência de que ela tem uma função política. Isto não significa que eu pertença a algum partido, ou sequer que faça campanha por alguns deles, mas acredito numa arte que procura melhorar vidas e promover a aproximação entre as pessoas. De uma maneira muito insistente, tenho trabalhado com as comunidades mais carentes que estão invariavelmente nas periferias das cidades porque foram sendo atiradas para lá pelos poderes locais. Em dezembro do ano passado, fui contratado por uma grande empresa italiana (as massas Barilla) para criar uma instalação capaz de gerar uma sensação de calor na comunidade. Recorrendo à mitologia da própria cidade de Nápoles, tentei mostrar que a sereia não só é a primeira migrante da Literatura como também foi uma fundadora de comunidades. Isto para dizer o quê? Que o migrante que vem de fora não é um inimigo, mas um fundador. Pessoalmente, acredito que as mulheres que chegam agora à Europa, depois de atravessarem o Mediterrâneo em condições deploráveis, são as fundadoras de uma nova Europa. A partir daí, fiz retratos de mulheres migrantes, só que em vez de as retratar como vítimas, retratei-as como mulheres lindas e com um grande sorriso.

Ricardo Campos: Quando pensamos em cidade e em espaço público, temos de o considerar um espaço político na medida em que ali circulam comunidades com diferentes representações, imagens, práticas sociais, em que se confrontam a periferia e o centro. Melhor dizendo, o espaço público é tanto de negociação como de conflito. A arte pública tem um papel muito importante a desempenhar neste contexto.

O espaço público é mais democrático do que uma galeria de arte ou um museu?

R.C: A arte da galeria, independentemente da sua qualidade, é mercantil e, por natureza, está fechada. Ou pagamos bilhete, em alguns casos, ou, não o pagando, passamos por uma série de filtros sociais sobre quem deve aceder ou não. No espaço público, a arte está presente e disponível para todos, de forma gratuita, o que tem um impacto direto na comunidade, seja porque valoriza aquele território, seja porque oferece arte a quem não tem hábitos culturais. Claro que isto é muito mais difícil nos regimes autoritários porque há um controlo muito maior sobre o território comum. Pelo contrário, nas sociedades democráticas este está aberto a todos. Ou deve estar.

Franz, é difícil trabalhar sob o constante escrutínio de quem passa?

F.C: Eu gosto muito de fazer amizades, por isso, não me incomoda essa abordagem. Claro que há momentos complicados como certa noite em que eu estava a pintar debaixo de um viaduto ferroviário em Nápoles e fui abordado por um casal pouco amistoso. Ela teimava que eu lhe tinha tirado uma fotografia sem pedir autorização, mas eu fui-lhe explicando que não, que estava a pintar um mural. Ao que ela grita para o marido: "Gennaro, sai do carro!" O Gennaro era gigantesco, eu já suava, a sentir-me indefeso e ela diz-lhe: "Olha, é arte!" Acabaram por me pedir para lhes tirar uma fotografia com o mural em fundo e foi maravilhoso porque eles reconheceram o valor da arte e quiseram, por momentos, fazer parte dela. Mas, como imagina, eu cheguei a recear pela minha vida. Antes de iniciar um trabalho, eu procuro entrar em contacto com a comunidade e perceber como é que ela funciona, quais são as suas regras, convenções, etc. Quando fiz este trabalho com as mulheres migrantes, estava ciente de que não as podia abordar como a abordo a si, com um beijo ou um aperto de mão. Mas quebrado o gelo, acabámos por criar uma boa atmosfera, cheia de riso e canções.

A arte pública também tem um valor pedagógico?

R.C: Tenho trabalhado mais a arte urbana ligada ao graffiti e à street art e tenho-me deparado com reações muito espontâneas - geralmente gostam do que vêem. Estamos a falar de pessoas que, de uma maneira geral, não tiveram acesso a livros de História da Arte ou a artistas contemporâneos. Esta questão da partilha e do acesso é importante e creio que é, de facto, pedagógica.

F. C: Concordo muito com a visão do Ricardo. Temos de pensar que a arte urbana é uma coisa muito antiga. Em Nápoles, toda a gente escreve e desenha nos muros desde sempre, seguramente desde o tempo dos gregos antigos. Habitualmente faço ateliers de arte em bairros como aquele em que se passa a série Gomorra com meninos carentes e com problemas muito sérios. Muitas vezes chorei mas aprendi a criar com um conjunto de pessoas que nunca ninguém ouve a não ser que gritem. Não lhes fui dizer, porque não tenho esse direito, que não se grita, mas que podemos criar juntos uma obra que é nossa. E isso tem, para eles, um valor que talvez não possamos avaliar totalmente.

Ricardo, tem sido lento o processo de reconhecimento deste tipo de arte quer pela universidade, quer pelo mercado?

R.C: O graffiti é uma expressão antiquíssima, temo-lo em Pompeia, na Antiguidade Clássica. Podemos afirmar que esta ideia de escrever e desenhar nos muros é tão antiga como a Antiguidade, sempre tivemos esta pulsão, não apenas de deixar uma marca, de dizer eu estou aqui, mas de comunicar com os outros. Nesse sentido, podemos dizer que tem sido estudada por diversos arqueólogos e historiadores. Aquilo em que me especializei foi no estudo do graffiti urbano contemporâneo e que surgiu no final dos anos 60, 70 nos Estados Unidos e que hoje é uma linguagem global. Neste caso podemos dizer que sim, durante alguns anos foi um tema pouco estudado. Isto começou a mudar no princípio do século XXI porque houve uma reconfiguração simbólica daquilo que é o graffiti, que, no fundo, começou a ser reconhecida pelos media como uma forma artística legítima. Daí até à apropriação pelo mercado de arte foi um passo.

Daí fenómenos como o Banksy...

Sim, ou, como no caso português, o Vhils.

Franz, que trabalho é este que vai apresentar em Lisboa, provavelmente em setembro?

É um videomapping que reconstitui uma espécie de cidade utópica, muito colorida, que é a soma das cidades por que passei: Marrakesh, Roma, Nápoles, São Paulo, Paris, Madrid e, finalmente, Lisboa. Acho que faz muito sentido depois de todas elas terem sido submetidas a um problema que já não era local, mas global. De repente, todas se pareceram entre si, encerradas numa imensa tristeza.

dnot@dn.pt

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