Se tsunami de 1755 fosse hoje morreriam cem mil

Geólogos estudam vestígios do passado para documentar o terramoto e tsunami que devastou Lisboa e afectou o Algarve em 1755. Com o litoral a ser o local preferido de grande número da população portuguesa, uma catástrofe idêntica poderia matar cem mil pessoas, diz o especialista César Andrade. Quanto mais tempo passar, maior será a intensidade do fenómeno

"Se houver um tsunami que afecte Lisboa, será de uma magnitude e um impacto impressionantes." O geólogo César Freire de Andrade defende que, se um maremoto idêntico ao que ajudou a destruir a capital e afectou o Algarve em 1755 acontecesse hoje, o número de vítimas poderia ascender a cem mil.

Cerca de seis mil pessoas terão morrido há 254 anos no tsunami, isto sem contabilizar aquelas que não resistiriam ao terramoto que antecedeu a onda. O professor da Faculdade de Ciências de Lisboa diz ser hoje possível determinar que terá tido uma altura de seis metros. Quanto à sua extensão, as construções entretanto erguidas nos locais afectados impossibilitam que seja feito um registo geológico. Mas a previsão é que o mar terá entrado em terra até onde actualmente se situa o Teatro Nacional D. Maria II, no Rossio.

Já no Algarve, a onda terá atingido os 11 a 15 metros, com algumas zonas a penetrar 300 a 1100 metros da costa.

O geólogo está a efectuar um estudo para "reconstituir eventos" como o de 1755, averiguando o impacto que tiveram no litoral português e que hoje será apresentando no Padrão dos Descobrimentos.

"É um trabalho de detective, uma espécie de CSI, mas nas rochas", diz o professor ao DN. O trabalho consiste em furar a coluna de sedimentos - que é formada pelos materiais que o mar carregou, tendo os depósitos ficado enterrados -, sendo que "cada camada é uma folha, que conta uma história".

"Se formos capazes de interpretar sedimentos, é possível partir para a reconstrução de eventos. Por exemplo, estudamos os fósseis, mas interpretando-os no ambiente em que viveram. Desta forma podemos calcular a velocidade da água, se era doce ou salgada, a velocidade da corrente", salienta.

Quanto à profundidade a que é necessário furar para estudar um evento como o de 1755, César Andrade diz que não ultrapassa os dois metros.

Este tipo de investigação é fundamental para ajudar a prevenir os efeitos futuros. "A questão não é se vai haver um tsunami, é quando e onde", alerta César Andrade, acrescentando que, "quanto maior for o intervalo, maior será a intensidade do maremoto".

Porém, a geologia apenas pode estudar o passado, mas prever um tsunami "é impossível". "Apenas podemos fazer uma estatística, tentar calcular os intervalos de retorno, que são milenares para eventos de grande intensidade", afirmou. Isto não significa que só aconteça um em cada mil anos. "Podem acontecer dez", diz. "Há que não criar pânico, mas não podemos estar tão descansados como isso."

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