Pedro Cabral: "A incapacidade de esquecer é uma maldição"

A conceção do cérebro com capacidades ilimitadas não reside no discurso do neurologista pediátrico Pedro Cabral. É a limitação deste órgão e da memória que, segundo o autor, nos permite alcançar o extraordinário. Assim o defende no livro O Paradoxo do Cérebro - Memória, Autismo, Identidade. A propósito da obra, a conversa com o autor visita temas como a "maldição" de não esquecermos, o cérebro enquanto cativo do corpo e a condição efémera da consciência.

Não é literatura de viagem, mas proporciona-nos um longo périplo a novas e diversas paisagens. Uma itinerância que nos aproxima do objeto que ocupou anos de trabalho e prática clínica ao neurologista pediátrico Pedro Cabral. O objeto somos nós, mais precisamente a nossa memória e de como armazenamos as recordações, as recuperamos, mas também como as esquecemos e de como essa condição, a de esquecer, é importante.

Em O Paradoxo do Cérebro - Memória, Autismo, Identidade de Pedro Cabral (edição Temas e Debates), o autor, que desde a década de 1980 se dedica à epilepsia e à neurologia do desenvolvimento, convida-nos a percorrer um caminho que, em mais de 400 páginas, arreda da sua existência confortável alguns lugares-comuns.

As limitações da memória e do cérebro como motor para criar maravilhas e condição para o nosso funcionamento normal; a volatilidade da nossa consciência no seu retrato do mundo e de nós; a resposta ao "quem manda aqui", na relação entre o cérebro e o corpo, ocupam as reflexões de Pedro Cabral, partilhadas na conversa com o Diário de Notícias.

"Para aprender temos de modificar parte das memórias e de criar outras novas. Ou seja, precisamos de esquecer. O autismo surge como um exemplo maior dessa dificuldade em esquecer. É por isso uma doença de memória". As palavras são do próprio Pedro Cabral, no resumo que faz ao tema do seu livro, síntese do muito que nele há para palmilhar.

Um paradoxo é uma afirmação contraditória que desafia a lógica e o senso comum. Traz o termo paradoxo para título do seu livro e associa-o ao cérebro. Porquê?
De facto, não é só um paradoxo, são três funcionamentos paradoxais do cérebro. Por exemplo, do ponto de vista evolutivo, imaturos e incompletos que somos, temos a noção de que usamos apenas uma pequena percentagem das imensas possibilidades que o cérebro nos oferece. No entanto, por sermos incompletos nas nossas capacidades sensoriais, cognitivas, de memória, de retenção, de consciência, de tudo, temos uma capacidade limitada na nossa elaboração mental. Isso traz-nos vantagens. Eis um dos paradoxos.

Depois, julgamos ter um retrato completo e objetivo do que se passa à nossa volta e do que se passa em nós, quando, no fundo, isso é uma ilusão. Temos de viver a ilusão de acreditarmos em nós. Se não acreditarmos, temos um problema. Este é outro exemplo do que é paradoxal. Julgamos que abarcamos tudo, quando, no fundo, a consciência é extremamente volátil e efémera.

E o terceiro paradoxo?
Prende-se com a pergunta "quem manda aqui?". Temos, recorrentemente, a noção de que somos nós que decidimos o que fazemos, quando na realidade somos, a cada instante, determinados pelo corpo, as suas necessidades e desejos. O cérebro sofre modificações sempre que o corpo transmite ao sistema central as experiências por que passa. Ou seja, há um rearranjo dos circuitos neuronais e, daí, prioriza algumas ativações cerebrais face a outras.

A este propósito diz-nos no seu livro: "o corpo é, como a neurologia o sente, a medida de todas as coisas". A expressão tem um travo filosófico. Mas, não será essa a sua intenção, antes um ponto de partida para o que nos explica no livro, o cérebro como cativo do corpo.
Exato, o cérebro serve o corpo. É um órgão do corpo que se especializou na interface com o exterior e que assumiu funções de consciência do próprio corpo, na sua análise e monitorização. Sei a implicação filosófica que isto tem, mas também reconheço que o livro não poderia deixar de ter implicações filosóficas. Não pretendo "meter a foice em seara alheia", mas era impossível não olhar para a presença do corpo, sem tirar conclusões sobre a nossa atividade mental como um todo.

Definiu há pouco a consciência como efémera. Pode dar-nos um exemplo?
Um autor como Mark Solmes [neuropsicólogo sul-africano], que acompanho com muita atenção, afirma mesmo que a consciência é apenas aquilo que acontece na nossa memória de trabalho, que é algo que dura menos de um minuto e que está constantemente a ser reconstruída, algo de que não tenho qualquer dúvida.

Na prática que exemplo nos pode apresentar?
O cérebro foi "desenhado" pelo corpo, digamos assim, e pelas circunstâncias que sujeitaram o corpo no seu ciclo evolutivo e na sua história pessoal. Nessas circunstâncias, acontecem coisas paradoxais. Dou-lhe o exemplo com a experiência da mão de borracha. Uma mão de borracha, semelhante à minha, surge num ecrã enquanto é estimulada com um pincel. O mesmo acontece com a minha mão. Ao fim de algum tempo considerarei que a mão "falsa" é minha e reagirei a estímulos. Sei que é uma mão de borracha, que não é minha, mas o cérebro engana-se e, apesar do meu saber consciente e adulto de que aquela mão não é minha, o corpo vai sentir como uma ameaça qualquer agulha que se aproxime da mão de borracha. Mais do que o cérebro é o corpo que não se deixa enganar. Pois é, porque o cérebro enganou-se.

Querendo definir consciência, como o podemos fazer?
Há vários planos de funcionamento consciente. O mais básico prende-se com a vigília, o estar acordado e perceber onde estou e como estou. Depois, há um outro plano que é o da reflexão da pessoa que sabe que pensa tudo, o de se descentrar do imediato, das perceções e da maneira como elas a influenciam, por exemplo o que a incomoda e aquilo de que gosta, como escutar o barulho da água do mar. E, depois, há esta outra coisa que é a capacidade de elaborar, de refletir sobre a presença dessa pessoa que tem a capacidade de olhar para o ambiente e para si mesma, na perspetiva de ter uma história e poder partilhá-la com alguém. E isso está a ser solicitado na discussão sobre os novos computadores, na capacidade de pensarem sobre si mesmo.

Antes de darmos esses superpoderes aos computadores não teríamos de lhes dar um corpo?
Há uns tempos, alguém me falou da possibilidade de se transcrever para um programa fabuloso tudo o que é atividade cognitiva do nosso cérebro, para depois a enviar para o espaço. Esses conteúdos permaneceriam para sempre como consulta. É um erro. Essa presença dos nossos conteúdos mentais, só o é porque há um constante aporte de informação que o corpo faz chegar ao sistema nervoso central, ao cérebro. Quando essa informação não existe, o cérebro deixa de trabalhar sobre as coisas, porque tem um objetivo, o de cuidar do corpo porque este muda, assim como a sua relação com o ambiente, dando-lhe o melhor destino possível. E o próprio cérebro pode mudar de objetivos. Todos já sentimos que mudamos os nossos interesses e prioridades, criando novos sobre os anteriores, algo que é impensável para um computador.

No início desta conversa referiu que a capacidade limitada do cérebro é vantajosa. Porquê?
Um exemplo está na capacidade de vermos o que se passa à nossa volta, de tomarmos consciência das coisas. A perceção oferece-nos milhões de peças de informação a todo o instante, mas nós só conseguimos reter, a todo o momento, seis a sete peças dessa informação. O exemplo mais típico é o da mancha cega, ou seja, estamos a olhar para uma coisa e não vemos ali o buraco. Damos a volta a esse buraco e reconstruímo-lo mentalmente. E reconstruir uma coisa é muito bonito, porque é o que fazemos há centenas de milhares de anos. Construir algo que supera as nossas limitações.

Pode dar-nos outro exemplo?
Sim, com a linguagem. Como sabemos, quanto mais cedo aprendemos uma língua, mais ela se fixa nas suas diferentes funções, entre outras, a semântica, a pragmática, a fonológica. Provavelmente, foi por não termos memória para manter toda a informação que nos chegava que percebemos o que estava por trás, na articulação dos diferentes elementos da linguagem. No fundo, tivemos acesso à coisa mais importante, a sintaxe, a organização dos sons da linguagem, e, daí, começámos a descobrir regularidades. Isto por ausência de capacidade enciclopédica de abarcarmos tudo aquilo que víamos ou ouvíamos.

Refere no seu livro que substituímos memórias a todo o momento. Como gerimos o catálogo das nossas memórias?
Prescindimos inconscientemente daquilo que o corpo já não precisa e adaptamos o que existe como matriz para os novos dados que precisamos de ter disponíveis no presente e, eventualmente, no futuro. Seja a nível motor, emocional, semântico, autobiográfico, todas as memórias têm de ser minimamente reformuladas. Podermos modificar a nossa base de dados é fundamental. Algo muito importante para mim que desde há muito trabalho com perturbações do espetro do autismo. Ou seja, perceber a incapacidade de esquecer conceitos, gestos ou gostos que, no fundo, se fixaram durante décadas numa determinada pessoa. A cada segundo, criamos um milhão de novos contactos sinápticos e, sobretudo à noite, temos de "limpar" os que não são importantes e reformular os que importam. Agora, se não conseguimos modificar as memórias, estamos condenados a viver as coisas sempre da mesma maneira, o que é mito incapacitante.

Aliás, usa a expressão "maldição" associada ao facto de não conseguirmos esquecer, apagar ou recriar memórias e liga-a ao autismo, dizendo-o uma doença da memória. Pode explicar-nos?
Todos temos de mudar as nossas memórias, mesmo sem nos darmos conta disso. Quando não mudamos a visão do mundo que está no nosso cérebro, tudo terá de estar sempre igual. Todas as manifestações de funcionamento do autismo, mesmo no mais inteligente e elaborado, podem, no início, ser explicadas nas dificuldades na adaptação ao ambiente. Poderíamos ter mais exemplos, como a dislexia, mas é muito tratável porque, digamos, há uma persistência de erros e dificuldades de leitura que podem ser resolvidos com o tratamento certo. No caso do autismo, não é tão fácil porque este prende-se a um defeito de base que está na estruturação dos contactos sinápticos. Só agora começamos a perceber como. Há pessoas com um comportamento muito rígido em determinadas áreas da sua atividade mental, outras noutras áreas, também nos seus hábitos e varia muito de pessoa para pessoa e mesmo na própria família, quando há dois irmãos afetados por perturbações do espetro do autismo.

"A felicidade é sempre uma variável entre o que são as nossas expectativas e a satisfação dos nossos desejos. Se uma pessoa com perturbação do autismo vive muito mais no presente e com incapacidade de imaginar o futuro, a felicidade também está ancorada nessa satisfação atual".

Podemos dizer que no autismo há um bloqueio no remapeamento das memórias?
Exato, trata-se de um problema no remapeamento da memória. Torna-se evidente quando se ouve as pessoas e as famílias. As memórias ficaram nas coisas que não puderam ser remapeadas.

Essa incapacidade de esquecer é irreversível?
A incapacidade de esquecer é uma "maldição", como ainda há pouco referiu. É muito difícil revertê-la, porque está presente, provavelmente, antes de nascermos. Claro que o que tentamos fazer, por exemplo com a estimulação magnética, é a de suspender determinadas funções, permitindo suscitar ou ver se estão presentes outras que podem suportar a interação com o ambiente. No fundo, aquilo que fazemos na perturbação terapêutica do autismo é tentar mobilizar a pessoa para lhes dar sentidos e permitir utilizar outras estratégias, de forma continuada, ao longo do tempo, para modificar o contacto com as outras pessoas, pois permite-nos receber aprendizagens.

Fala-nos numa pluralidade de autismos e nos perigos das estereotipias. O que concorre para tornar um diagnóstico imprudente?
Todos os dias vejo pessoas que chegam com diagnostico de Autismo ou Síndrome de Asperger, que é uma forma de autismo, mas que de facto não os têm. Tudo se conjugou para que nos últimos tempos tal coisa acontecesse, com a profusão do acesso ao digital e virtual, as pessoas cada vez mais sozinhas, com o risco que isso representa. É inquietante, porque falta o retorno dado pela experiência, aprendizagem e interação com os outros. A COVID-19 veio aprofundar isto com a virtualização das sociedades, nomeadamente a virtualização do ensino. Para algumas crianças com perturbação do espetro do autismo o preço dos confinamentos foi terrível.

No livro responde de forma muito direta à pergunta: "uma pessoa com autismo pode ser feliz?". Devolvo-lhe a pergunta para trazer a resposta aos leitores.
A felicidade é sempre uma variável entre o que são as nossas expectativas e a satisfação dos nossos desejos. Se uma pessoa com perturbação do autismo vive muito mais no presente e com incapacidade de imaginar o futuro, a felicidade também está ancorada nessa satisfação atual. Ou seja, não vive atormentada com aquilo que lhe pode trazer o futuro. Quando os pais me perguntam: "ele ou ela é feliz?". Ao vermos um sorriso no rosto da criança, sentimos que é um dia a dia incompleto para nós, que temos outras dimensões, mas que não parece beliscar o sentimento de bem-estar dos pequenos.

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