Investigação: 50 mil euros para saber mais sobre fibrose pulmonar

Bolsa D. Manuel de Mello atribuída a projeto de Helder Novais e Bastos que vai criar um registo português de doentes com esta condição, com biobanco associado para seguir e monitorizar diagnosticados.

Desconhecem-se as causas mas os efeitos vão sendo cada vez mais conhecidos - e são especialmente limitadores, já que retiram capacidade aos pulmões, provocando cansaço e falta de ar em tarefas tão simples como falar ou tomar banho. Foi a doença a que a cantora Dina não resistiu, ainda que tenha com ela convivido durante 13 anos - um feito extraordinário, já que a maioria dos doentes de fibrose pulmonar não sobrevivem mais de quatro. E ainda que seja condição rara, de evolução imprevisível e cura ainda desconhecida, a fibrose pulmonar afeta 27 em cada 100 mil portugueses.

Agora, pode estar um passo mais perto de se tornar menos desconhecida, com a investigação a dar um passo fundamental para melhorar o prognóstico e a qualidade de vida das pessoas que sofrem desta doença: o projeto de Helder Novais e Bastos, investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, recebe hoje o maior prémio nacional de incentivo à investigação para jovens médicos. São 50 mil euros numa bolsa atribuída pela Fundação Amélia de Mello, em parceria com a CUF, a um projeto que permitirá avaliar a evolução da fibrose pulmonar, uma condição patológica grave e subdiagnosticada.

O grande desconhecimento que ainda existe sobre esta condição rara fez que a fibrose pulmonar se tornasse, nos últimos anos, numa das principais razões para transplante do pulmão, representando cerca de um terço do total de transplantes deste órgão no mundo. E Portugal não é exceção. O diagnóstico normalmente tardio, "a inexistência de marcadores fiáveis que permitam prever a evolução da doença e o quão precoce ou intensivo deve ser o tratamento, aliada à escassez de alternativas terapêuticas disponíveis", deram o mote, adiantam os responsáveis pela atribuição da bolsa, para o estudo liderado pelo jovem professor e investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S).

O projeto foi merecedor da escolha para atribuição da bolsa, o que lhe permitirá avançar na investigação "FIBRA-Lung: Interações hospedeiro-microbioma na busca por biomarcadores de doenças pulmonares intersticiais fibrosantes que regem a aceleração", cujo objetivo é melhorar o prognóstico e a qualidade de vida das pessoas que sofrem de fibrose pulmonar.

A atribuição desta bolsa "é um incentivo à investigação e desenvolvimento de melhores práticas clínicas ao serviço dos doentes", resume Rui Diniz, presidente da Comissão Executiva da CUF, explicando que o investimento "no ensino e na cooperação com as instituições universitárias é estratégico para o futuro dos cuidados de saúde". O responsável considera por isso que iniciativas como a Bolsa D. Manuel de Mello "são fundamentais para valorizar o mérito dos investigadores portugueses e dos seus trabalhos" e contribuir "para a melhoria contínua dos cuidados de saúde".

A doença e a investigação

Do que se conhece desta condição, a fibrose pulmonar tem origem num "conjunto de doenças pulmonares difusas" que resultam, pela inflamação e cicatrização anómala do tecido pulmonar, geralmente progressiva, em elevadas taxas de morbilidade e mortalidade. O prognóstico é hoje comparável ao do cancro.

O projeto liderado por Helder Novais e Bastos pretende investigar a prevalência dessas doenças pulmonares que conduzem à fibrose progressiva e "explorar as interações entre a genética do indivíduo e os diferentes fatores ambientais, por forma a identificar novos biomarcadores que permitam avaliar a evolução da doença e indicar precocemente o tratamento mais adequado e personalizado" para cada pessoa, ajudando assim a melhorar o prognóstico e a qualidade de vida de quem sofre de fibrose pulmonar.

Mais uma inovação trazida pelo médico pneumologista no Centro Hospitalar Universitário de São João e pela equipa de médicos do mesmo Centro Hospitalar e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em cooperação com biólogos e imunologistas do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) - onde se centrará grande parte da pesquisa laboratorial -, sob a coordenação de Margarida Saraiva, do grupo de investigação "Immune regulation" (regulação imune), é a possibilidade de criar o primeiro registo português de doentes com fibrose pulmonar, incluindo um biobanco associado no qual os participantes "serão seguidos e monitorizados ao longo dos primeiros anos após o diagnóstico". Através desse biobanco, explicam ainda os responsáveis pela atribuição da bolsa, será possível cruzar os dados da "evolução da doença com os perfis moleculares e a composição de microorganismos" presentes no sistema respiratório de cada doente.

Instituída em 2007 pela Fundação Amélia de Mello em parceria com a CUF, a bolsa de investigação D. Manuel de Mello, atribuída anualmente há 14 anos, destina-se a "premiar jovens médicos que desenvolvam projetos de investigação clínica, no âmbito das unidades de investigação e desenvolvimento das Faculdades de Medicina portuguesas". Para Vasco de Mello, presidente da Fundação Amélia de Mello, esta distinção que já beneficiou "mais de uma dezena de projetos de investigação cumpre, e continuará a cumprir, o propósito para o qual foi instituída de contribuir para a investigação e para o progresso das Ciências da Saúde em Portugal".

A cerimónia de entrega da bolsa terá lugar hoje no Auditório do Hospital CUF Porto, com a presença do secretário de Estado Adjunto e da Saúde, António Sales, e o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães.

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