Há 25 anos em órbita, o Hubble mudou a nossa visão do universo

A ideia do telescópio espacial nasceu em 1946, mas tiveram de passar 44 anos para que o sonho do físico Lyman Spitzer se realizar. Muitos portugueses usam os seus dados

Sofreu atrasos e foi considerado um projeto megalómano, custou o dobro do que estava previsto e chegou a ser míope por causa de um defeito de fabrico não detetado a tempo, mas, apesar de todos os dramas e contratempos, mudou radicalmente a ideia que os cientistas tinham do universo e mostrou detalhes inesperados sobre as galáxias, as estrelas e os planetas - dentro e fora do sistema solar - que levaram a astrofísica a novos patamares. É a herança do telescópio espacial Hubble, lançado para a órbita da Terra há exatamente 25 anos. Os cientistas ainda esperam delemuitas descobertas.

A lista das novidades que o primeiro telescópio lançado para o espaço trouxe à astronomia é quase interminável, mas há algumas que são autênticas bandeiras dos seus sucessos. Desde logo, foram as suas observações de um conjunto de supernovas (estrelas que explodem ao morrer) que permitiram verificar que o universo está em expansão acelerada.

Já se sabia que o universo está em expansão, mas não de forma acelerada. "Isso foi de tal forma surpreendente que mudou totalmente a nossa conceção da cosmologia e acabou por dar o prémio Nobel da Física em 2011 aos cientistas que o descobriram", recorda o investigador José Manuel Afonso do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), que também já usou dados do Hubble no seu trabalho.

"As observações do Hubble nos últimos 25 anos geraram um manancial imenso de informação, que muitos investigadores por todo o mundo utilizam e que surge em muitas publicações científicas", sublinha o astrofísico português.

Para José Manuel Afonso e a sua equipa, as imagens do Hubble foram decisivas para diferenciar e caracterizar um conjunto de galáxias e para perceber o que está a passar-se dentro delas quando exibem uma determinada atividade energética que é observável com radiotelescópios.

"No nosso caso, conseguimos perceber, graças ao Hubble, quais as galáxias que estavam em colisão e isso deu-nos a confirmação de que esse processo de colisão está ligado tanto a uma formação intensa de estrelas, como à existência de um buraco negro de proporções gigantescas no centro dessas galáxias", explica José Manuel Afonso. "Publicámos o trabalho em 2011", adianta.

Exoplanetas e galáxias iniciais

O jovem investigador David Sobral, também do IA, é outro dos astrofísicos portugueses que tem utilizado os dados do Hubble nas suas investigações. No seu caso, para descortinar e caracterizar as galáxias mais antigas do universo, ou seja, as que primeiro surgiram após o Big Bang, quando o universo era ainda um bebé de 600 ou 800 milhões de anos. As imagens do Hubble fizeram toda a diferença, ao ponto de ter uma descoberta que está agora para ser publicada.

"O que é observado a partir dos telescópios na Terra como um pontinho ténue de luz, a uma distância de 13 mil milhões de anos luz, surge nas imagens do Hubble com um detalhe que permite ver braços de espirais", diz David Sobral.

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