Chimborazo, o pico mais afastado do centro da Terra

Adormecido há séculos, o equatoriano vulcão Chimborazo guarda para si o título de pico terrestre mais afastado do centro do planeta. Um centro da Terra mítico que há séculos espicaça a inventiva de escritores.

Em 1864, Hans Bjelke, caçador de gansos islandês, descia ao interior da Terra a partir do vulcão Sneffels, na sua terra natal. Acompanhavam-no na jornada o professor Otto Lidenbrock, o sobrinho deste, Axel, e a jovem Graüben. Nas páginas de Viagem ao Centro da Terra, o escritor francês Júlio Verne transportava os seus personagens e o leitor para expedição impossível no espaço e no tempo. Sob a crosta terrestre, os heróis enfrentavam "monstros" do período Mesozoico, dinossáurios de uma era afastada 65 milhões de anos.

A aventura tornava-se possível com a decifração de um código criado no século XVI pelo alquimista islandês Arne Saknussemm. Uma vez mais, o autor de Viagem à Lua e Vinte Mil Léguas Submarinas punha a inventiva ao serviço das suas narrativas. A alquimia de Arne é uma ficção. As viagens ao centro da Terra também o são, embora campo profícuo para o ramo da literatura que as empreende há séculos. Em 1914, o inglês Charles Lutwidge Dodgson, imortalizado com o pseudónimo de Lewis Carroll, levou a sua Alice no País das Maravilhas para um mundo onírico, acessível através da toca de um coelho. Quarenta anos mais tarde, o jornalista e escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs embrenhava a sua escrita na obra literária No Coração da Terra. Aí, localizou o mundo de Pellucidar, território no âmago do planeta, acessível apenas a partir de uma abertura no polo norte. Burroughs, criador de Tarzan, iniciava com esta obra um périplo pelo mundo inferior.

Também o escritor irlandês C.S. Lewis embrenhava nos interstícios terrestres a sua obra de ficção infantil A Cadeira de Prata (1953), título inserido na série As Crónicas de Nárnia. Literatura subterrânea que reuniu nomes como os norte-americanos Edgar Allan Poe, e H.P. Lovecraft e o celebrado britânico J.R.R. Tolkien.

Páginas que rendiam homenagem à teoria nascida pela mão de um homem que ganhou a posteridade não a olhar para o centro da Terra, antes para o firmamento. Edmund Halley, astrónomo e matemático britânico, previu com precisão a órbita do cometa que singrou nos céus terrestres em 1758. Feito que valeu ao cientista inglês o de ver o seu nome a viajar à boleia do cometa que visita a Terra a cada 75 ou 76 anos (a última aparição deu-se em 1986). Com menor discernimento, Halley também firmou a ideia de uma Terra oca, habitável no seu interior e acessível a partir de fendas localizadas nos polos.

Com mais pragmatismo, o coração do planeta serviria, ainda no século XVIII, para firmar os fundamentos que determinam o ponto da superfície terrestre mais afastado do centro da Terra. Em 1802, vamos encontrar o esforçado e aclamado prussiano Alexander von Humboldt, a par do botânico francês Aimé Jacques Bonpland, na tentativa de conquista daquele que era, na época, tido como o pico mais elevado do planeta, o vulcão Chimborazo, localizado no Equador. Conquista nas alturas alcançada em 1880 pelo britânico Edward Whymper que subiu aos 6267 metros contados a partir do nível do mar.

Nas décadas seguintes, Chimborazo perderia para inúmeros picos asiáticos o título de mais alto gigante das alturas. Entre eles, soberano, o monte Evereste cuja altitude, fixada nos 8848 metros, foi calculada em 1852 pela mão do matemático e topógrafo indiano Radhanath Sikdar (medição que foi causa de disputa entre a China e o Nepal).

Não obstante o gigantismo do Evereste, não fugiria ao adormecido vulcão Chimborazo o título de pico mais alto, medida a distância deste ao centro do planeta: 6384 km, face aos 6382 km da montanha inserida na cordilheira himalaia. Uma vitória por dois quilómetros da montanha sul-americana frente à asiática que encontra explicação no facto de o planeta não se apresentar como esfera perfeita, antes ligeiramente achatado nos polos. Contas feitas, a distância entre o centro da Terra e a sua superfície não apresenta um valor absoluto extensível a todos os pontos do planeta. Para sermos precisos, 6357 km nos polos e 6378 km na linha do equador.

Etnógrafo, antropólogo, geógrafo, botânico, vulcanólogo, Humboldt, nascido em 1769, falhou a tentativa de conquistar o cume do ponto mais afastado do centro da Terra. Continuaria, contudo, o seu périplo histórico pela América do Sul, empresa que iniciara em 1799. Mais tarde, em 1845, nasceria das mãos de Humboldt a obra Kosmos, tratado em cinco volumes sobre ciência e natureza, das formas mais elementares de vida às nebulosas. Épico ao saber que arrebanharia a afeição do escritor Edgar Allan Poe. Este dedicaria a Humboldt a sua homenagem em Eureka: Poema em Prosa¸ obra de 1848. O mesmo Poe que dez anos antes descia ao mundo subtérreo na aventura A Narrativa de Arthur Gordon Pym de Nantucket e a hipótese de um canal subterrâneo a ligar os dois polos.

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