O icónico carrinho das bolas de Berlim foi proibido na praia do Barril

É o primeiro verão, em quase 30 anos, que o carrinho amarelo do sr. Joaquim não é puxado pelo areal. A proibição deste ícone da Praia do Barril, em Tavira, está a causar uma onda de solidariedade entre banhistas

Tem 58 anos de idade, dos quais mais de 30 foram passados a vender bolas de Berlim no Barril. Começou com a venda ambulante naquele areal em 1982 e desde aí que tem o mesmo fornecedor. "É o Bolinhas de Cabanas, um negócio de família, que até já é gerido pela neta", conta. A preferência manteve-se sempre pela frescura e qualidade dos ingredientes, já que as massas não são congeladas, mas sim preparadas todas as manhãs e fritas, antes de ser colocado o creme. O difícil transporte da fabrica à praia sempre ditou que as bolas fossem apenas vendidas sem creme pelo sr. Guerreiro, mas a morada de uma nova fábrica, mais perto do Barril, proporcionou uma nova oferta. Este ano, ainda que sem o ícone de rodas amarelas, Joaquim Guerreiro vende também bolinhas com creme de chocolate e com creme a 1,40 euros. Num bom fim de semana de praia chegam a sair mais do que 300 unidades.

Conhece os nomes das crianças, dos pais e dos avós que há anos fazem praia no Barril. Em troca, todos o tratam por Sr. Joaquim. Afinal, é há mais de 35 anos que passa todos os verões a percorrer quilómetros no areal para alegrar quem sonhou o ano todo com uma bola de Berlim. Até ao ano passado, a venda fazia-se empurrando um carrinho de grandes rodas amarelas que construiu para o efeito há muitos anos, com fibra de vidro e alumínio. Até que, em janeiro deste ano, a circulação da engenhoca foi proibida. "Quando recebi a habitual licença anual de venda foi-me dito pela autoridade marítima que não podia usar o carrinho", começa por contar Joaquim Guerreiro, frisando: "Não há uma razão aparente para tal. O carrinho não prejudicava ninguém, as rodas eram pneumáticas, as bolas bem acondicionadas e tudo era manual, puxado à mão."

Ao DN, o vendedor mais famoso da Praia do Barril afirma ter tentado recorrer da decisão, encaminhando o pedido à Agência Portuguesa do Ambiente (que gere o Plano de Ordenamento da Orla Costeira Vilamoura - Vila Real de Santo António), que terá mantido a anterior decisão. "Já tive clientes a oferecerem-me apoio jurídico, mas não quero ir por aí", diz ainda o sr. Joaquim, enquanto é questionado, mais uma vez na praia, pela ausência do carrinho de rodas amarelas.

Muitos são os banhistas que se aproximam para perceber o que aconteceu ou para trocar dois dedos de conversa. Falam do fim do «ícone do Barril» e recordam com nostalgia a construção do aparelho pelo Sr. Guerreiro e as brincadeiras junto das rodas amarelas. Outros fazem-no via Facebook, desde que um post na rede social tornou conhecida a proibição. A publicação fez chover muitas reações na caixa de comentários e conta, à data, com quase duas mil partilhas.

"Esta decisão não faz sentido. As bolas vinham frescas pelo comboio que faz a ligação à praia, estavam sempre bem acondicionadas e o Sr. Joaquim usava o carrinho precisamente para nunca pousar as caixas na areia", garante ao DN Nuno Lourenço, nadador-salvador naquela praia. A alternativa à proibição foi instalar duas caixas de esferovite, indicadas para o transporte de Bolas de Berlim, num trolley de pescadores. Mais uma criação do Sr. Joaquim, que aos 58 anos diz querer manter a mesma qualidade do seu trabalho. "Isto não é para agilizar o peso, embora, claro, as caixas pesem bastante. Mas não gosto de ter as bolinhas pousadas na areia, há dias de ventania e não gosto. Enquanto puder, assim vou fazer", vinca.

O DN tentou contactar a Autoridade Marítima Nacional, a Capitania do Porto de Tavira e a Agência Portuguesa do Ambiente, até ao momento, sem sucesso.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.