Houve discussão sobre o quarteirão da Portugália, mas o vereador do urbanismo não apareceu

Para os críticos, a torre de 16 pisos abre um precedente perigoso. Para os defensores, o Portugália Plaza vai abrir uma nova centralidade. Na primeira discussão pública sobre o quarteirão houve apenas um consenso: é um projeto estruturante para Lisboa. O vereador do urbanismo, Manuel Salgado, faltou ao debate.

Havia muitos arquitetos, e foi sobretudo entre eles que a discussão se fez. Estavam afinal em casa. Ontem, o auditório da Ordem dos Arquitetos tornou-se pequeno para acolher as dezenas de pessoas que participaram na primeira discussão pública sobre o Portugália Plaza, o novo empreendimento imobiliário que quer erguer uma torre de 16 pisos na avenida Almirante Reis, em Lisboa.

A Câmara Municipal não se fez representar e isso motivou várias críticas. "Os cidadãos ficaram a discutir a cidade só com os interesses privados", diz Rita Cruz, do Movimento Stop Torre 60 Metros Portugália, criado na quarta-feira. Seja como for, o projeto tem parecer favorável do departamento de urbanismo da autarquia, está em consulta pública até 18 de junho.

Na mesa, José e Nuno Mateus, da ARX Arquitetos, e José Gil, da Essentia (empresa que promove o projeto), insistiam constantemente num ponto à medida que apresentavam os detalhes do Portugália Plaza: mais do que discutir a polémica torre de 60 metros, importava discutir todo o quarteirão.

Em particular as novas passagens que se iam abrir para a rua António Pedro, e as praças interiores que nasceriam no complexo. "Esta vai ser uma zona de descompressão para um eixo contínuo de edifícios", dizia Gil. "E, nesse aspeto, vai devolver a cidade aos cidadãos."

Nuno Mateus assumiu as despesas da apresentação do projeto arquitetónico. A fábrica de cerveja será restaurada, a cervejaria preservada e, além da torre, serão construídos três novos edifícios. Haverá 85 apartamentos para venda, uma zona de escritórios e outra para comércio, e mais 180 espaços daquilo que os promotores chamam de coliving - um conjunto de estúdios de habitação servidos por áreas comuns.

A ideia, dizem os promotores, é criar uma nova oferta para novas famílias e jovens profissionais de classe média no centro da cidadel. José Gil não quis indicar a que preços serão vendidos ou alugados os apartamentos, mas disse isto: "Será sempre a valores abaixo da média do mercado".

Nuno Mateus contornava a conversa sobre a altura do edifício principal com os exemplos das grandes torres que Lisboa construiu no século XX à volta das suas praças. A esquina das avenidas de Roma com a Estados Unidos da América, Alvalade, a Praça de Londres. Pelo meio, criticava as reações pouco informadas das redes sociais. E, quando o fazia, arrancava aplausos.

Aliás, o arquiteto tentou por várias vezes criticar o discurso pouco esclarecido dos cidadãos que criticavam o projeto. Arrancava pequenas ovações no processo, mas elas nunca duravam demasiado tempo. A sala parecia mais interessada em discutir ideias do que em escolher barricadas.

"Não é isto um debate público"

As primeiras perguntas foram sobre a sombra que o edifício ia projetar na envolvente. "Coitado de um morador que viva ali ao lado na Almirante Reis", comentava um dos arquitetos presentes. Nuno Mateus replicava, a abertura de passagens entre os edifícios faria entrar a luz.

As questões sobre o aumento de tráfego foram respondidas com a capacidade de estacionamento. Dos três pisos subterrâneos, dois ficarão para usufruto público. Mas com entrada e saída pela acanhada rua António Pedro - onde também está prevista a instalação de um supermercado.

As perguntas choviam para a mesa, com arquitetos a criticarem a volumetria, outros a elogiar a intenção de inventar uma cidade diferente. Nuno Mateus, o arquiteto, não resistia à tentação de tentar armadilhar a barricada: ia pedidndo o microfone para deixar falar as pessoas que apoiavam a sua ideia e avaliava as questões dizendo "estas são as perguntas que me interessam".

Quando o Movimento Stop Torre 60 Metros Portugália pediu a palavra, o autor do projeto condescendeu: "Encantam-nos cidadãos profundamente envolvidos, não gostamos de população amorfa." O grupo que o interpelou foi criado na quarta-feira para contestar o impacto do edifício de 16 andares. É constituído essencialmente pelos mesmos moradores que promoveram o projeto do Jardim do Caracol da Penha e está a organizar um abaixo-assinado para entregar na Assembleia Municipal de Lisboa.

Rita Cruz, porta-voz do movimento, diz agora que o que se passou na Ordem dos Arquitetos não foi um debate público. "Foi uma sessão fantasma. Foi uma apresentação dos autores e promotores do projeto imobiliário que se furtaram a responder às questões que interessavam."

No seu juízo, os lisboetas presentes viram-se numa estranha condição: "Os cidadãos ficaram a discutir a cidade com os interesses privados, quando sabemos que este projeto tem um impacto elevado sobre Lisboa. O que se passa aqui é uma questão política e o interlocutor dos cidadãos na discussão pública tem de ser a Câmara."

Vítor Reis, arquiteto, alinhava pelo mesmo lamento. "Manuel Salgado não veio e é pena. A maioria dos arquitetos não tem problema com as torres, mas sim com a opção política que está a ser tomada na Almirante Reis. É que, ao permitir isto, a câmara está a autorizar todos os promotores imobiliários a fazer o mesmo nesta zona da cidade."

A segunda sessão de esclarecimento acontece a 21 de maio, às 18h30, no Mercado do Forno do Tijolo.

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