Aumento de restaurantes junto ao Douro no Porto geram mais ataques de gaivotas

As cidades são bons sítios para a reprodução da espécie, devido às temperaturas quentes, o menor riscos de predação e à maior disponibilidade para as gaivotas se alimentarem à noite

O aumento de ataques de gaivotas no Porto pode explicar-se com o crescente número de restaurantes perto do rio Douro, uma consequência da elevada procura turística naquela área, defende a Sociedade Portuguesa de Estudos das Aves (SPEA).

"Há um senso geral de que há mais interações entre gaivotas e pessoas, no caso do Porto, devido a uma alteração na dinâmica da cidade, tanto em termos de revitalização de algumas zonas mais próximas do rio Douro, na Baixa, como por causa de um aumento no número de restaurantes naquela área e de um aumento do número de turistas", considera Pedro Rodrigues, um técnico da SPEA a trabalhar no Porto e que se tem dedicado ao fenómeno das gaivotas nos centros urbanos.

O aumento da exploração pesqueira nas últimas décadas, a alimentação suplementar em áreas urbanas, com rejeições de pesca, as descargas de peixe em lotas, os resíduos urbanos, lixeiras a céu aberto e a alimentação suplementar por pessoas, bem como a expansão urbanística são as causas elencadas por aquele especialista para justificar o aumento do número de gaivotas-de-patas-amarelas (Larus michahellis) na cidade do Porto, mas também noutras cidades portuguesas.

"As cidades acabam por apresentar condições teóricas favoráveis para a espécie se reproduzir, porque são locais com temperaturas mais quentes, apresentam taxas de sobrevivência de juvenis maiores, têm um menor risco de predação e há mais disponibilidade alimentar, inclusivamente de noite", explica Pedro Rodrigues.

Mais do que fazer estudos pontuais sobre gaivotas, a SPEA defende a criação urgente de uma "monitorização constante e a longo termo" sobre a quantidade de gaivotas na cidade do Porto, para que se possa analisar o fenómeno com "dados sistemáticos" e responder com certeza a várias questões, designadamente qual o aumento efetivo de indivíduos a nidificar no Porto.

"Há trabalhos no Porto, com qualidade, mas que são pontuais e não têm seguimento no tempo. São aplicadas algumas medidas, mas não é avaliada a eficácia, nem se assegura um plano de rotatividade de equipamentos de espantamento", alega Pedro Rodrigues, referindo que é preciso, por exemplo, saber se as gaivotas urbanas permanecem ou migram, o que comem e como se reproduzem.

A SPEA defende que é "preciso atualizar a caracterização da densidade e distribuição de casais reprodutores pela cidade, para melhorar a eficiência de implementação de medidas de mitigação futuras.

"É necessário avaliar com precisão o tipo e frequência das interações de gaivotas com humanos", assim como dar ênfase ao número de casos de alimentação por pessoas, apesar de legislação e coimas previstas, que potenciam interações negativas de roubo de comida", alerta Pedro Rodrigues.

A espécie começa a ter uma "má fama" no Porto, começa-se a ouvir falar em "praga", mas terá de haver educação, nas escolas, por exemplo, porque há "desequilíbrios ecológicos que propiciam a vinda das gaivotas para as cidades", explica.

Em 2015, a Lusa noticiava que as câmaras do Porto, Matosinhos e Vila Nova de Gaia tinham colocado em curso medidas para travar a proliferação de gaivotas, com destaque para a proibição de alimentar as aves, colocação de pinos em edifícios e colocar falcões no rio Douro.

O município de Matosinhos disse à Lusa que os serviços de Ambiente "mantêm em curso as iniciativas dos anos passados", designadamente "combate à proliferação de larídeos [gaivotas]", tais como o "reforço da limpeza de pontos críticos de alimentação das gaivotas", particularmente na "lota" e nos "contentores de resíduos espalhados pela cidade".

A Câmara de Gaia considera que a "melhoria das condições dos habitats tem contribuído para que o falcão-peregrino surja em "maior quantidade ao longo do rio Douro e, por si, cumpra a função ecológica que conduz a um equilíbrio sustentado da população de gaivotas", acrescentando que acredita que "não será necessário um controlo da população mais drástico e intrusivo".

Em dezembro de 2011, o relatório final sobre o controlo da população de gaivotas na Área Metropolitana do Porto concluía que a forte presença das aves aquáticas só seria atenuada com a "eliminação ou redução acentuada" de alimento e da tentativa" de impedir o poiso das gaivotas no património.

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