Aga Khan: "Os próximos tempos serão exigentes, de alteração profunda"

Aga Khan discursou na Assembleia da República esta terça-feira, agradecendo o convite para trazer a sede da comunidade ismaelita para Lisboa

Aga Khan deixou quase para o final a parte mais crítica do seu discurso na Assembleia da República, na manhã desta terça-feira, dia 10, realçando os maiores problemas que enfrentam ismaelitas, e não só. "Devemos reconhecer, de forma realista, que o nosso mundo interligado poderá criar uma sensação crescente de suspeita, medo, e, talvez até, de vertigem, à medida que olhamos para o futuro. Lamentavelmente, de vez em quando, as pessoas diversas podem interpretar as suas diferenças como ameaças em vez de oportunidades, definindo a sua própria identidade através daqueles de quem são contra em vez do que são a favor".

Num discurso de pouco mais de 10 minutos, sublinhou que estes "serão tempos de profunda alteração global" numa sala do Senado completa.

No segundo dia da sua visita oficial, Karim Aga khan, líder espiritual dos ismaelitas, elogiou Portugal como lugar da ética cosmopolita que defende e lembrou que Lisboa será a próxima sede do Imamat Ismaili a partir de 2019. No Palacete Mendonça "estabeleceremos o nosso departamento para os Assuntos Diplomáticos e o nosso Departamento para as Instituições do Jamat", disse. O próximo encontro do centro global para o pluralismo também decorrerá em Lisboa assim como a cerimónia inaugural da entrega do prémio Aga Khan de música.

"O Imamat Ismaili fortalecer-se-á a partir do nosso sentimento de permanente de parceria com o povo e com o Governo de Portugal", rematou Aga Khan, antes dos cumprimentos finais a Ferro Rodrigues, anfitrião na visita à Assembleia da República, entre aplausos e uma sala do senado de pé.

Um discurso de agradecimento

Aga Khan foi o último a tomar a palavra, como compete ao convidado de honra, tirou os auscultadores, desceu lentamente as escadas da tribuna, posou as folhas com delicadeza e cumprimentou uma longa lista de personalidades portuguesas -- deputados, chefes de grupos parlamentares, conselheiros de Estado como Adriano Moreira e Eduardo Lourenço, e Pinto Balsemão, que era primeiro-ministro em 1983, data da primeira visita de Aga Khan a Portugal depois da migração de um grande número de ismaelitas de Moçambique para Portugal. Um momento histórico a que fez referência do seu discurso.

O imam dos ismaelitas veio a Lisboa celebrar o encerramento das comemorações dos seus 60 anos à frente dos ismaelitas, uma percurso que o levou a conhecer cinco Presidentes da República de Portugal (o primeiro foi Américo Thomaz em 1960, que o condecorou), um dado que lembrou na Assembleia da República.

Com as celebrações do jubileu de diamante, cerca de 45 mil ismaelitas estão em Lisboa a "descobrirem" Portugal, verbo usado por Aga Khan para falar da história de descoberta do país, cuja ligação ao Islão recua até ao século VIII e ao Al-Andalus, "quando as administrações muçulmanas trabalharam de forma construtiva com os povos das fés cristã e judaica."

Saltando para os dias de hoje, Aga Khan IV, o 49.º imam à frente do Imamat Ismaili, salientou o papel dos portugueses da ONU à Unesco, passando pela recente nomeação para a Organização Internacional das Migrações (entregue a António Vitorino).

"País de oportunidade", como chama Aga Khan a Portugal, congratulando-se pela estabilidade e citando os números do Índice Global da Paz, que avaliam 23 factores económicos, sociais e políticos em 162 países. Portugal está entre os primeiros cinco. A sala aplaudiu. E voltou a aplaudir quando o imam referiu que Portugal receberá a sede da comunidade a partir de 2019, agradecendo o convite.

Em 2015 foi assinado o acordo com o governo português para trazer a sede do Imamat para Lisboa.

"Do século XVII a meados do século XX, quando ismaelitas começaram a chegar a Lisboa, até hoje, multiplicaram-se os acordos e parcerias, incluindo com a universidade católica", referiu, fazendo um percurso rápido pela história do ramo xiíta do Islão - da Península Árabe ao Médio oriente, da Ásia do Sul a África do Norte, fundando a cidade do Cairo. E, a partir de 2019, em Lisboa. "É da sua responsabilidade de melhorar a qualidade de vida terrena dos seus seguidores mas também aqueles entre os quais os ismailis vivem", disse sobre o seu mandato.

"Um espírito humanista", segundo Fernando Medina

No seu discurso de apresentação, o presidente da câmara municipal de Lisboa apresentou Aga Khan, líder espiritual de 15 milhões de pessoas espalhadas pelo mundo, como um "espírito humanista" e salientou o trabalho em várias frente da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN). Fernando Medina Lembrou a intervenção em Moçambique e em Portugal onde já chegou a quase 100 mil crianças. Lembrou ainda programas de apoio que estabelecem parcerias com o Patriarcado de Lisboa, que mostram "o espírito ecuménico desta comunidade".

Eduardo Ferro Rodrigues abriu a sessão lembrando problemas como a escassez de recursos naturais ou as migrações e o trabalho da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento para as combater. "A sua vinda para Lisboa é a melhor ilustração de como nos queremos projetar na comunidade internacional como um país construtor de pontes, plural e dialogante", disse.

Depois dos discursos seguiu-se a vista à exposição Ideals of Leadership: Master pieces from the Aga Khan Museum Collections e o almoço, a convite de Ferro Rodrigues.

Na visita, Aga Khan esteve acompanhado por elementos da sua família, nomeadamente o irmão mais novo, Amyn Aga Khan.

O encontro religioso

O programa oficial do líder dos ismaelitas tem o seu ponto alto religioso amanhã numa celebração religiosa com a comunidade, que tem lugar na FIL - Feira Internacional de Lisboa.

O príncipe termina a sua visita a Portugal na quinta-feira, dia 12, depois de se encontrar com investigadores bolseiros da Fundação Aga Khan, no Centro Ismaili, em Lisboa.

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