Abrir as portas ao futuro

Camisaria Pitta, Casa Frazão, Pastelaria Suiça são alguns dos estabelecimentos históricos que os lisboetas viram encerrar para sempre, nos últimos tempos. Uma fatalidade ou mudança de paradigma? De tudo isto se vai falar no Fórum do Comércio, em Lisboa.

Na Pollux, tradicional estabelecimento de utilidades domésticas da Baixa lisboeta, uma empregada prepara-se para cortar, a pedido do cliente, um retalho de feltro azul. Recorre a um metro de madeira, com as pontas metálicas já tão gastas quão sumidos estão os algarismos na superfície da régua. Pergunto-lhe quantos anos terá aquele objeto, que cheira a uma Lisboa que já não há. "Não sei. Provavelmente é contemporâneo da abertura da loja, em 1936." Como a Pollux, poderíamos enunciar muitos outros estabelecimentos que parecem superar as dificuldades e as mudanças históricas (de sociedade, de modelo económico, até mesmo de hábitos e geografia de consumo), mas, em Lisboa como no Porto (para apenas referir as duas maiores cidades portuguesas) são também muitos os nomes históricos que hoje não passam de uma memória feliz na vida de alguém.

Este será um dos problemas a discutir esta quinta-feira (dia 17) no Fórum de reflexão e debate "Comércio: o que falta fazer?", que, no salão nobre dos Paços do Concelho em Lisboa, reunirá empresários de vários setores, estrategas e responsáveis por políticas públicas. Os temas dos painéis serão "Os consumidores do futuro", "Estão as empresas preparadas para uma empresa em todos os canais?", "Comércio e Turismo: Sinergias, Oportunidades e Turismo" e, finalmente, "O que falta fazer: o papel das empresas e o papel das políticas públicas."

O que nos dizem os números... e o coração

Se, do alto dos sete andares que ocupa na Rua dos Fanqueiros, a Pollux, de que falávamos há pouco, resiste contra ventos e marés de mudança, das mais de 300 lojas identificadas pelo programa municipal "Lojas com História" em 2015, hoje restam menos de metade. Ainda não refeitos do encerramento da Casa Frazão e Camisaria Pitta, que há mais de 100 anos eram referenciais de qualidade da vida "alfacinha", anuncia-se para breve o fecho da histórica Casa Pereira, que há décadas enchia do bom aroma a cafés e chás o princípio da Rua Garrett.

Com o fecho anunciado para o final de 2019, a Casa Pereira recebeu a chancela municipal de Loja com História, programa que tem como objetivo maior, segundo a Câmara Municipal de Lisboa, "posicionar o comércio como marca diferenciadora de cidade e, simultaneamente, atividade económica geradora de emprego, exigindo a articulação de diferentes e complementares medidas, no âmbito de uma estratégia que ligue três áreas de atividade municipal: planeamento urbano e elementos arquitetónicos, património cultural e atividades económicas". Da lista, neste momento com 146 estabelecimentos, constam ainda retrosaria Casa Forra, a Chapelaria Azevedo Rua ou o Hospital de Bonecas.

No Porto, no programa seu congénere (Porto com Tradição) há, neste momento, 75 lojas distinguidas, entre os quais A Pérola do Bolhão, o Bazar Paris ou o Café Guarany (para além de ícones óbvios como o Café Majestic ou a Livraria Lello).

No entanto, apesar de alguns benefícios, estas políticas públicas não impedem o encerramento de portas a quem se vê, antes de mais, pressionado pela pressão imobiliária nas principais cidades do país. Embora, pela lei do arrendamento urbano, os estabelecimentos assim classificados gozem de alguns benefícios, entre os quais o estabelecimento de limites ao aumento das suas rendas, a verdade é que essa proteção não vai além do curto prazo, no limite 5 a 10 anos. O que naturalmente enche de angústia os proprietários de negócios que, em vários casos, estão há décadas na mesma família.

Eduardo Vilela Torres, autor de uma dissertação de doutoramento sobre a evolução do setor terciário nas cidades de Lisboa, Porto e Aveiro desde o 25 de Abril de 1974 até hoje (apresentada na Universidade de Aveiro em 2017), considera que a gentrificação em curso tem um papel na desestruturação do comércio mais tradicional, mas não o de protagonista: "Sabemos, é claro, que a gentrificação tem sido um motor de transformação urbana no mundo atual e tem-se agudizado nos anos recentes, sobretudo em Lisboa e Porto, mas também noutras cidades e regiões com potencial interesse turístico como Aveiro, Coimbra ou alguns pontos do Alentejo. Isto é uma novidade para nós, embora os seus riscos já fossem conhecidos noutras cidades europeias como Barcelona. Ora, o que acontece é que o comércio das zonas gentrificadas estava adaptado à população portuguesa, muitas vezes de classe média baixa que lá vivia. Quando chegam os residentes estrangeiros, com outros hábitos, gostos e poder de compra, essas lojas não conseguem acompanhá-los. Era preciso fazer a agulha e falta-lhes muitas vezes a energia ou o poder financeiro para encetar tal esforço."

Vilela Torres considera, no entanto, que as grandes transformações no setor comercial não são de hoje, nem são ditadas pelas ondas de turismo massificado ou sequer pela gentrificação dos centros históricos: "A sentença de morte do comércio de rua em Lisboa e Porto começa a ser ditada em meados dos anos 80, quando o gosto pelos novos shoppings deslocalizou a geografia comercial das cidades, do centro em muitos casos para as periferias. Lojas históricas como A Casa Africana, os Porfírios, as discotecas Valentim de Carvalho, Roma ou a Lanalgo morreram às mãos do Amoreiras, Colombo ou NorteShopping."

Mas terão estes cenários a força de uma fatalidade? Não, necessariamente. Manuela Saldanha, que participará no Fórum de hoje, é administradora do grupo Loja da Meias, sem dúvida uma referência de elegância e Moda no coração de Lisboa. Embora tenha abandonado a sua histórica posição em pleno Rossio há mais de dez anos, nem por isso se baixaram os braços: "Contamos com mais de 120 anos e ao longo deste percurso tivemos que nos adaptar as várias mudanças socioeconómicas que o comércio de uma forma global e a cidade de Lisboa tem tido", diz ao DN. "Tudo isto foi feito com muita paixão pelo negócio de família mas também com um espírito empreendedor e renovação constante que temos tido ao longo dos anos. Para isso contribuíram as varias gerações de profissionais que têm feito parte da nossa historia e que ao longo dos anos souberam não só aproveitar as varias oportunidades mas também criar novos desafios de modernidade e inovação de forma a continuar a oferecer o melhor da moda, beleza e lifestyle que são o corebusinees do negocio e transformar a Loja das Meias numa marca e uma referência de moda em Portugal".

E-commerce vs Comércio tradicional

Outra das ameaças à prosperidade presente e futuro do comércio de loja é o crescimento do e-commerce. No final de 2017 concluiu-se que quatro em cada dez portugueses faz regularmente compras online, num valor total de 4,145 milhões de euros. Em países como os Estados Unidos ou a Grã-Bretanha estes números aumentam exponencialmente.

Mas esta tendência não representa necessariamente a morte das lojas tal como as conhecemos. Em junho último, no Irish Times, Frederick Studemann mostrava como o efeito arrasador da Amazon no negócio das livrarias um pouco por todo o mundo, pode ter já atingido o seu climax. E dá o exemplo da londrina Foyles que, depois de adquirida pelo grupo Waterstones no ano passado, aposta todas as cartas em proporcionar a quem a visita o prazer de uma boa experiência, demonstrando que comprar online não tem o mesmo gosto ou cheiro. "Benvindo, amante dos livros, está entre amigos", pode ler-se à entrada. Ontem, como hoje, saber despertar a curiosidade do possível cliente é o grande desafio.