Estamos longe de ser governados por robôs

Este é um pensamento frequente, quando olhamos para o futuro, especialmente com a omnipresença da Inteligência Artificial. Porém, ainda estamos longe desse cenário.

Como será a nossa sociedade daqui a uns anos? Será governada por máquinas? Teremos postos de trabalho? Quem governará a sociedade? Como iremos interagir uns com os outros? Quando se pensa no futuro e de que forma a Inteligência Artificial (IA) o influenciará em todas as áreas, uma névoa cheia de especulações emerge. Mas que tipo de especulações se formulam? Foi a essa questão que a Fidelidade, em parceria com a Culturgest, procurou responder na última conferência do ciclo de conferências dedicado à Inteligência Artificial - que se dividiu em três temas: Aplicações da IA no passado dia 17 de abril, Implicações da IA, no dia 15 de maio e Especulações sobre IA, a 5 de junho.

Para falar um pouco sobre especulações sobre o futuro, nesta última conferência, foram convidados Ana Paiva, Professora Catedrática de Engenharia Informática do Instituto Superior Técnico; André Martins, Investigador na Unbabel; Arlindo Oliveira, Professor Catedrático de Engenharia Informática e Stuart Russell, professor de Engenharia Eletrotécnica e Ciências da Computação na Universidade da Califórnia.

Embora cada um tenha demonstrado a sua teoria e opinião sobre como seria um futuro próximo, todos foram unânimes numa conclusão: estamos longe de viver numa era supra robótica, onde as máquinas controlam por completo o nosso mundo. Mas, sendo assim, como será o futuro?

Espera-nos uma sociedade mais pró-social?

De acordo com Ana Paiva, com o aperfeiçoamento das máquinas tem-se vindo a observar um sentido de desresponsabilização, que contribui para níveis baixos de empatia e compaixão pelo próximo. A solução para este problema passa, então, na opinião de Ana Paiva, pela construção de máquinas mais inteligentes e altruístas, que sejam capazes de "perceber e expressar emoções, colocar-se na posição dos outros e agir de acordo com a situação". Desta forma, assistir-se-á ao estabelecimento de uma sociedade mais humana - mais preocupada com o outro. O grande desafio para que se alcance este estágio é, exatamente, saber como se passam emoções e sentimentos para uma máquina.

Será que os dados são, de facto, o novo petróleo?

Tal como afirmou Stuart Russell, uma das frases mais proferidas nos dias de hoje acerca da inteligência artificial é a seguinte: "os dados são o novo petróleo". Mas será mesmo assim? Será que a quantidade de dados é o que determina a eficiência de um sistema artificial? Stuart Russell defende que existe uma sobrevalorização dos dados por todo o mundo e, tal como André Martins, acredita que se deve procurar transformar os dados mais inteligentes, em vez de se investir tanto na obtenção de uma grande quantidade dos mesmos. Por outras palavras, ambos os professores são defensores do deep data, isto é: do aprofundamento da informação.

Mas como é que se consegue perceber a relevância dos dados que se possui? André Martins defende que a solução poderá passar pela criação de uma teoria matemática da informação, semelhante à teoria matemática da comunicação criada por Claude Shannon - que se carateriza por quantificar a informação que foi transmitida do ponto A ao ponto B e, ao mesmo tempo, a qualidade da mesma.

As máquinas serão tão ou mais inteligentes do que nós?

Esta questão está na mente de muitos e até é vista como uma preocupação. Porém, Arlindo Oliveira adverte que esse cenário ainda é longínquo. Na verdade, estamos "longe de criar máquinas tão inteligentes como uma galinha", explica. Por outro lado, como afirma Stuart Russell, "os dados são imprevisíveis" e o que hoje parece ser impossível, amanhã já o pode não ser e tal pode ser aplicado em cenários positivos ou negativos. Tendo isso em consideração, as sociedades têm que estar preparadas, ou seja, tem de se pensar em soluções e concebê-las de forma antecipada, de forma a que não se alcancem cenários irreversíveis, como: uma sociedade completamente letárgica, onde as máquinas fazem tudo por nós, ao ponto de não nos sentimos obrigados a pensar; ou sofremos de uma perda de controlo tal, que a máquina fica demasiado inteligente para nos obedecer.

Claro que estes cenários são os mais pessimistas e as especulações que têm sido formuladas visam o estabelecimento de uma colaboração entre homem-máquina e não uma substituição. No entanto, como foi dito, temos que estar preparados para todas as possíveis alterações sociais, políticas, económicas e culturais, que o constante desenvolvimento da Inteligência Artificial possa vir a trazer.

Foi desta forma que terminou o ciclo de conferências dedicado à Inteligência Artificial, organizado pela Fidelidade, em parceria com a Culturgest, que, na opinião do Presidente da Fidelidade, Jorge Magalhães Correia, teve um balanço "francamente positivo". O Presidente assegurou que, embora o ciclo tenha terminado, a Inteligência Artificial vai continuar a ser um assunto a ser investigado e divulgado pela Fidelidade, assim como outros temas relacionados com ciência e a sociedade - uma vez que a seguradora vê a exploração destas temáticas, como um " (...) dever de cidadania e de participação na comunidade".

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