A Inteligência Artificial vai acabar com o trabalho humano?

Que implicações tem a Inteligência Artificial na sociedade? E quais poderá ter num futuro próximo? Duas questões fundamentais que foram debatidas pelos melhores especialistas na Culturgest.

A Inteligência Artificial (I.A) já faz parte do nosso quotidiano há algum tempo, apesar de, por vezes, nem darmos por ela. Está presente nas pequenas coisas (como aplicações de condução), mas também nos grandes momentos (como softwares encarregues do departamento financeiro).

No entanto, apesar de já ser uma constante no dia-a-dia da sociedade atual, será que sabemos quais as implicações que a I. A. pode ter, quer na economia quer na sociedade? Será que pensamos nas implicações que pode ter num futuro próximo?

Para responder a estas questões, e também a outras tantas sobre a I. A, a Fidelidade, em parceria com a Culturgest, criou um ciclo de três conferências sobre I.A., cada uma dedicada, respetivamente, às aplicações da I.A, às implicações e às especulações que se fazem sobre a mesma. E todas elas contam com a parceria científica do Instituto Superior Técnico (IST).

Sendo que a primeira conferência aconteceu no passado dia 17 de abril e baseou-se nas aplicações da I.A, esta segunda conferência, "Inteligência Artificial: Implicações", aconteceu no dia 15 de maio e encheu o auditório da Culturgest. Assim, ouviram-se os especialistas Luís Moniz Pereira, professor e investigador do Centro NOVA LINCS - departamento de Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e membro do Comité Coordenador Europeu para a Inteligência Artificial; Virginia Dignum, professora de Inteligência Artificial Social e Ética no departamento de Ciência Computacional da Universidade de Umeå (Suécia); e Manuel Dias, da Microsoft Portugal e da DSPA (Data Science Portuguese Association) e professor na NOVA Information Management School.

A ideia principal que ficou desta conferência foi que, apesar de ainda faltarem muitos passos para que os sistemas de I.A sejam perfeitos, sem enviesamentos e sem preconceitos, é necessário desenvolvê-los a pensar na ética e na moral. Como referiu o Professor Luís Moniz Pereira, é necessário usar a I.A com ética e tendo em conta os valores da sociedade, porque o progresso da tecnologia pode não acompanhar o progresso da sociedade, e assim é essencial ter em conta a ética na forma de utilizar os sistemas de I.A.

Neste seguimento, a professora Virginia Dignum falou em I.A responsável, e que esta tem a ver com a ética, mas também com a confiança que se tem nas máquinas e com os benefícios que se podem retirar destes sistemas. Sistemas esses que, se tiverem o algoritmo certo feito pelas pessoas certas, podem tomar melhores decisões do que os humanos, devido à sua imparcialidade. Contudo, isso só será possível se se pensar no propósito que se dá à máquina e não apenas no que é programada para fazer.

Com outra opinião, mais positiva, sobre a utilização dos sistemas, Manuel Dias referiu que a I.A é muito mais do que os algoritmos, podendo substituir certos serviços cognitivos, como perceção (visão e discurso) e compreensão (linguagem e conhecimento). Assim, para o professor, "os benefícios são maiores do que os riscos, dependendo sempre de nós".

Esta é também a opinião da Fidelidade. Para a seguradora, a I.A pode ser bastante útil nos negócios, mas principalmente na relação entre as pessoas.

"Nós temos uma visão, que é que, em tudo o que fazemos, há um lugar para as pessoas. (...) E temos de manter-nos com esta visão de que a tecnologia tem de significar mais foco nas pessoas, mais tempo para as pessoas, mais disponibilidade para as pessoas. Esta é a mensagem que temos de trazer." Rogério Campos Henriques, Vice Presidente da Fidelidade

Assim, apesar de as opiniões serem distintas, a ideia principal que ficou deste debate sobre as implicações da I.A é de que é fundamental, tanto ao desenvolver quanto ao utilizar os sistemas, ter em consideração a ética e moral e pensar no propósito de utilização, de forma a não nos tornarmos numa sociedade disruptiva.

Nesta conferência apenas foram abordadas algumas questões relativas às implicações que os sistemas de I.A podem ter na sociedade e na economia. No entanto, a realidade é que existem muitos sistemas a serem já criados e muitos a serem já utilizados. E foi sobre isso que Martin Ford, engenheiro e autor de várias publicações sobre I.A, veio falar na segunda conferência do dia.

Este especialista, mundialmente conhecido pelas suas publicações na área e pela sua preocupação com o impacto da I.A na sociedade, começou por referir que: "a ideia é de que as máquinas e os robots vão ocupar o lugar das pessoas nas empresas". Apesar de ser uma ideia um pouco negativa, Martin Ford acredita plenamente que a sociedade está a entrar numa era de disrupção total, a maior de sempre: "todas as áreas vão ser impactadas, muitos trabalhos tradicionais vão desaparecer e novos trabalhos vão surgir". No entanto, para além de serem trabalhos mais técnicos e que exigem um maior grau de formação técnica, não serão suficientes para toda a população mundial, visto que muitas máquinas já são totalmente autónomas. Ou seja, já não são apenas os trabalhos mais físicos que ficam comprometidos pelas máquinas: os trabalhos técnicos e que exigem formação também já podem ser substituídos por softwares. Esta situação, segundo o especialista, está assim a criar uma mudança estratégica na economia e na sociedade, fazendo-nos aproximar cada vez mais da disrupção.

Mas ainda fica muito por esclarecer: o que esperamos da I.A? Que especulações existem? Como será o futuro? Todas estas questões serão debatidas na próxima conferência, "Inteligência Artificial: especulações", no dia 5 de junho. Para além dos grandes especialistas nacionais da área que farão parte deste debate, poderá também contar com a presença de Stuart Russell, que abordará o tema da "Inteligência Artificial Humano Compatível".

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