Vitorino afinal também é um cantor romântico

Um cantor e dois pianos com um repertório só de canções de amor. Assim é o espetáculo de Vitorino hoje e amanhã, no Trindade.

"O amor é cego" é uma das figuras de barro tradicionais de Estremoz, datada do século XVIII: é um anjo com uma venda nos olhos. Essa figura "lindíssima" serviu de inspiração ao músico alentejano Vitorino para criar o seu novo espetáculo, intitulado, precisamente O amor é cego e vê, em que vai cantar apenas canções de amor.

Vitorino, um cantor romântico? Ele ri-se. "É um bocado imponderável, não é? Eu aceito isso. Mas se tiverem atenção vão ver que no meu primeiro disco já tenho uma grande canção, a Menina estás à janela. Se calhar as pessoas não percebem que é uma canção de amor pela maneira como eu canto, a minha pose é talvez muito estática. Mas não é preciso ser lamechas para cantar amor", diz.

O desafio foi lançado pelo Teatro da Trindade, mais concretamente por António Miguel Guimarães (diretor artístico do festival Sol da Caparica) que desenhou o programa Há Música no Trindade. Vitorino abraçou imediatamente a ideia de fazer um espetáculo só canções de amor e acompanhado por dois pianos, um de João Paulo Esteves da Silva e outro de Filipe Raposo.

O título, O Amor é Cego e Vê, é desde logo uma homenagem a outro alentejano, Tomás Alcaide (1901-1967), cantor lírico que esteve ligado ao Teatro da Trindade quando este era um teatro de ópera popular. "Vou tentar cantar essa canção, O Amor é Cego e Vê, que é dificílima. Ele era um dos melhores cantores líricos do mundo, eu irei cantar noutro tom", explica Vitorino referindo-se ao tema que Alcaide interpretou no filme Bocage, de Leitão de Barros (1936).

Para escolher os temas a interpretar neste concerto, Vitorino, juntamente com os dois pianistas, percorreu o seu repertório à procura das canções de amor, que aqui ganham uma nova sonoridade. "Os arranjos são deles. É muito interessante cantar com dois pianos porque é quase orquestral", explica o músico. "Mas as minhas músicas eu canto-as como as canto sempre, eles adaptam-se, só que as vestem de outra maneira." Há ainda dois temas inéditos, um de autoria de João Paulo Esteves da Silva e outro de Filipe Raposo.

Além das suas canções, Vitorino cantará outros temas de amor de que gosta muito. "Repesquei uma canção que foi um grande êxito do Tony de Matos que, esse sim, era o verdadeiro cantor romântico, cantava a dor de corno", conta. A canção escolhida é Vendaval. "Pelo Tony de Matos é um tema muito trágico, dramático, mas na nossa versão ficou adocicado, muito elegante".

Também escolheu um tema do compositor brasileiro Lupicínio Rodrigues e um outro da cantora canadiana Joni Mitchell, Answer Me, My Love, de que é um fã incondicional: "É uma mulher extraordinária. Ela é da minha idade mas está muito doente, gostava de a poder convidar para vir cantar comigo", diz. Além disso, haverá ainda uma canção composta pelo argentino Carlos Gardel (El Día Que Me Quieras) e um tema da revolução mexicana, Adelita (que era a musa dos zapatistas". "Mas é uma canção de amor!", garante Vitorino. E do francês Jacques Brel selecionou La Chanson de Deux Amants.

"Vou cantar em quatro línguas. Em francês vou cantar com bom accent, em castelhano também, em inglês vai ser uma desgraça mas não faz mal, eu canto com o inglês que sei cantar", diz Vitorino, meio a sério, meio a brincar. Depois destas duas noites, Vitorino espera continuar a cantar O Amor é Cego e Vê noutras salas e até lançar um disco.

O amor é cego e vê
Vitorino com João Paulo Esteves da Silva e Filipe Raposo
Hoje e amanhã, 21.30
Teatro da Trindade, Lisboa
Bilhetes: 13 euro/20 euro

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