Uma história da arquitetura contada através de concursos

A Garagem Sul recebe a partir de hoje uma exposição que faz a história dos concursos de arquitetura em Portugal. Ao todo, 45 projetos vistos à lupa.

Não é preciso chegar à Garagem Sul, do Centro Cultural de Belém (CCB), para começar a perceber como será a exposição que a partir de hoje e até 29 de maio ocupa a galeria dedicada à arquitetura. Andaimes de pinho encaminham o visitante para a entrada de Arquitetura em Concurso: Percurso Crítico pela Modernidade Portuguesa. Há uma cidade montada na Garagem Sul, destinada a traçar uma panorâmica deste género de encomenda.

Comece-se pelo meio, pelo Centro Cultural de Belém, cujas maquetas e plantas ocupam três compartimentos. "Estamos a mostrar o CCB dentro do CCB", diz Luís Santiago Baptista, curador da exposição. Era inevitável falar desta casa e não é só por cortesia para com o anfitrião. "É um grande concurso internacional", resume, durante a visita guiada à imprensa, ontem. Tão grande que gerou amplo debate na sociedade e muita polémica, aspetos a que dão eco os recortes de jornais que falam da obra. No caso do CCB chegou até a ser publicado um livro que reunia os vários projetos para o complexo, incluindo o do arquiteto italiano Renzo Piano, que viria a desistir da sua participação.

O mistério do Estádio Nacional

O edifício, cujo projeto pertence a Vittorio Gregotti e Manuel Salgado, ilustra os concursos pensados para intervir no espaço público, um dos 12 núcleos que da exposição, de que ressalta pelo menos um mistério: o Estádio Nacional, integrado nas encomendas de lazer, sobre qual persistem dúvidas quanto à autoria. "Não sabemos quem ganhou", diz o curador. Referem-se, pois, os vários profissionais que intervieram na obra: Francisco Caldeira Cabral e Konrad Wiesner, ligados ao paisagismo; Miguel Simões Jacobetty Rosa, Cristino da Silva e Carlos Ramos. "É um estádio integrado na paisagem, à grega", salienta Santiago Baptista, apontando uma maqueta onde essa ligação é mais evidente.

"Panorâmica" é a palavra usada pelo curador da exposição, Luís Santiago Baptista, para descrever a seleção de obras. O primeiro passo para entender a história destas encomendas é uma parede repleta de datas. Repleta, literalmente. A investigação da equipa que trabalhou quase um ano nesta elaboração desta exposição, em parceria com a Ordem dos Arquitetos, reuniu 450 projetos. O primeiro destinava-se às cortes de Lisboa, e é de 1833. Os últimos ainda não foram inaugurados. Foram selecionados 45 que, sob a forma de maquetes, desenhos de projeto e fotografia, chegam a esta selva de andaimes de madeira, que, "como não podia deixar de ser", resulta de um concurso. Os vencedores foram os Forstudio, no desenho expositivo, e o R2 Design, no desenho gráfico.

O mais antigo dos projetos a sair da parede e chegar à exposição propriamente dita é de 1930. É o liceu de Beja, de Luís Cristino da Silva. Pertence ao núcleo dedicado à educação e ainda hoje cumpre o uso para que foi encomendado. Luís Santiago Baptista nota, a propósito dos projetos escolhidos para este núcleo como "acompanham o aumento da escolaridade obrigatória, da escola primária à universidade".

Em representação do ensino superior foi escolhida a Escola Superior de Comunicação Social, "importante para o ensino politécnico". Percebe-se melhor com a maquete de João Luís Carrilho da Graça, um modelo branco que conhece bem a Garagem Sul. Esteve aqui nos últimos meses, na exposição dedicada ao arquiteto e que precedeu esta Arquitetura em Concurso: Percurso Crítico pela Modernidade Portuguesa.

Os temas que têm sido alvo de concursos, com o investimento público em maioria, começam na representação nacional, com maquetas do monumento de Sagres, nunca construídas, e vão até ao Pavilhão de Portugal para a Exposição Universal de Paris, 1937, uma obra de Keil do Amaral, cujos desenhos vieram para a exposição.

Luís Santiago Baptista sublinha como os próprios núcleos espelham a história da arquitetura, ganhando terreno concursos de paisagem, património ou infraestruturas, representadas pelo Museu do Côa (Camilo Rebelo e Tiago Pimentel), o Museu Machado de Castro (Gonçalo Byrne) e o Metro do Porto (Eduardo Souto de Moura). "Os concursos são uma forma de encomenda mas também põem questões diferentes, com visões diferentes".

De cada um dos 12 temas foram escolhidos três projetos e um quarto, estruturante, sobre o qual escreve um especialista na obra ou arquiteto em causa. Além de uma resenha na exposição, haverá uma versão mais extensa no catálogo a publicar durante a exposição.

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