Um romance em poesia ignominioso no tema por Maria Teresa Horta

A crítica de João Céu e Silva ao novo romance de Maria Teresa Horta

O que se diz dos portugueses é que são [quase] todos poetas. Verdade ou mentira? Coisa que vem à memória ao fazer-se a leitura de Anunciações, mas que não interessa assim tanto para este caso, quando o leitor é confrontado com o mais recente trabalho de Maria Teresa Horta, um longo romance em poema.

É um encontro chocante logo desde o início, no momento em que se percebe o ignominioso ato que a poeta/escritora decide fazer neste volume. Ignominioso: "que estimula a infâmia / que incentiva o horror", lê-se no dicionário.

Mas o ignominioso também pode ser algo de muito belo, e é essa a situação presente, aquela em que desde o início o leitor é colocado perante a infâmia de uma sedução entre Maria, a Virgem, e Gabriel, o Arcanjo.

A palavra sedução surge quase logo; inocência também, tal como tentação. Leiam-se os seguintes versos: "Vê Gabriel rendido / aos pés de Maria." E a um terço do livro, temos a figura alada a desejar apertar Maria nos braços.

Esta releitura que o cristianismo tem do anúncio do Arcanjo Gabriel à Virgem Maria sobre ir ser a mãe de Jesus Cristo, apesar do seu estado de virgindade, é um dos melhores argumentos para um livro escrito na segunda década do terceiro milénio. Após tantos volumes impressos sobre este tema, inúmeros debates, bastantes ensaios e investigações, a autora vem meter a colher numa questão tão dogmática como incómoda.

Fá-lo de uma maneira perturbadora, que faz lembrar as grandes obras em que há questionamentos deste género. Principalmente num tempo em que a Igreja Católica está em modo revolucionário devido à atitude do Papa Francisco e que os grandes escândalos, o da pedofilia por exemplo, estão a marinar nas caves do Vaticano e no esquecimento dos católicos.

A apresentação deste livro é como o seu tema: estranho. Pois surge em versos apesar de se apresentar com um romance logo na capa - para que não fiquem dúvidas da intenção da autora. Mesmo que os leitores se sintam encaminhados para um longo poema, ainda não chegaram à quinta página e percebem que o género é mesmo o do romance.

A leitura flui e o registo transforma-se na mente de quem o lê numa página de prosa, mas que graficamente teima em manter-se com a forma poética. Tal como em qualquer romance de leitura sôfrega, existe ação constante como se houvesse uma história nova a contar, que envolve personagens múltiplas, e obedece a um organigrama definido para levar a narrativa até um auge.

Há um pormenor arrepiante, a frieza das asas do Arcanjo, a par das declarações de amor inesperadas por parte de Gabriel. Um momento em que qualquer um gela também pela heresia inesperada que escuta. E a consciência da jovem seduzida, que conclui: "Seremos a nossa condenação."

Depois, Maria escreve poesias como as jovens apaixonadas; ele diz dela que é a sua estrela da manhã; sentem o desejo dos lábios... A meio destas Anunciações chega a hora da grande pergunta: "Até onde me levas?" Isso não se adianta, cabe sim ao leitor descobrir, por entre versos com aroma de prosa. Exemplos: "uma incerta nostalgia de pecado", "te imagino deitado ao longo dos astros".

A organização de Anunciações não acontece por acaso, encontrando-se dividida em 14 estações, tantas como as da Via Crucis que o filho gerado por intervenção divina irá percorrer nas horas antes da sua morte por crucificação. Quem percorre a Via Crucis tem direito a indulgências. No caso do leitor, basta-lhe esta leitura para ser perdoado. No caso da escritora, a História da Literatura Portuguesa terá um lugar na sua boa estante para este volume, decerto.

Pode parecer herética a sugestão de local de leitura para este livro, mas decerto que nada melhor haverá do que levá-lo na bagagem de férias e lê-lo numa espreguiçadeira na praia. Onde se perde a nitidez da imagem da Virgem devido às ondas de calor sobre a areia e se observa nitidamente o rasto que as asas geladas deste Gabriel pecador deixam ao levitar nesse mesmo mar de calor próprio do areal em dia muito quente, como o que é normal no inferno.

Anunciações
Maria Teresa Horta
Ed. D. Quixote
320 páginas
PVP: 15,90 euros

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