Stephen Frears, um realista que gosta de atores

O cineasta formado no realismo britânico tem trabalhado nos mais diversos contextos de produção, incluindo Hollywood

Para os espectadores mais jovens, é bem provável que o nome de Stephen Frears seja associado, sobretudo, a A Rainha (2008), o filme em que Helen Mirren assumia a personagem de Isabel II no período que se seguiu à morte da princesa Diana. O seu sucesso ter-lhe-á valido mesmo o epíteto de "especialista" em biografias, de algum modo reforçado pelos mais recentes Vencer a Qualquer Preço (2015), sobre o ciclista Lance Armstrong, e este Florence, Uma Diva Fora de Tom que agora chega às salas portuguesas.

Se recuarmos algumas décadas, deparamos com uma ironia paradoxal. De facto, depois de ter dirigido Ligações Perigosas (1988), com Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer, Frears foi contemplado com um rótulo bem diferente: o de artesão de reconstituições históricas mais ou menos melodramáticas. A ironia reforça-se se nos lembrarmos que o sucesso desse filme lhe trouxe um convite para rumar a Hollywood e dirigir um... filme de gangsters (Anatomia do Golpe, 1990). Será que, através de todas estas variações, há algum estilo unificador?

Em boa verdade, não precisamos de encaixar Frears num qualquer padrão de "autor". Não é essa a questão. Mas vale a pena recuarmos ainda um pouco mais para lembrarmos que a contundência do seu olhar, mesmo quando em registos mais ou menos irónicos, decorre de uma formação eminentemente realista.

Nascido em Leicester, em 1941, Frears pertence ao grupo de cineastas que, ao longo das décadas de 70/80, deu nova força à tradição do realismo britânico (Ken Loach e Mike Leigh são outras referências fundamentais). Tal renascimento estético e financeiro passou por ousadas políticas de produção televisiva, em particular da BBC e do Channel Four.

Foi com chancela do Channel Four, justamente, que o nome de Frears adquiriu ressonância internacional graças a A Minha Bela Lavandaria (1985), retrato das relações entre brancos e elementos da comunidade asiática de um bairro de Londres que, além do mais, projetou o nome de um dos maiores atores contemporâneos: Daniel Day-Lewis. Antes, Frears já assinara Gumshoe (1971), uma abordagem revivalista do policial clássico, Saigon - Year of the Cat (1983), sobre os bastidores da diplomacia ocidental durante a guerra do Vietname, e The Hit (1984), um thriller com Terence Stamp.

O Óscar ganho por Helen Mirren em A Rainha reflete, afinal, um fator decisivo de todos os períodos da carreira de Frears: sempre atento à complexidade das suas personagens, ele é também um rigoroso diretor de atores. Atualmente, Frears prepara Victoria and Abdul, um drama do século XIX, com Judi Dench a interpretar a rainha Vitória.

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