Salvator Mundi, o ás de trunfo do golfo Pérsico como potência cultural

Arábia Saudita e Qatar compraram quatro das cinco obras de arte mais caras de sempre. O golfo Pérsico está apostado em mostrar que também é uma potência cultural.

Salvator Mundi, o quadro de Leonardo da Vinci comprado a 15 de novembro pelo príncipe herdeiro da Casa Real saudita, Mohammed bin Salman, foi o acontecimento do ano no mercado de arte mundial. Arrematado por 450 milhões de dólares, tornou-se a obra de arte mais cara de sempre, entre as transações tornadas públicas.

Olhando para os cinco quadros mais valiosos, adquiridos em leilão ou em vendas privadas, apenas um não foi comprado por uma potência do golfo Pérsico - Interchange, de Willem Kooning, adquirido em setembro de 2015 pelo gestor de fundos e filantropo norte-americano Kenneth C. Griffin, por 300 milhões de euros, e que pode ser visto no Art Institute of Chicago. Ao todo, entre Salvator Mundi e Os Jogadores de Cartas, de Paul Cézanne, Nafea Faa Ipoipo, de Paul Gauguin, e Les Femmes d"Alger (Version O), de Pablo Picasso (as outras três pintura no top 5, todas adquiridas pela família real do Qatar), as duas potências do golfo Pérsico gastaram mais de mil milhões de dólares em arte.

"Acho que muitos dos preços elevados pagos recentemente por obras de arte por parte de instituições do Médio Oriente devem ser vistos na perspetiva de uma estratégia de soft power", defende Anders Petterson, fundador da ArtTactic, empresa de pesquisa de mercado de arte com sede em Londres, que juntamente com a consultora Delloite publica anualmente o "Art & Finance Report", no qual analisam as tendências mundiais do mercado da arte e das finanças. E cita um texto publicado no site da ArtTactic, a 15 de dezembro, no qual Paul Hewitt escreve sobre a vantagem que representa ter um Leonardo da Vinci para a estratégia de afirmação do Médio Oriente como potência cultural.

"Do mesmo modo que a cultura, os ideais e os valores ocidentais têm sido extraordinariamente importantes para ajudar Londres e Washington a atrair parceiros e apoiantes, as potências do golfo têm vindo a reforçar a sua posição na liga de soft power", defende o consultor de mercado de arte no referido artigo. "Salvator Mundi será a atração principal do projeto cultural mais amplo da ilha de Saadiyat. O investimento total na ilha Saadiyat já custou milhares de milhões de dólares. Mas os retornos futuros - tangíveis e intangíveis - para os Emirados Árabes Unidos e para os seus parceiros estratégicos na região provavelmente serão muitos múltiplos disso", nota ainda Paul Hewitt.

Não se sabe ainda quando Salvator Mundi começará a ser mostrado no recém-inaugurado Louvre Abu Dhabi, mas se ter a marca Louvre já foi considerada uma vitória para o mundo árabe nesta soft power league, ter um Leonardo - recorde-se que são apenas cerca de 20 as pinturas conhecidas do artista renascentista, estando todas nas mãos de instituições culturais - pode, de facto, ser visto como um às de trunfo nas ambições de afirmação cultural desta região do globo. Tanto mais que se trata de uma pintura de forte pendor cristão e tendo a compra sido feita numa altura em que as cotações de petróleo estão longe dos máximos atingidos em 2009.

E se de um lado do golfo temos a ilha de Saadiyat (da felicidade) - que além do Louvre Abu Dhabi contará com um museu nacional (projetado por Norman Foster), um centro dedicado às artes cénicas (concebido por Zaha Hadid) e sucursais do Guggenheim (com traço de Frank Gehry) e da universidade de Nova Iorque -, do outro lado, a Autoridade dos Museus do Qatar não se fica atrás. Dirigida pela sheikha Mayassa bint Hamad Thani, irmã do atual emir, conhecida como a sheikha da arte, a Autoridade apostou na criação de dois museus - de arte islâmica, projetado pelo norte-americano de origem chinesa Ming Pei, e nacional, da autoria do arquiteto francês Jean Nouvel - e em mediáticas aquisições de obras de arte.

Os elevados valores atingidos por estas obras refletem a tendência de crescimento deste mercado: a Sotheby"s anunciou já que fechou 2017 com uma subida nas vendas de 13,1% em relação ao ano anterior, atingindo os 4,7 mil milhões de dólares. A rival Christie"s, que vendeu o Leonardo da Vinci, ainda não divulgou as contas finais do ano, mas no final do primeiro semestre revelou vendas no valor de três mil milhões de dólares, uma subida de 14% face ao mesmo período de 2016. Mais: na altura, a leiloeira fez ainda saber que tinha vendido 38 obras por valores superiores a dez milhões de libras (13,5 milhões de dólares), enquanto no período homólogo de 2016 vendera apenas 14.

"Depois da crise financeira de 2009, o mercado da arte tem sido visto como uma boa alternativa de investimento e, sobretudo, como um investimento seguro para quem tem muita liquidez", defende Anders Petterson, a partir de Londres. Uma tendência que, vaticina, "também vai aumentar na Ásia, onde existe ainda um maior interesse na arte como forma de investimento".

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