Rota pelo Porto Liberal que fez a cidade Invicta

As forças liberais lideradas por D. Pedro IV estiveram cercadas no Porto pelas tropas miguelistas e a cidade guarda os vestígios

"Este é apenas um dos muitos percursos possíveis", avança Manuela Rebelo, enquanto nos dirigimos ao Museu Militar do Porto, ponto de partida para esta descoberta da Rota Porto Liberal, uma iniciativa da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa da qual é membro, que desafia turistas e locais a descobrir os lugares da cidade que guardam a memória dos tempos desde a Revolução de 1820 até à vitória liberal na Guerra Civil de 1832-34.

Um período que deixou profundas marcas identitárias na cidade, a começar pelo título de Invicta pelo qual é conhecida - porque apesar do cerco de 13 meses entre julho de 1832 e agosto de 1833 resistiu às forças absolutistas lideradas por D. Miguel - e pela ligação ao dragão, atualmente apenas presente no emblema do FC Porto, mas que até 1940 fez parte do brasão da cidade.

Lançada neste mês, fruto de uma parceria com a Câmara Municipal do Porto, o Exército Português, a Santa Casa da Misericórdia do Porto e a Direção-Geral do Património Cultural, esta caminhada de duas/três horas pela cidade pode ter início em qualquer um dos 16 locais assinalados no mapa criado para esta Rota Porto Liberal, disponível nos postos de turismo e em alguns dos 16 locais assinalados (a rosa, na infografia). Para ajudar a desvendar cada um dos pontos, basta ler o QR-Code (aqueles códigos de pontinhos pretos e brancos) com uma aplicação de telemóvel para ter acesso a pequenos textos de apoio.

Voltemos então ao Museu Militar, numa das pontas do percurso, para iniciar este olhar liberal pelo Porto. Aberto ao público em 1980, era "uma vontade expressa da cidade desde 1920, ano em que no Teatro Nacional de São João foi realizada uma exposição comemorativa dos cem anos das guerras liberais", explica Alexandra Anjos, curadora do museu e também membro da comissão executiva do projeto Rota Liberal. Instalado num edifício dos finais do século XIX, nele funcionou a delegação da PIDE-DGS durante o regime do Estado Novo. Além das coleções de soldadinhos de chumbo, de armamento ligeiro e de artilharia pesada, bem como uniformes e equipamentos desde o século XVI a meados do século XX, é aqui, numa sala do primeiro andar, que se encontra, por exemplo, uma primeira edição da Constituição Portuguesa de 1822 e uma carta impressa que D. Pedro IV escreveu à população do Porto agradecendo o contributo para a vitória liberal.

Mal se sai do museu, virando à esquerda, não tarda a descobrir-se uma primeira referência na toponímia da cidade relacionada com este período: a Rua do Heroísmo, inicialmente designada Rua de 29 de Setembro, numa alusão à batalha que ocorreu nesse dia, de 1832, nos terrenos envolventes, que se saldou por uma vitória liberal.

Não muito longe fica a Biblioteca Municipal do Porto, um antigo convento, abandonado em 1831, que foi ocupado pelas tropas inglesas, aliadas dos liberais. A ligação a este período estreita-se um pouco mais ao saber-se que "foi criada por decreto real de D. Pedro em 1833", sublinha Alexandra Anjos, sendo possível ver na sala de leitura geral um retrato do rei, da autoria de João Batista Ribeiro.

O passeio segue em direção à Rua General Sousa Dias, de onde não só se tem uma vista fantástica sobre a outra margem como serve para se perceber o porquê de ali terem sido instaladas duas baterias, a das Fontainhas e a do Postigo do Sol, com o objetivo de defender o Mosteiro da Serra do Pilar, reduto liberal na outra margem do Douro. O mosteiro pode ser visitado, atravessando o tabuleiro superior da Ponde Luís I ou o roteiro pode fazer-se seguindo diretamente para a Praça da Batalha.

Sim, é aí que está o icónico cinema e o Teatro Nacional São João, mas para esta rota a referência é o enorme edifício rosa-forte, hoje um hotel, casa da família Fonseca Guedes, que "apoiava a causa miguelista e durante o período das guerras liberais se mudou para a Quinta da Aveleda, sendo a casa usada como hospital de sangue durante o Cerco do Porto. Foi aqui que foi amputado o braço direito do general Bernardo Sá Nogueira de Figueiredo, que transportava a bandeira liberal durante a batalha do Alto da Bandeira, ficando depois conhecido como Sá da Bandeira.

A seguir, ao fundo da Rua 31 de Janeiro, o percurso tem mais um ponto de interesse (que não é a Estação de São Bento, mas quem não conhece, eis uma excelente oportunidade): a Igreja dos Congregados, com a fachada revestida a azulejos. "Conta-se que das janelas deste convento os frades assistiram ao enforcamento e à decapitação dos mártires da liberdade, em 1829, enquanto brindavam com vinho do Porto e comiam pão-de-ló, dando vivas a D. Miguel", relata Alexandra Anjos. É que dessa janela tem--se vista para a vizinha Praça da Liberdade, que, ao centro, tem o verdadeiro símbolo do liberalismo portuense - uma estátua equestre de D. Pedro IV, o Rei Soldado. Foi nesta praça que, em 1820, foi declarada a Revolução Liberal e onde, nove anos depois, foram enforcados os 12 mártires da liberdade, cujos nomes estão inscritos nas placas de bronze no pedestal do monumento, inaugurado em 1866.

Continuando a descer, os passos devem dirigir-se para a Rua das Flores, passando o museu e a Igreja da Misericórdia do Porto (também a desvendar, por quem ainda não conhece), da qual D. Pedro IV foi provedor. Com a Ribeira ali pertinho, altura de começar a subir. "Esta é a subida mais dolorosa da rota", avisa Alexandra Anjos, enquanto se vence a Rua das Taipas. Lá em cima, a cadeia e Tribunal da Relação do Porto, onde estiveram presos os 12 mártires da liberdade.

Atravessando o Jardim de João das Chagas, descobre-se a atual Reitoria da Universidade do Porto, antiga Academia Real da Marinha e Comércio, que durante o Cerco do Porto serviu como hospital de campanha aos liberais. O ponto seguinte deste percurso é o Museu Nacional Soares dos Reis, criado em 1833 por D. Pedro IV em pleno Cerco do Porto, para recolha e preservação das obras de arte, algumas confiscadas aos miguelistas e outras à Igreja. Durante os quatro primeiros meses do cerco, serviu de quartel-general a D. Pedro IV, que depois se mudou para o número 395 da Rua da Cedofeita, pois o palácio da família Morais e Castro era um alvo fácil para as baterias absolutistas que se encontravam na outra margem do rio.

Passando a Rua da Cedofeita, referência à vizinha Rua dos Mártires da Liberdade, nova memória impressa na toponímia da cidade, e passagem pelo Quartel de Santo Ovídio, usado por tropas liberais.

Por fim - mas que também pode ser o início, claro -, a Igreja de Nossa Senhora da Lapa. Pertencente à Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, instituída na cidade em meados do século XVIII pelo padre brasileiro Ângelo Sequeira, é aí que está guardado o coração de D. Pedro IV, doado pelo próprio à cidade do Porto como forma de reconhecimento do apoio à causa liberal.

No futuro, a ideia é desenhar mais ramificações para este percurso porque, explica Alexandra Anjos, "toda a cidade foi palco dos acontecimentos relacionados com a Revolução Liberal e com o Cerco do Porto".

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