Regina Duarte: "Fui criada para ser uma operária da arte"

Atriz protagoniza a peça Bem-vindo, Estranho, que se estreia hoje no teatro Tivoli, em Lisboa

Está em Portugal a pretexto da peça de teatro Bem-vindo, estranho, que retrata uma relação conturbada entre mãe e filha. O que nos conta esta história?
A minha personagem, a Jaki, é muito engraçada e tem características à la Viúva Porcina [personagem da novela Roque Santeiro]. É muito exagerada na relação que tem com a filha, a Elaine [Mariana Loureiro], e usa a maternidade para fazer chantagem. Quando a Elaine decide ir viver com o namorado, o Joseph [Kiko Bertholini], a Jaki convida-o para ir viver com elas porque tem medo de perder a filha.
É nessa altura que o enredo muda..
Exatamente. Quando ele vem morar connosco acaba por haver uma disputa entre a Jaki e o Joseph pela atenção da Elaine. E é então que as coisas começam a ficar menos engraçadas. A grande pergunta de todo este suspense, e que já vem desde Alfred Hitchcock, é: "Quem vai matar quem?" (risos).
Estamos a falar de um tema que é universal. Esta é uma peça que vai deixar o público a questionar-se?
A plateia sai satisfeita porque as personagens têm características humanas. Claro que arte exacerba sempre, mas o público pode levar para casa muitas reflexões.
A dinâmica desta peça é ditada pela alternância de sentimentos de afeto e de uma implacável manipulação. É uma peça que mexe com as emoções?
Sim, não entramos nestes assuntos de forma impune. Mexer com o tema do homicídio coloca o ator numa situação muito delicada, de ter de investigar sentimentos desagradáveis e persecutórios, de medo e de insegurança. E até reações pouco desejáveis, de agressividade e violência. Isso está tudo presente nesta peça.
Como é que acha que vai ser a receção do público português a este espetáculo?
Sinto que existe uma relação de afeto muito grande com o público português. Acho que sou reconhecida até se estiver a usar um véu ou uma burca (risos). Pela voz, pelo sorriso. É impressionante e fico muito emocionada. Apesar de ultimamente não estar muito presente na televisão sinto que continuo no imaginário das pessoas, faço parte da vida dos portugueses.
Referiu que nesta peça a sua personagem tem alguns laivos da Viúva Porcina, personagem que interpretou na novela Roque Santeiro. Foi com este papel que conseguiu conquistar o coração de brasileiros e portugueses?
Foi uma personagem decisiva na minha carreira. Abriu muitas portas e foi a novela com que eu mais me diverti em cena. Foi um período belíssimo da minha vida.
Referiu numa entrevista que não se considera uma diva...
Fui criada para ser uma operária da arte, para trabalhar arduamente no sentido de propor reflexões para o aperfeiçoamento da sociedade. Diva é algo que acontece numa grande festa anual ou na entrega de um prémio. O dia a dia de um ator é muito desgastante, não tem nada a ver com a imagem da diva. Se alguém quiser ser ator com esse propósito vai ter um susto. Implica trabalho, abdicação, disciplina. Aceitar fracassos, deceções. Conviver com frustrações não é fácil.
E como é que lidou ao longo da sua carreira com esses fracassos e essas frustrações?
A sofrer. Costuma dizer-se que só cresce quem sofre. Mas quem cai do chão não passa. Cai muitas vezes, levantei-me e fui em frente.
Houve um altura em que o ator era quase visto como um "santo" pela função social que desempenhava. Ainda é assim ou esse conceito esbateu-se com o tempo?
O ator santo é uma coisa dos anos 60, 70. Era um ator que se dedicava integralmente à sua arte. Hoje as coisas estão mais divididas, existe uma glamourização, uma preocupação com o exterior, com a beleza, o que ocupa muito tempo.
Existe um culto exagerado relativamente à imagem?
Sim. Mas não é necessariamente mau, desde que seja doseado e mesclado com uma preocupação com o interior, com o conteúdo humanístico que o ator precisa de desenvolver.
As personagens que já interpretou ao longo da sua carreira deixaram-lhe marcas?
Eu sou o resultado de todas as mulheres que interpretei. Doei a elas muito do que sou, mas houve uma troca entre nós. Acabamos por nos tornar uma coisa só.
Está apreensiva com a crise política que o Brasil enfrenta?
Sim. Não se trata sequer de política partidária, estamos a falar de um momento muito difícil e doloroso que o país atravessa.
Mas tem esperança no futuro?
Muita. Existe um nível de consciencialização que não havia há cinco anos. As pessoas perceberam que as coisas estavam a ficar muito complicadas e que não podiam continuar a entregar as suas vidas nas mãos do governo. O povo percebeu que deve ter uma participação cidadã, com todos os direitos e deveres que a cidadania inclui.

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