Quando James Dean ainda não era uma estrela

Dennis Stock eternizou a figura de James Dean através das suas fotografias - agora, o realizador Anton Corbijn parte à redescoberta da intimidade de um símbolo universal da juventude.

A memória de James Dean (1931-1955) é um daqueles capítulos da cinefilia em que a história se confunde com a mitologia. Uma vida breve. Uma filmografia de apenas três títulos: A Leste do Paraíso (1955), Fúria de Viver (1955) e O Gigante (1956), os dois últimos estreados já depois da sua morte.

Enfim, um misto de carisma e mistério que lhe confere um lugar central na arquitectura de um imaginário juvenil cuja sedução persiste nos nossos dias. O filme Life (estreia quinta-feira) faz o retrato da passagem de Dean da condição de ator mais ou menos anónimo para o estatuto de símbolo de toda uma geração.

Mais do que uma aproximação biográfica de Dean, o filme realizado pelo holandês Anton Corbijn (n. 1955) propõe a evocação do período relativamente curto durante o qual nasceram algumas imagens que, de facto, eternizaram a sua figura. Daí que a personagem condutora da narrativa seja Dennis Stock (1928-2010), nome lendário da galeria de grandes retratistas da agência Magnum, autor de uma célebre série de fotografias de Dean a deambular à chuva, em Nova Iorque, na zona de Times Square.

Como o próprio Corbijn tem insistido, não estamos perante uma visão hagiográfica do ator. Aliás, importa recordar que, tal como aconteceu com o seu trabalho com outras estrelas de Hollywood (Marilyn Monroe, Audrey Hepburn, Marlon Brando, etc.), Stock sempre se distinguiu por um realismo caloroso, em tudo e por tudo distante dos artifícios dos estúdios.

Life acaba por ser menos sobre a consolidação mitológica de Dean e mais sobre o empenho, simultaneamente artístico e humano, de Stock, procurando inscrever o acor, não num Éden mais ou menos inacessível, mas sim nas singularidades da vida quotidiana

O título Life envolve, aliás, essa significação, identificando a condição básica da "vida", mas também, como é óbvio, a revista que permaneceu como uma referência universal da arte fotográfica e, em particular, do fotojornalismo. Foi enquanto fotógrafo que Stock descobriu Dean, protagonista de A Leste do Paraíso, a adaptação do romance de John Steinbeck assinada por Elia Kazan. Da sua amizade nasceu o portfolio que consagrou o ator na edição da Life de 7 de março de 1955, dois dias antes da estreia americana de A Leste do Paraíso.

Na altura, embora tivesse ganho um prémio para jovens fotógrafos (atribuído pela Life, precisamente), Stock era ainda um profissional algo à deriva, tentando construir uma base de imagens que lhe permitissem organizar uma primeira exposição. Apesar do carácter excepcional do seu talento, Dean também não passava de uma promessa, afinal mais conhecido em Marion, a pequena cidade do estado de Indiana onde nascera, do que nos circuitos de Hollywood.

O portfolio que foi decisivo para a imagem pública de Dean e a carreira de Stock acabaria por ser obtido, justamente, em cenários rurais de Marion, durante uma visita do actor à sua família.

Compreende-se o fascínio de Corbijn por todas estas peripécias. Afinal, a sua actividade como realizador - iniciada com Control (2007), sobre Ian Curtis, vocalista dos Joy Division - surgiu relativamente tarde na sua vida, já que ele foi fotógrafo (e realizador de telediscos) durante várias décadas, tendo desempenhado um papel essencial na definição do visual de bandas como os Depeche Mode ou U2.

Life acaba por possuir as virtudes e limites de uma abordagem prisioneira da lógica "demonstrativa" de muitos telefilmes. Há situações em que os diálogos parecem estar ao serviço, não das personagens, mas de uma "tese" determinista sobre a criação artística. Aliás, algumas dessas personagens, como o produtor Jack Warner (Ben Kingsley), são pouco mais do que caricaturas fáceis.

E se Robert Pattinson consegue um mínimo de sobriedade na interpretação de Stock, o maior problema do filme estará na representação maneirista do próprio Dean por Dane DeHaan, porventura tentando uma "duplicação" amargamente impossível. Fica a paixão de Corbijn pela intimidade das fotografias e um renovado desejo de vermos o insubstituível James Dean.

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