"Por favor, toque." Loulé apresenta a sua história

Os sete mil anos de história de ocupação do concelho de Loulé contam-se nas mais de 500 peças que se podem ver na galeria de exposições temporárias do Museu Nacional de Arqueologia, com um convite ao visitante: é para tocar.

Quarteira, Vilamoura, Vale do Lobo ou Quinta do Lago são nomes conhecidos dos veraneantes, mas "ninguém liga ao concelho de Loulé", afirma o presidente da câmara municipal, Vítor Aleixo, na antevisão da exposição que se pode ver no Museu Nacional de Arqueologia (MNA), em Lisboa. Essa paisagem litoral evidente, e bem conhecida, foi posta de parte desta vez, concentrando as atenções nas riquezas arqueológicas e em outros locais.

"Loulé será mostrado como algo que não se conhece. Há os estereótipos, mas há uma coisa chamada Barranco do Velho, Corte de João Marques", elenca António Carvalho, diretor do MNA e coordenador-geral da exposição Loulé. Territórios, Memórias e Identidades. "É serra e é litoral."

Começou a ser pensada há dois anos e refez o mapa arqueológico deste concelho. É o diretor do museu quem faz as contas: "Eram 132 sítios arqueológicos, agora são 154." "Tem a carta arqueológica atualizada e esse foi o trabalho invisível da exposição. Esse trabalho está feito", defende, sobre o que ficará deste trabalho quando a exposição terminar no fim do próximo ano.

Outro trabalho invisível é o "retorno social" da exposição, terminada a investigação dos cientistas. Quem o diz é Dália Paulo, que também faz a coordenação geral da exposição. A equipa chama a atenção para os números: 42 autores que contribuíram com textos para o catálogo, cinco comissários científicos (Vítor Gonçalves, Amílcar Guerra, Catarina Viegas, Helena Catarino, Luís Filipe Oliveira), três comissários científicos e uma escritora. Lídia Jorge assina um texto no catálogo que também está na exposição.

Mais de mil bens culturais de Loulé foram identificados. No MNA podem ser vistos 504, repartidos por vários núcleos históricos - começando na Pré-História, passando pela Idade do Ferro, a época romana, a Antiguidade Tardia, pelo período islâmico e pelos cristãos - contam-se sete mil anos de história. Cerâmica que documenta a primeira ocupação, ânforas que guardavam azeite, vinho ou preparado de peixe (em barcos ou à mesa), esqueletos, ferramentas, vestígios da escrita do Sudoeste, "uma das mais antigas da Península Ibérica", precisa Dália Paulo.

Até uma vértebra de baleia encontrada por Rui de Almeida numa escavação na Quinta do Lago, e datada do período islâmico, pode ser vista no Museu de Arqueologia. "Estava num buraco de lixo, literalmente", conta. Essas fossas são minas para os arqueólogos. Era aqui que se concentrava tudo o que já não era usado.

A exposição não é uma memória, "são muitas memórias", diz António Carvalho, justificando o plural do título. Foi uma ideia de Vítor Gonçalves, um dos comissários científicos, e logo um dos que trazem para o museu algo inédito: os vestígios mais antigos que se conhecem no concelho de Loulé. "É a primeira vez que podemos ver o resultado da investigação nos anos 1970 do professor Vítor Gonçalves", segundo Dália Paulo. "Mesmo para os especialistas, nós só ouvimos falar ou lemos na tese de doutoramento do doutor Vítor Gonçalves, nunca tínhamos visto ao vivo estes objetos da Corte de João Marques", acrescenta, sobre a importância de mostrar estas peças.

Depois da exposição, ficará depositada no Museu de Loulé, que deverá ser alvo de ampliação num futuro próximo, de acordo com o presidente da autarquia, recandidato nas eleições autárquicas.

A cada uma das épocas retratadas corresponde uma vitrina e uma mesa com um LCD. "A pessoa se quiser pode ficar três horas", começa Dália Paulo. "Há vários níveis de informação." A expressão a reter é "por favor, toque". "Em cada núcleo há peças arqueológicas em que se pode tocar", conta. "Peças arqueológicas de verdade", acrescenta Dália Paulo. Mas, calma, pode explicar-se a razão de estes objetos estarem disponíveis. "Há peças da nossa coleção em que se perdeu a proveniência e a ligação com o sítio, peças idênticas às de Loulé."

Oriunda de uma mesma geografia, o que aqui se encontra é garimpa de gente variada. "Achadores e guardiões", como lhe chama Dália Paulo. Do louletano anónimo a Manuel Viegas Ribeiro, antigo diretor do MNA que fez investigação em Loulé, passando por José Rosa Madeira, avô do atual ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes. Entre outros artefactos, é da sua coleção um conjunto de contas, "os primeiros adornos" conhecidos.

As peças encontram-se dispersas por várias instituições. Previsivelmente, o Museu Nacional de Arqueologia, uma vez que coleções do Algarve estão na sua fundação em 1893, mas também, mais inesperado, o Museu da Figueira da Foz, onde ficou depositado trabalho do arqueólogo Santos Rocha, ou o Museu do Cerro da Vila, um acervo do Estado gerido pelo Vilamoura World, fundo detentor deste território, muito pouco conhecido.

Informação útil

Loulé. Territórios, Memórias, Identidades

Museu Nacional de Arqueologia, Mosteiro dos Jerónimos

De terça a domingo, das 10.00 às 12.00 e das 14.00 às 18.00

Até 30 de dezembro de 2018

Entrada: 5 euros; 2,5 euros para estudantes, seniores, famílias numerosas e bilhete família; gratuito no primeiro domingo do mês, até aos 12 anos e mobilidade reduzida.

De 10 a 25 euros.

Exclusivos

Premium

Nuno Severiano Teixeira

"O soldado Milhões é um símbolo da capacidade heroica" portuguesa

Entrevista a Nuno Severiano Teixeira, professor catedrático na Universidade Nova de Lisboa e antigo ministro da Defesa. O autor de The Portuguese at War, um livro agora editado exclusivamente em Inglaterra a pedido da Sussex Academic Press, fala da história militar do país e da evolução tremenda das nossas Forças Armadas desde a chegada da democracia.

Premium

Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.