"Pedi-lhe para gravar cinco takes em que ela era livre de chorar tudo o que quisesse"

Juliette Binoche protagoniza a primeira longa-metragem de Piero Messina. O DN falou com o realizador de "A Espera" que estreia quinta-feira, 14 de abril

A Espera, ao configurar a chegada de alguém jovem a um lugar marcado pelo antigo, com aparência de ruína, procurou contrastar a modernidade com um certo classicismo?

Absolutamente. Na primeira reunião de trabalho, fiz questão de dizer que íamos fazer um filme cujos primeiros dez minutos deveriam funcionar como um filme isolado, ou seja, colocando a possibilidade de o espectador sair e voltar a entrar, ficando confundido, a achar que se enganou na sala... Essa primeira parte não tem referências temporais, não há nada de moderno - a própria casa é do século XVIII. Procurei uma neutralidade que sugerisse que o que se está a ver pudesse pertencer tanto a um agora como a outro século. O único elemento deslocado é um colchão cor-de-rosa que voa no pátio... Quando esta rapariga chega, vinda de Paris, carregando a modernidade às costas, provoca a violenta devastação desse mundo clássico. Isso fez-me sentido desde o início, porque todo o filme assenta nos dois polos. Eu próprio vivo dividido entre o clássico e o moderno.

Tendo filmado numa província da Sicília, o espaço, quer de exteriores quer de interiores, é muito vasto. Essa grandeza do ambiente clássico, lá está, foi pensada para sublinhar a angústia da protagonista?

O lugar onde se filma deve ser sempre uma espécie de caixa de ressonância das emoções das personagens. Para explicar isto aos meus colaboradores, dei o exemplo da guitarra, que tem um buraco no centro, para que o som das cordas possa repercutir. Da mesma forma, o espaço à volta das personagens deve ser uma extensão daquilo que elas estão a viver. Este aspeto é mais importante do que a escrita, porque é no espaço que o ator define a sua performance. O filme constrói-se sobre essa relação entre a figura e a paisagem. Aliás, quando terminámos o arranjo de tudo, o cenógrafo [Marco Dentici] disse-me: "Piero, olha como é belo todo este espaço inútil!" Era perfeito. A relação da palavra inútil com a palavra dor só podia ser uma coisa poeticamente muito forte.

E como foi dirigir Juliette Binoche, na pele da protagonista, logo na sua primeira longa-metragem?

Foi alucinante, e a princípio muito difícil. Tive um atrito com ela, aí ao terceiro ou quarto dia. Mas foi uma discussão essencial, porque se refletiu num bom resultado para o filme. É que a Juliette é uma atriz que, graças ao seu talento, procura experienciar realmente as emoções das personagens. E no caso do papel que tem aqui - uma mãe que perde um filho - era impossível para ela controlar-se diante de uma situação tão excruciante, e para mim era difícil dirigi-la... simplesmente não conseguia pedir a alguém tão imerso naquele estado para dizer esta ou aquela deixa. Então foi nesse quarto dia que mandei toda a gente embora e fiquei só com ela para tentarmos um meio-termo. Eu queria que a sinceridade da dor ficasse, mas que não fosse tão evidente. Fizemos um pacto: pedi-lhe para gravar cinco takes em que ela era livre de chorar tudo o que quisesse, eu só dizia "ação" e "stop". Depois, a partir do sexto take fui introduzindo pequenas indicações, até chegarmos ao que queria. Quando encontrámos o equilíbrio parecíamos duas crianças felizes! Ela precisava de se libertar, de deitar tudo cá para fora, como aquelas mulheres que no restaurante se levantam para ir à casa de banho, choram, choram, choram... e voltam para a mesa como se nada tivesse acontecido, mas tu podes ver que ela esteve a chorar. Eu queria precisamente essa marca do choro.

Escreveu uma tese sobre Alexander Sokurov, e teve a honra de A Espera estar em competição com o novo filme dele [Francofonia] em Veneza... De que forma este cineasta o inspira?

Eu adoro o cinema de Sokurov, aliás, o cinema russo em geral, e sobretudo aquele que teve início com Tarkovsky, porque me emociona muito enquanto espectador. Do mesmo modo, eu faço filmes para os espectadores e gosto de saber que se emocionam. Por isso, enquanto cineasta procuro aproximar-me um pouco desse estado de graça que é absolutamente alcançado por Sokurov, na justaposição da imagem e do som.

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