Azulejos com movimento dão prémio de design a restaurante

Parede branca com losangos em 3D recupera técnicas tradicionais. Foi ontem distinguida com os Surface Design Awards na categoria de retalhista, superfícies interiores

O que lhe sobra em ligeireza para os petiscos parece, a dado momento, faltar-lhe em palavras. O assunto toca no coração do chef Alexandre Silva. Abriu o Loco há menos de dois meses e acaba de receber um presente muito especial: a peculiar parede de azulejo branca que domina o restaurante foi distinguida nos Surface Design Awards. Nomeada na categoria de retalhistas para as superfícies interiores, concorria com outros dois projetos.

Alexandre Silva acaba de chegar ao Loco, só tem tempo para largar o casaco. Vai começar a azáfama diária de preparar, com a equipa, os exclusivos jantares ali à beirinha da Basílica da Estrela. Está contente, claro. "Para mim o Loco é muito importante, é o meu projeto de vida", diz ao DN. Abriu o restaurante e agora chega um prémio. Oportunidade para lembrar como tudo começou.

"Na altura andava à procura de um arquiteto que passasse para o espaço aquilo que eu sentia, o que eu queria. O [arquiteto] João Tiago Aguiar foi o único que percebeu o que eu queria", conta o chef. Por exemplo, as mesas "especiais" feitas para não ter toalha, a oliveira suspensa, inspirada numa viagem do chef a Jerusalém. Ou a "parte difícil" de um espaço de 150 metros quadrados em que "temos a sala dentro da cozinha e a cozinha dentro da sala". O arquiteto respondeu com um projeto ao qual juntou um mural de azulejo. "Mal foi apresentado gostei muito da ideia, a luz e o desconcertante que é, parece que está sempre em movimento e dá dinamismo ao conceito que é o Loco", descreve o chef.

A arquiteta ceramista

Este não é, pois, um painel de azulejos qualquer. É uma parede com 16 metros quadrados, branca, com azulejos tridimensionais. Está colocada de forma a deixar entrar luz do exterior, pelos buraquinhos, e, devidamente iluminada no interior, ganha tonalidades. "Tudo muda ao longo do dia", diz Maria Ana Vasco Costa, a ceramista autora do painel. O arquiteto corrobora: "Queríamos que mexesse com as pessoas, que causasse surpresa." E causa. Parece que tem vida própria. João Tiago Aguiar explica que, apesar do aspeto moderno, o princípio é o mesmo da azulejaria tradicional portuguesa. "Pegamos em coisas que já existem e tentamos reinventá-las, recriá-las com uma linguagem contemporânea."

Maria Ana Costa também é arquiteta. Mas acima de tudo é artista. Esteve ontem em Londres a receber o prémio e diz que foi quando ouviu dizer "Portugal" que se emocionou. Tem tudo a ver. Afinal esta arquiteta desiludida com a profissão resolveu voltar a Portugal (curiosamente vivia em Londres na altura) com a intenção de "pôr as mãos na massa" e fazer algo no seu país. Sem saber exatamente o que queria, foi fazer um curso na Ar.Co e quando pôs as mãos (e os olhos) nos vidrados da cerâmica foi "uma paixão imediata". Anda pelas ruas e vê os painéis que para muitos são invisíveis - Eduardo Nery, na Infante Santo, a Casa dos Bicos. "Vejo em 3D, parece que as coisas me saltavam."

Fine dinning com pé na terra

Neste processo de começar a trabalhar a cerâmica a uma escala urbana (feita a partir dos métodos tradicionais), já João Tiago Aguiar lhe tinha dito que um dia haviam de trabalhar juntos. Aconteceu no Loco. Maria Ana concebeu os azulejos brancos, vidrados, João Tiago Aguiar tratou de os iluminar.

O restaurante Loco abriu a 17 de dezembro do ano passado, na Rua dos Navegantes, à Lapa. "Sempre quis um restaurante com um fine dinning mas muito ligado à parte orgânica, à forma como sentimos as coisas", diz o chef Alexandre Silva. Era início da tarde e começava a azáfama dos jantares. Desligámos o telefone. São poucos lugares (20) onde todos os detalhes contam.

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