Os aristocratas que Hitler pilhou vendem a sua "Dama" à Polónia

"A Dama com Arminho", de Leonardo Da Vinci, estava nas mãos dos Czartoryska desde 1798. O ministério da Cultura polaco assinou ontem um acordo para a compra da coleção deles

São 54,8 por 40,3 centímetros pintados por Leonardo da Vinci. "Calcula quanto vale o quadro, príncipe?" perguntou um jornalista do El País a Adam Karol Czartoryski acerca de A Dama com Arminho. "Se se perder, morro. Esse é o seu preço" respondeu o aristocrata polaco. Foi em 2011, numa das raras saídas do quadro - Madrid foi antecedida por Berlim e Londres. Agora, a obra que Hitler quis para a sua coleção está no Museu Nacional de Cracóvia - sob tutela do Estado -, e despede-se das mãos da família Czartoryski, cuja fundação, presidida pelo príncipe Adam Karol, assinou ontem um acordo com o ministério da Cultura polaco para a venda da sua coleção. Dela, avaliada em dois mil milhões de euros, fazem parte também obras de pintores como Rembrandt ou Renoir.

A história dos Czartoryski, os aristocratas polacos cuja origem remonta à Lituânia, é uma espécie de epopeia; e A Dama com Arminho, que agora deixa a família a que pertencia desde 1798, pode - como se não bastasse ser uma das raras pinturas de Da Vinci (cerca de 20) - contar parte dessa história.

O artista e homem dos sete ofícios - de arquiteto a cientista ou inventor - terá pintado nos anos 1490 o quadro agora avaliado pela seguradora em 350 milhões de euros, segundo a France Presse. Nele figura Cecilia Gallerini, a jovem amante de Ludovico Sforza, o duque de Milão para quem Da Vinci trabalhava quando a pintou. Na primeira versão do quadro, Cecilia não tinha qualquer animal nos braços; numa segunda já surgia um arminho, mas pequeno e cinzento; a versão final, que conhecemos, só terá surgido à terceira intervenção, concluiu o cientista francês Pascal Cotte em 2014.

Quem levou o quadro à família foi o príncipe Adam Jerzy. Era filho da princesa Izabela Czartoryski, a colecionadora que em 1801 - onze anos depois da abertura do Museu do Louvre - fundou a coleção dos Czartoryski para salvaguardar obras de arte numa altura em que a Polónia estava a ser dividida pelos vizinhos Prússia, Rússia e Áustria. Quando viu o quadro chegar ao seu castelo de Varsóvia, Izabela - que até pertences de Napoleão I adquiriu - terá perguntado: "Isso o que é? Se é um cão é muito feio." Ela morreria em 1835, mas a sua coleção foi continuada pelo neto Wladyslaw.

A epopeia do quadro de Da Vinci

Ao comprar a pintura de Da Vinci, em Itália, no ano de 1798, o príncipe Adam Jerzy adquiriu também Retrato de Um Jovem, de Rafael. Durante a invasão nazi à Polónia, ambas as obras seriam roubadas aos Czartoryska em Cracóvia: destinavam-se ao museu que Hitler planeava erguer em Linz, cidade onde nasceu. Os dois quadros figuram, aliás, no filme Os Caçadores de Tesouros (The Monuments Men), de George Clooney, que conta a história do roubo de obras de arte pelas forças de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial e da sua recuperação por um grupo dos Aliados.

A Dama com Arminho regressou a casa no fim da guerra e, depois de quatro décadas de comunismo, foi atribuída pelo Tribunal Supremo polaco ao príncipe Adam Karol Czartoryski. Já a pintura de Rafael não tornou a aparecer. Todavia, antes de Hitler se cruzar com a história dos Czartoryski, a pintura de Da Vinci - uma das quatro, como Mona Lisa, em que ele representa uma mulher (à exceção da Virgem Maria) - já guardava muitas histórias.

Por motivos políticos, os Czartoryski exilaram-se em Paris, onde Adam Jerzy compra o Hotel Lambert. Depois, com a agitação da Comuna de Paris em 1871, a família, e o seu espólio artístico, regressam à Polónia. Com o eclodir da Primeira Guerra Mundial, as grandes obras da coleção seriam escondidas em Dresden. Voltariam depois a Cracóvia numa Polónia de novo independente, para mais tarde serem pilhadas pelos nazis.

A Dama com Arminho pertencerá agora a todos os polacos, depois da assinatura do acordo assinado ontem por Piortr Glinski, ministro da Cultura e vice-primeiro-ministro polaco para adquirir 86 mil objetos e 250 mil itens da biblioteca dos Czartoryski, impedindo assim que estes possam sair do país e, afirmou Glinski, para benefício das "gerações futuras". Recorde-se que o presidente da fundação, o príncipe Adam Karol Czartoryski, de 76 anos, não vive na Polónia. Jaroslaw Sellin, ministro adjunto da Cultura, disse este mês no parlamento polaco que "seria bom, mesmo que de um ponto de vista formal, se [a obra] se tornasse num tesouro nacional"

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