O novo Pritzker visto pelos seus estagiários portugueses

Contam histórias e recordam como viam o arquiteto Alejandro Aravena a trabalhar no escritório, no terreno ou a ouvir a população

"Quando visitei a Quinta Monroy, um taxista perguntou-me: O quê? Essas caixinhas de fósforos são de um arquiteto aclamado mundialmente?" As "caixinhas de fósforos" são simultaneamente casas e a assinatura do chileno Alejandro Aravena, prémio Pritzker de 2016. O táxi onde Pedro Coutinho seguia parou em Iquique, Chile. Aquele estagiário português no ateliê de Aravena visitava o lugar onde o mais recente galardoado com o que é considerado o Nobel da Arquitetura projetou, em 2004, casas para cem famílias.

Todas as histórias, todas as visões que teremos de Aravena no terreno ou no escritório, todas as explicações em torno do homem e do arquiteto serão dadas por eles: cinco portugueses que trabalharam no ateliê de Aravena, Elemental, em Santiago do Chile. Alguns estagiaram por três meses, como Pedro, em 2014, outros seriam contratados e ali permaneceriam por quase três anos, como fez Tomás Palmares, entre 2011 e 2014.

Projetar "meias casas"

Quinta Monroy, Iquique, Chile: onde o táxi deixou Pedro. As cem famílias para quem as casas foram projetadas ocupavam ilegalmente terrenos e o subsídio do Estado não chegava para construir casas ou comprar terrenos. A solução de Aravena: projetar "meias casas". Construir cozinhas, casas de banho, terraços. Criar a estrutura da casa que servisse as famílias que as viriam a habitar. Estas fariam o resto. Ergueram paredes consoante a vontade, o gosto, engenho ou o número de filhos. E são estas as "caixinhas de fósforos" que puseram Aravena e (novamente) a habitação social nas bocas do mundo.

Os ensinamentos

Samuel Gonçalves conheceu Aravena numa conferência que este deu em 2007 na Faculdade de Arquitetura do Porto. Estava no segundo ano do curso. "A partir desse dia, soube que queria trabalhar com ele." E trabalhou. Entre 2010 e 2012 colaborou em projetos como o da reconstrução de Constitución (cerca de 350 km a sul de Santiago), a cidade cuja reconstrução - quer a das habitações como a de infraestruturas públicas - foi projetada pela Elemental logo após terramoto seguido de um tsunami que, em 2010, afetou fortemente o Chile. Outros foram o Centro de Inovação Anacleto Angeli, da Universidade Católica do Chile, ou o extenso programa CalamaPLUS, que inclui 23 projetos para melhorar a vida dos habitantes daquela cidade (Norte do Chile) cujo ambiente é bastante afetado pela atividade mineira.

"O Alejandro costuma usar uma expressão que para mim tem bastante significado: quem pretenda abordar a arquitetura de um ponto de vista meramente artístico, tem um preço a pagar e esse preço é a irrelevância" recorda Samuel. Para quem assistiu a conferências ou entrevistas do arquiteto chileno de 48 anos, é curioso vê-lo assim, já repercutido no discurso de jovens. Como curioso é assistir às memórias que se cruzam entre eles. Tanto Samuel como Tomás Palmares recordam o mesmo ensinamento: "Para chegar à resposta certa tínhamos de perceber qual era a pergunta certa", diz Tomás. "Ele costumava dizer que não há nada pior que uma resposta certa para o problema errado", lembra Samuel. Outra expressão que ambos repetem : "senso comum" ou "senso de quem não é arquiteto".

Fóruns de discussão para todos

O retrato deste aspeto de Aravena faz-se em várias frentes. Como Catarina Ribeiro, que estagiou um ano e meio na Elemental, ao recordar: "Nos projetos em que trabalhei eram constantes os fóruns de participação. Na praça principal da cidade de Constitución e nas três povoações da região de Arauco [onde se procurava solucionar questões como o saneamento ou abastecimento de água] foram colocadas "Casas Abertas" - construções temporárias com espaço para reuniões - onde regularmente se faziam fóruns de discussão abertos à população. A comunidade participava nas decisões desde o início. Os projetos iam sendo moldados consoante as demandas e as necessidades das comunidades."

Esse "senso comum" é, todavia, dotado de um enorme rigor, inteligência prática e trabalho técnico. Leonor Afonso, que trabalhou na Elemental durante três meses de 2013 recorda o "ar muito concentrado" do arquiteto, "notava-se que tinha sempre os projetos a percorreram-lhes as ideias".

"Lembro-me de quando estávamos a trabalhar no projeto de requalificação do parque da cidade [Santiago], em que um dos objetivos do programa seria a da criação de um percurso pedonal, sendero rustico, com cerca de 14 km à volta do parque, que é um dos maiores do mundo. Estávamos a olhar para os desenhos, às voltas sobre um problema sem conseguir desenvolver, então o Aravena diz: "Vamos ao campo". Descemos ao rés-do-chão e caminhámos até ao local com os desenhos em rolo, fomos desenrolando e fazendo o percurso, desenhando-o na folha de papel à medida que percorríamos o terreno, ficando aquelas as bases de desenho para todo o projeto."

Tudo isto faz parte do quotidiano na Elemental, oficina fundada em 2001 e composta por dez arquitetos, cinco dos quais sócios, entre eles Aravena, o diretor executivo, e estagiários de todo o mundo. Quotidiano que se desenrola no 25.º piso da Torre de Santa Maria, com vista sobre os Andes. Quotidiano de "ambiente informal" - "é frequente ver "havaianas" no ateliê durante o verão", conta Tomás -, e um "processo de discussão de ideias muito aberto", recorda Catarina. "Há uma grande proximidade entre todos, do Alejandro ao estagiário que acabou de chegar" lança Samuel. "Por vezes os sócios sentavam-se na grande mesa do open space a discutir ideias gerais, fundamentos de arquitetura, era uma maneira de todos se regerem sobre os mesmos pressupostos. Os debates eram essencialmente sobre o homem e a sua relação com a arquitetura. Era muito interessante assistir a estas conversas, aprendia-se muito", explica Leonor.

Lápis de arquiteto, bisturi médico

Pedro conta que aquilo que o encaminhou para a Elemental foi "acreditar que o objetivo de um arquiteto pode por vezes ser mais similar ao de um médico do que ao de um artista". Pergunta: "Porque não ver o lápis como um bisturi que resolva cirurgicamente os problemas de uma cidade?" Voltamos ao taxista, aquele que um dia o levou até à Quinta Monroy. "Não tem problema nenhum que o projeto para o taxista passe despercebido. O que interessa é se a vida das pessoas que lá vivem melhorou ou não. O pior que podia acontecer às casas seria tornarem-se num ponto turístico."

"O que mais me impressiona é o modo como [na Elemental] conseguem subverter algumas questões políticas, económicas e sociais através da arquitetura, de forma a procurar soluções que visem uma melhoria efetiva na vida das pessoas envolvidas com os projetos", diz Catarina. "A principal mais-valia no trabalho do Alejandro é que olha para a arquitetura não como um fim em si mesmo, mas como um instrumento para reduzir as desigualdades dentro da sociedade", explica Tomás. Por ter passado por lá, conta, "olho para a arquitetura como um instrumento da sociedade, que existe para servir".

Quando lhes perguntamos que obra da Elemental mais os impressiona, apontam a Quinta Monroy. Ou porque foi o primeiro que "sintetiza" tudo o que se seguiu, ou porque foi assim que conheceram o homem e o trabalho. Hoje, entre o Chile e o México, existem já 2500 "meias casas", tornadas inteiras pelas famílias que as habitam. Aravena é o diretor da Bienal de Arquitetura de Veneza 2016. E a Elemental, no seu 25.º andar de onde se veem os Andes, recebe novos estagiários com um Pritzker na prateleira.

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