O cinema de choque impõe-se em Cannes

Dois filmes marcaram o dia: The Square, da Suécia e 120 Battements par Minute, da França. Os melhores do festival até à data

Dois filmes causaram estremecimento neste arranque de Cannes. O sueco The Square, de Ruben Östlund, e o francês 120 Battements par Minute, de Robin Campillo. O primeiro é mais uma acha para a discussão sobre a culpa moral da burguesia, um pouco no seguimento do que acontecia no filme anterior deste cineasta, Força Maior (2014). Neste caso, a culpa sueca, mas agora em formato de comédia negra que atinge o mundo da arte moderna. Salta à vista um humor glacial que satiriza as performances modernas, o marketing digital e os discursos de feminismo consensuais. Precisamente o tipo de filme que Lars von Trier deveria estar agora a fazer. The Square começa quando um curador de um museu de arte moderna em Estocolmo é assaltado. A sua reação de vingança vai originar consequências inesperadas, ao mesmo tempo que o seu museu se prepara para inaugurar uma exposição que ele quer que seja controversa, nem que para isso se tenha de recorrer a um vídeo viral no YouTube, neste caso uma menina sem-abrigo a ter um final menos feliz em frente à fachada do museu.

Fala-se de muitos temas aqui (talvez em excesso...), sendo que um dos principais talvez seja a questão do preconceito entre classes sociais. O que é certeiro na câmara de Östlund é a sua tensão trocista, uma tensão que também vive de quadros visuais, um pouco à boa maneira de Roy Andersson, porventura o maior cineasta sueco vivo. Dê por onde der, é possivelmente o melhor filme desta competição até ao momento e as boas-novas é que tem distribuição assegurada em Portugal pela Alambique Filmes. Depois de Força Maior, sucesso no Un Certain Regard há três anos, agora é a vez de Östlund entrar em definitivo na Premiere League dos cineastas de autor.

Quanto ao novo de Campillo, trata-se de uma crónica baseada nos efeitos da luta para a sensibilização da sida na França no final do século passado. Uma obra com uma carga de choque invulgar e com um verdadeiro amor pelas suas personagens, heróis ativistas capazes de celebrar a dádiva da vida até ao último sopro. Fica uma desconcertante pulsão erótica ao mesmo tempo que não abdica de um rigoroso contágio do "efeito cinematográfico" no meio de uma exposição de factos "realistas". O que poderia ser um mero objeto panfletário em modo homenagem à Act Up Paris torna-se um inventivo filme-choque de imenso apelo popular. Dificilmente, não sairá de Cannes sem glória no palmarés.

Nas sessões da meia-noite, a violência foi explícita. Jean-Stéphane Sauvaire assina A Prayer before Dawn (outro filme já confirmado para Portugal pela NOS Audiovisuais), mergulho selvagem no mundo do thai boxe, desporto implacável. O filme conta-nos a história verdadeira de Billy Moore, um inglês que se tornou campeão desse desporto extremo numa prisão de Banguecoque. Rodado com uma autenticidade desconcertante, A Prayer before Dawn filma os homens e os seus corpos em transe animal.

Entretanto, num quadro de estrelas com as principais publicações francesas, o filme russo Loveless, de Andrey Zvyagintsev, é aquele que está melhor classificado, enquanto a fantasia húngara de Kornél Mundruczó, Jupiter"s Moon, é de longe o mais detestado. Tudo isto num festival onde durante a noite, nas festas junto à praia, a mulher mais fotografada é a atriz e modelo Cara Delevingne, que dá que falar com o seu visual novo - rapou o cabelo como fashion statement.

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