Nova terra à vista

Crítica ao novo álbum "O Horizonte", segundo álbum a solo de Teresa Salgueiro.

A voz mais selvagem, crua e até abrupta com que a ainda muito jovem Teresa Salgueiro se revelou no álbum de estreia dos Madredeus, Os Dias da Madredeus (1987), foi-se adocicando ao longo deste percurso longo de quase trinta anos. E hoje, ao segundo álbum a solo, O Horizonte, apresenta-se com uma voz angelical que se enquadra na envolvência paradisíaca da sua música.

Depois do período de glória dos primeiros ciclos dos Madredeus (até 1996) e de uma renovação radical que deu mais dois discos de saúde artística ao projeto de Pedro Ayres de Magalhães, Teresa Salgueiro preferiu afastar-se em 2005 do brilho esbatido da formação lisboeta. A Teresa Salgueiro pós-Madredeus tem sido curiosa na procura de novas experiências, sobretudo nos discos de parcerias que gravou. Experimentou uma residência brasileira em Você e Eu com o Septeto João Cristal, em que se desafiou a interpretar algumas das canções dos grandes compositores brasileiros como Chico Buarque, Tom Jobim ou Pixinguinha. E com o Lusitânia Ensemble Teresa Salgueiro regressou a casa, e aos nossos antepassados, tendo revisitado os grandes clássicos da música tradicional portuguesa.

Já completamente em nome próprio, Teresa Salgueiro volta a encaixar num quinteto (contando com a própria cantora) e, de alguma forma, reaproxima-se ao espírito musical dos Madredeus. O corpo instrumental é igual ao de O Mistério, apesar de apenas o percussionista e baterista Rui Lobato e o contrabaixista Óscar Torres se manterem na banda.

A canção Desencontro é Teresa Salgueiro quase em registo pop-rock, com uns toques diferenciados do acordeão e do contrabaixo tocado com arco. Há também alguns efeitos sonoros no trabalho de sonoplastia. A Cidade, em que se ouvem uns sons de comboio, lembra o renovado corpo acústico dos Madredeus do final dos anos 1990 e início de 2000. Em Êxodo, decorrem explosões de bombas e disparos de metralhadoras, naquele que é o tema mais longo do disco e o mais variável, em que Teresa Salgueiro canta (e lamenta) uma vida primaveril que desapareceu, em direção a uma folia musical arábica para fazer esquecer a angústia de se ser um refugiado de guerra.

O peso respeitoso de Instante quase que o torna silencioso, concluído com sons garganteados de Teresa Salgueiro. O Vento, de encantos mais eruditos, é mais um dos muitos diálogos no disco entre o esvoaçante acordeão e o mais pesado contrabaixo tocado com arco com aquela vibração grave do familiar violoncelo.

Expressam-se mais sensações do que propriamente canções classicamente estruturadas. Teresa Salgueiro canta e romantiza o desejo de um mundo puro, não se interessa tanto por histórias. E as letras de Teresa Salgueiro são mais pensamentos fragmentados do que narrativas. Teresa Salgueiro desinteressa-se por um refrão, tão deslumbrada está com a "aurora esplendorosa" das manhãs de A Luz ou com o pôr do Sol de Entardecer com que fecha o disco (já em regime de spoken word).

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