Na carrinha com a miudagem de Andrea Arnold

"American Honey", um dos potenciais filmes do ano chega finalmente a Portugal depois do culto ganho no Festival de Cannes.

Depois da eleição de Donald Trump, a confrontação com este filme premiado em Cannes (prémio do júri) ganha um efeito convulso, como se esta já fosse a América de Trump... Estão lá os american dumbs, as estradas deca- dentes e todo o folclore do lixo branco.

A ação passa-se na América de hoje e coloca-nos em viagem pela estrada fora com um grupo de jovens. O que se passará a seguir é um improvável cruzamento do espírito de Easy Rider (de Dennis Hopper) com a potência sensorial de Kids (de Larry Clark). Uma carrinha cheia de miúdos (chamam-se Magazine Crews) sob influência de drogas e álcool com o objetivo de vender revistas e faturar - por outras palavras, enganar o próximo.

Mas é certamente uma aventura iniciática, com sexo, violência e música (há um intencional efeito karaoke). Aliás, há muito que no cinema contemporâneo não se via um aproveitamento tão carnal de uma banda sonora esquizofrénica, capaz de misturar country, hip-hop e fazer-nos comover com Bruce Springsteen e Rihanna.

Road-movie onde aparentemente nada se passa (Arnold destrói as convenções do storytelling clássico) mas tudo se passa ao mesmo tempo, American Honey não quer ser retrato de uma juventude white trash americana, nem por sombras. Apenas tem a pretensão de nos dar uma boleia com a fúria e o naturalismo deles. O espectador fica literalmente dentro da carrinha a partilhar uma experiência de sentidos - não há filme tão sensorial como este, não há ninguém a filmar sexo desta maneira. Daqui a muitos anos, o "incómodo" de toda esta orgânica vai ser ainda mais enaltecido...

A viagem é longa, podemos mesmo falar em desafio ao espectador, mas há um lado gratificante e de superação humana na exploração desse realismo que Andrea Arnold já anda a pesquisar desde o belo Sinal de Alerta (2006). Um realismo só possível graças ao trabalho de libertação íntima de atores como o infame Shia Labeouf (que aqui parece renascer após uma série de disparates de vaidade na vida pessoal) ou a estreante Sasha Lane. A sensação é que estamos ao lado deles, estamos sob sua "influência". Podemos falar em efeito hipnótico, entre o estandarte da tragédia e as benesses de uma liberdade transgressiva (sem o "valor" voyeur de um Larry Clark...).

Aquela "família" de "crianças" perdidas tem também um valor simbólico numa América de contrastes: os bairros sociais/os subúrbios endinheirados. Uma América onde encontramos famílias à beira da miséria mas também texanos aborrecidos na sua riqueza. A dada altura, a personagem de Labeouf parece trazer um imaginário de caça ao tesouro. O que importa é vender, roubar, sobreviver. Mas também ser livre, estar aberto aos prazeres de poder mergulhar num lago na América mais recôndita, entre pirilampos, sapos e cágados.

A juventude de Andrea Arnold

Filmar uma pulsão de sangue jovem desta maneira não é de todo inédito no caso de Andrea Arnold. O seu Monte dos Vendavais (2011) já ensaiava esta desordem, enquanto que a miúda adolescente de Aquário (2009) poderia também ser membro desta equipa de nómadas. Cannes está a fazer dela uma cineasta star e agora há também quem fale na possibilidade dos Óscares. Para trás fica um passado de curtas-metragens e séries de televisão onde a matriz de um realismo britânico era sempre trabalhada com um sopro radical.

Já depois de American Honey (entretanto adquirido para o mundo inteiro pela Universal), esta inglesa realizou alguns episódios da aclamada série Transparent. Ou a melhor televisão americana não fosse um viveiro experimental para cineastas autores...

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