Música para ouvir com alguma nostalgia mas sem preconceitos

O músico britânico morreu na noite de domingo aos 53 anos, de ataque cardíaco. Já não lançava um disco desde 2004 mas todos conhecem os seus êxitos, com os Wham! (1981-86) ou, depois, a solo.

Dois dias antes do único concerto que deu em Portugal - em Coimbra, a 12 de maio de 2007 - George Michael teve de interromper os ensaios daquela que era a primeira atuação de mais uma digressão para se apresentar ao tribunal, em Londres, respondendo pela acusação de condução sob o efeito de drogas. Correu tudo bem: o músico declarou-se "envergonhado pelo comportamento" e voltou ao estádio Cidade de Coimbra a tempo de abrir o concerto, quase às 22.00, com o tema Waiting. Inexplicavelmente, apesar de os 32 estádios europeus por onde iria passar nesta 25 Live Tour, com a qual celebrou os 25 anos de carreira, estarem praticamente esgotados, em Coimbra George Michael conseguiu pouco mais do que meia casa. Mas as 27 mil pessoas que ali estiveram cantaram no princípio ao fim e guardam até hoje as memórias daquela noite em que viajaram até à sua adolescência, ao longo de duas horas e meia, ao som Careless Whisper, Jesus to a Child ou I"m Your Man.

Foi isso que aconteceu também na noite de 25 de dezembro, quando pouco depois das 23.00 os jornais ingleses deram a noticia da morte de George Michael, aos 53 anos, "pacificamente, em sua casa", provavelmente vítima de ataque cardíaco. Cada um de nós, procurando nos discos antigos (muitos deles ainda em vinil, já riscados) ou pesquisando no Youtube, encontrou-se outra vez com o seu eu de 12 anos, um pouco mais, um pouco menos, a dançar desenfreadamente ao som de Wake Me Up Before You Go Go ou a sofrer de amor com Everything She Wants. Os dois temas dos Wham!, que era o grupo formado por George Michael e o amigo de infância Andrew Ridgeley, foram lançados em 1984. E é tão extraordinário nós hoje sabermos estas canções de cor como é o facto de sabermos que George Michael tinha menos de 20 anos quando escreveu estas pequenas preciosidades pop.

A música que ouvimos na adolescência marca-nos para sempre, esta é uma daquelas verdades incontornáveis, mas dizer que George Michael marcou a geração que cresceu nos anos de 1980 e amadureceu com ele nos anos de 1990 é também constatar que o último álbum de originais do músico, Patience, foi lançado em 2004. Depois disso, houve só mais duas digressões - a de 2007 que passou por Coimbra e a Symphonica Tour, em 2011/12. Pelo que ouvir George Michael é sempre um ato nostálgico.

Nascido Georgios Kyriacos Panayiotou, em 1963, filho de um imigrante cipriota e de uma mãe inglesa de família judia, o depois conhecido como George Michael encontrou-se com Andrew Ridgeley na escola secundária. O interesse comum pela música levou-os a atuar como DJs e a criar uma primeira e insignificante banda, os Executive. A dupla Wham!, assim mesmo, com ponto de exclamação, surgiu em 1981. Young Guns (Go For It), o primeiro single, já revelava um certo white funk que viria a ser a sua imagem de marca. Apareceram no programa Top of the Pops, George Michael de colete aberto, sem blusa por baixo, e a partir daí nunca mais pararam. As raparigas apaixonaram-se por eles, os rapazes também. Todos os singles lançados pelos Wham! ao longo de quatro anos chegaram ao Top 10 britânico. Quando decidiram acabar, em 1986, lançaram um best of e encheram o estádio de Wembley como grandes estrelas pop que eram.

Com 23 anos, George Michael vendia mais discos do que Michael Jackson ou Prince. Faith, lançado em 1987, foi o seu maior sucesso de sempre. A carreira a solo revelou um cantor e compositor mais maduro e sempre ousado - muitas das suas canções transpiravam sexo mesmo antes de em 1998, graças a um triste episódio numa casa de banho em Beverly Hills, o mundo descobrir que o cantor de Freedom 90 era homossexual. Listen Without Prejudice (1990) é considerado por muitos críticos como o seu melhor álbum.

É verdade que quando veio a Coimbra George Michael já não tinha canções novas e aparecia mais vezes nos jornais por causas dos seus pequenos problemas policiais, mas que isso não nos iluda: ele era mesmo muito mais do que o natalício Last Christmas que nos últimos dias se ouviu até à exaustão em todos os centros comerciais. Que esta morte sirva, pelo menos, para redescobri-lo. Do melancólico One More Try ao dançável Too Funky.

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