Música num salão pensado pelo rei D. Fernando II

D. Fernando II usou esta sala para convívio e tinha uma mesa de bilhar. Hoje ouve-se música.

Hoje vai ouvir-se Franz Liszt no Salão Nobre do Palácio da Pena, em Sintra, um dos vários usos deste espaço desde que D. Fernando II se interessou por este lugar e se dedicou a converter este antigo convento em residência. O espaço onde hoje Vasco Dantas atua foi pensado como Sala de Audiências e transformou-se em Sala de Bilhar, após a morte da rainha D. Maria II, em 1853.

"Nos projetos iniciais elaborados pelo Barão de Eschwege, previa-se para aquele espaço uma "Sala de Audiências" antecedida por uma antecâmara. Pensava-se assim nas cerimónias e atos oficiais da rainha de Portugal, D. Maria II, primeira mulher de D. Fernando II", situam o diretor do Palácio da Pena, António Nunes Pereira, e o conservador Hugo Xavier, por e-mail, em resposta ao DN.

Após a morte da rainha há uma "inflexão no projeto". "A antecâmara e sala de audiências projetadas deram então lugar a um único espaço, o de maiores dimensões de todo o palácio. Foi pensado como uma espécie de "sala de convívio" com sofás, poltronas e mesas. Sabemos pelos inventários que sobre essas mesas estavam caixas com jogos (damas, xadrez, etc.)", detalham. "Ao centro da sala, sobre o lustre, foi colocada uma mesa de bilhar e, como tal, passou a ser designada por "Sala do Bilhar"", acrescentam, ficando assim explicada a origem da denominação desta divisão.

Hoje a sala ganha 80 cadeiras para o primeiro de quatro concertos (já esgotados), mas música, como acontecerá esta noite (e tem acontecido pontualmente), "aparentemente", não se ouvia na Sala do Bilhar, dizem António Nunes Pereira e Hugo Xavier. Para esse fim, era usada outra parte do palácio, próxima do Sala Nobre. "Existia no palácio um piano vertical, na Sala de Fumo, por vezes designada nos inventários por Sala de Música". Era nessa sala que se executava a música de época, "que consistia em transcrições para piano/canto e piano das obras operáticas mais em voga", notam. "Tocou ali também o conhecido compositor e pianista Vianna da Motta, em criança, a quatro mãos com a condessa d'Edla, segunda mulher do rei", contam.

O Salão Nobre foi alvo de restauro, terminado em 2014. "Envolveu os revestimentos em estuque das paredes e do teto, parquet, mobiliário, porcelanas e vitrais. Nesta ocasião, substituiu-se o revestimento amarelo-dourado dos sofás e cadeirões de 1940 por uma reprodução da pele (chagrin) original de cor bordeaux", explicam o diretor do palácio e o conservador nas suas respostas.

O objetivo foi representá-lo na aparência "ao tempo de D. Fernando II (com algumas alterações apenas, se manteve também no tempo de D. Carlos e D. Amélia)". Como era então, no século XIX? O mobiliário foi encomendado à Casa Gaspar, depois designada Barbosa e Costa. "Acerca disso o Diário de Notícias de 1867 dá-nos um importante testemunho", dizem diretor e conservador. E citam: "O distincto estofador Gaspar, auxiliado por vinte e dois entalhadores, está fazendo por encommenda de el-rei D. Fernando uma riquíssima mobília de obra de talha para o palácio da Pena em Cintra. Os estofos são de chagrin dourado pelo sr. Lisboa. É um trabalho primoroso que nos dizem valer mais de trinta contos de reis". A notícia é sábado, 9 de fevereiro de 1867.

"O mobiliário em questão é eminentemente eclético, com referências neogóticas e neo-renascença. Neogótico é também o lustre e os quatro tocheiros, estes últimos suportados por quatro figuras de turcos em madeira entalhada. Sobre os alçados dos sofás, expunha-se (e expõe-se ainda) parte da grande coleção de porcelana chinesa do rei. Três janelas estão também decoradas com vitrais da sua coleção", descrevem.

Após a intervenção de 2014, "ficaram a faltar os têxteis (sanefas em passamanaria e reposteiros) a que agora nos estamos a dedicar. No concerto de sábado, poderão ser vistas as reproduções exatas das sanefas originais em passamanaria com franjas bordeaux e borlas com a forma de pequenos crescentes lunares. Este trabalho de passamanaria foi feito nas oficinas da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva".

Também falta a mesa de bilhar que deu nome à sala. "A mesa saiu do palácio em 1939, transferida para o Palácio da Ajuda (acreditamos que para facilitar a circulação dos visitantes no salão). Poderá corresponder à que está hoje no Palácio da Cidadela de Cascais, pelo menos é idêntica."

Nos Serões Musicais, às 21.00, a entrada é feita de maneira diferente da que é usada na visita. É preciso entrar pelo portão principal do Parque e Palácio da Pena, onde é validado o bilhete. O público pode subir de automóvel e estacionar na base do Palácio e a entrada é feita pela loja. O último ciclo da temporada de música erudita, Reencontros - Memórias Musicais no Palácio de Sintra, acontece entre 2 e 24 de junho.

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