Morre Isabel Barreno, uma das Três Marias que mudaram Portugal

1939-2016. Coautora das Novas Cartas Portuguesas, a obra que no ano de 1971 questionou a sociedade portuguesa e o mundo

A notícia da morte da escritora Maria Isabel Barreno aos 77 anos surgiu na tarde de ontem como se fosse um parágrafo de um seu romance. Breve, discreto e sem certezas de que era mesmo verdade a morte que se avançava, até porque os amigos não queriam acreditar que uma das Três Marias partira.

Não sendo o ponto alto da sua obra literária e ensaística, as Novas Cartas Portuguesas, escritas a seis mãos com Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, é o título que se lhe cola sem dúvida, tal foi a aventura em que embarcou ao ver a obra publicada no ano de 1971. Que valeu às três autoras uma dupla situação: admiração e a perseguição, visto que o anterior regime as chamou a um julgamento que só terminou a 7 de maio de 1974, sem condenação, já depois da Revolução de Abril.

Novas Cartas Portuguesas, porém, não foi apenas um pretexto para um incómodo mas também a confirmação da escrita de um livro excecional, que revolucionou as mentalidades nacionais e gerou interesse em todo o mundo devido tanto ao alarido provocado como ao seu valor.

Uma das Marias, Teresa Horta, não se esquece dos momentos iniciais da escrita de tal livro. Aliás, surpreendida pelo anúncio do falecimento dessa outra Maria, Isabel Barreno, em que não quer acreditar, prefere falar desse livro a seis mãos do que retirar da memória outras recordações. Conta que Barreno foi totalmente contra a ideia de tornar a Soror Mariana Alcoforado a protagonista das Novas Cartas Portuguesas: "Almoçávamos as três todas as semanas e sugerimos-lhe esta personagem. Ela não concordou com a escolha da Mariana Alcoforado, reclamou que era uma hipocrisia e não a queria para o projeto. Na semana seguinte, em novo almoço, tudo mudou e era ela que trazia a primeira carta já escrita. A partir daí, foi um trabalho empolgante. Mariana Alcoforado representava a desobediência, a infração e a clausura, aquela que havia em Portugal para as mulheres. Queríamos que fosse uma mulher num tempo mais para trás e com quem não nos identificássemos naquela altura."

Está em elaboração um documentário em que a escritora dá uma grande entrevista

A expectativa do trio em torno do livro era tão grande que Teresa Horta lembra-se da terceira Maria, Velho da Costa, dizer a certa altura: "Se uma mulher sozinha faz este barulho todo, imagine-se o que farão três. É a partir do almoço em que isto é dito que iniciámos o trabalho."

Pergunta-se-lhe se a morte de Barreno é o fim de um ciclo? A resposta é rápida: "Não, é antes um grande desgosto e o voltar atrás como se estivéssemos a escrever o livro. A vida é absurda e, diante desta notícia, só tenho um grande desgosto." Não é por acaso, explica: "Quando um escritor escreve com outro é completamente diferente do que estar cada um por si. É como se nos fundíssemos num mesmo trabalho. Estou em choque."

Ainda se lhe questiona se as Novas Cartas não as marcaram para sempre no registo literário: "Não, basta ler os livros de cada uma. Nenhuma sentiu obrigação de continuar a fazer aquele livro."

Há um pormenor que não deixa de recordar: "No fim, fizemos as contas e reparámos que a escrita tinha levado exatamente nove meses. O tempo de uma gestação."

Reações de todo o lado

As reações à morte de Maria Isabel Barreno não se fizeram esperar. O ministro da Cultura elogiou a "voz ativa" na defesa dos direitos das mulheres durante "um regime opressor". Também Marcelo Rebelo de Sousa colocou na página da Presidência da República uma nota de pesar.

A poeta Ana Luísa Amaral recordou ao DN a sua ligação às Novas Cartas Portuguesas, obra sobre a qual foi responsável na última década por uma edição anotada e outra por ocasião dos 40 anos da sua publicação, bem como de uma investigação com 800 páginas em português e inglês: "O livro teve um enorme impacto na altura, tendo congregado em 1971 a atenção da maior parte da intelectualidade nacional. Contudo, depois do 25 de Abril cai no esquecimento. É considerado um livro feminista, o que não acontece lá fora, onde se percebe o valor a nível dos direitos das mulheres e dos direitos humanos. Além de ser uma grande obra em termos literários, registe-se."

Para Ana Luísa Amaral, a escritora tem "um livro notável, chamado O Falso Neutro, bem como A Morte da Mãe. São obras extraordinárias." Refere que no próximo ano sairá um documentário de Luísa Sequeira e Luísa Marinho, em que conduz uma interessante entrevista à escritora.

Também o seu último editor, João Rodrigues, lamenta a morte: "Era uma mulher com uma capacidade intelectual fora do vulgar, com uma escrita ficcional muitíssimo nova e moderna. Por isso mesmo, uma voz demasiado ignorada para a qualidade do que escrevia." A memória que tem é de uma pessoa "muito pacata e nada nervosa enquanto criadora artística. Era uma pessoa atingida por aquela graça da musa irregular, como dizia o Assis Pacheco. As publicações eram bissextas desde o início."

Também Zeferino Coelho, o seu anterior editor, recorda que "era uma pessoa muito agradável com quem trabalhar, muito inteligente e sensível, que foi abandonando aos poucos a escrita".

Uma extensa biografia

Maria Isabel Barreno nasceu em Lisboa em 1939. Desde muito cedo, devido a uma doença aos 6 anos, que a leitura foi uma paixão e a poesia, nunca publicada, um primeiro prazer. Licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, trabalhou no Instituto Nacional de Investigação Industrial, foi jornalista e conselheira na área cultural da Embaixada portuguesa em Paris. Publicou mais de duas dezenas de livros, entre romances, contos e investigação. Entre os vários prémios que recebeu está o Fernando Namora pelo romance Crónica do Tempo (1991), o Camilo Castelo Branco e o Pen Club Português de Ficção por Os Sensos Incomuns (1993). O último romance que publicou foi Vozes do Vento, em que recorda a história dos antepassados do pai em Cabo Verde, após 15 anos de ausência.

O corpo de Maria Isabel Barreno será cremado hoje, às 17.00, no cemitério dos Olivais, em Lisboa.

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