Moonspell: "Os fãs permitem às bandas de metal ter uma existência mais independente"

Os Moonspell dão hoje um concerto especial em Guimarães (e, para o ano, em Lisboa), onde tocarão três álbuns na íntegra

Uma epopeia musical para assinalar os 20 anos de Irreligious, o disco que estabeleceu a banda como um dos nomes mais importantes do metal europeu. Ocasião ideal para revisitar a carreira de um grupo que vai fazer 25 anos à conversa com o seu vocalista, Fernando Ribeiro.

Nada melhor do que começar esta conversa pelo início, pela compilação The Birth of a Tragedy, lançada em 1992, em que aparecia pela primeira vez uma banda com uma estética mais ligada ao Black Metal, pouco habitual em Portugal. Como é que se faz a transição dessa estética dos Morbid God para os Moonspell?

Indo tão atrás, quem transitou dos Morbid God para os Moonspell tinha uma intenção, que não era só musical, de dotar a cena portuguesa underground de uma banda que simplesmente não existia, existiam pessoas com as mesmas referências, mas estavam entregues mais a outras bandas, Metallica, Slayer. Existia sempre a ideia de que esses grupos tentavam ter um som muito parecido com essas referências, nós achávamos que as bandas portuguesas apostavam muito pouco na originalidade. Havia um típico som do metal português, que ainda hoje identifico como metal português, que não acho que vá vingar lá fora. Com essa intenção acabámos mesmo por criar os Morbid God, que nem estavam para aparecer nessa compilação. Nós colaborávamos com outra banda, os Filii Nigrantium Infernalium, e o João Pedro Ares enviou uma gravação dos Filii e no lado B da cassete enviou um ensaio dos Morbid God. O Hugo Moutinho, da MTM, ficou muito entusiasmado com os Morbid God. E a aposta revelou-se bastante interessante. Os fãs levaram um pequeno abanão, outros foram um pouco avessos a essa estética, o português sempre teve alguns problemas com a teatralidade. Mas o que é facto é que, olhando para as bandas que aparecem nesse disco, acho que quem mais beneficiou fomos nós. Porque, de resto, mais de 70% dos outros grupos acabaram.

É isso que serve de trampolim para fazerem o Under the Moonspell e principalmente o Wolfheart, que também era inovador e até terá servido como uma das influências para esta vaga de folk metal?

Deixamos de ser Morbid God e gravámos uma demo, damos um passo, depois gravamos o Under the Moonspell, damos vários passos, e depois precisávamos da prova de fogo, que era um álbum, que chegou da forma que desejámos através da proposta da editora Century Media. Os Moonspell, na altura, eram já muito diferentes das bandas em Portugal e um bocadinho diferentes do que somos hoje, éramos uma banda com muitas cabeças e o Wolfheart é o reflexo a nível musical e de composição dessas muitas personalidades, uma mais gótica, outra mais folk, outra mais metaleira. Mas, para espanto de todos, com grande mérito do nosso produtor, o Waldemar Sorychta, conseguimos reunir isso num álbum que, em vez de assustar as pessoas pela sua diversidade, conseguia ter um ambiente e canções de vários quadrantes que atraíram pessoas de vários quadrantes. Mas não é a primeira vez que nos associam a essa influência neste boom do folk metal escandinavo e, de facto, fui verificar e são canções parecidas, simples, que apostam nas melodias folk com guitarras pesadas. Talvez sejamos responsáveis um bocadinho por esse estilo.

Pegando nessa deixa, vocês têm noção que são neste momento uma das bandas de referência nesta área?

Quando as pessoas me dizem isso, não é uma coisa imediata, estamos tão ocupados e interessados noutras coisas que não estamos a avaliar os méritos. Mas, se fizer uma pesquisa no YouTube, vemos jovens a fazer versões dos Moonspell, mesmo fãs de outros estilos, desde o metalcore ou góticos. É uma banda que vai fazer 25 anos, em relação à qual já há um conhecimento, que já tem fãs, novas gerações.

Mas a ideia que dá é que fazem questão de manter a ligação ao mundo real, de serem fãs também.

Nós não conhecemos outra realidade. Claro que sabemos do nosso valor, mas nunca fomos daqueles músicos que não pertencêssemos à cena, sempre vimos os concertos. Sempre me contaram histórias de músicos que não sei que tipo de clique tiveram ou que, lá está, estiveram muito preocupados em ver a sua influência e se perderam um bocado. Os Moonspell sempre foram uma coisa entre momentos gloriosos e momentos complicados também.

Que momentos complicados foram esses?

Um dos momentos mais complicados aconteceu depois da tournée com os Type o Negative e quando tínhamos o Irreligious, que estava a fazer um grande sucesso na Europa. Um dos nossos membros fundadores, o João Pedro Ares, teve de abandonar a banda e estivemos sete anos em tribunal. Foi um processo muito complicado, foram muitos anos a lutar contra isso. Lembro-me também perfeitamente de estar na tour do Wolfheart, com os Morbid Angel, tocar e vender mais T-shirts, e depois eles irem para a tour bus e nós, depois de assinarmos uma longa fila de autógrafos, irmos para uma carrinha em que não tínhamos sequer onde dormir. Esta é uma banda que foi feita pela dedicação e paixão a este estilo de música, principalmente ao metal europeu, que nascia naquela altura. Mas fomos a tempo, entre 1995-96, de já não sermos nós a escrever sobre a cena que acontecia mas também de sermos um desses nomes quando se fazia a coleta dos novos valores do metal europeu. Os Tiamat estavam a fazer uma coisa mais pink floydiana, os Moonspell eram mais Sisters of Mercy.

Os Paradise Lost também mudaram...

Os Paradise Lost são um banda que nos influenciou bastante e que continua no ativo e cheia de força. São britânicos, e as melhores bandas serão sempre do UK [risos].

Vocês, na altura, foram por uma linha também seguida, por exemplo, pelos Paradise Lost, mais experimental. Depois do sucesso de álbuns como o Irreligious, não tiveram medo de arriscar e fazer coisas completamente diferentes, como o Butterfly Effect.

As bandas não tiveram medo de arriscar, não quer dizer que tenha compensado para todos. O heavy metal em 1998-99 na Europa estava a dar uma volta muito adversa para nós. Todas as bandas confiaram que aquele espírito avant garde, entre 93 e 97, fosse durar para sempre, mas não. As pessoas começaram a ouvir coisas como Hammerfall, completamente power metal, com tudo aquilo de que os anos 1990 se tentaram livrar. Nós arriscámos porque as bandas à nossa volta também o estavam a fazer, havia contexto para isso. Nunca fizemos dois álbuns iguais. Estávamos a descobrir outras coisas, coisas mais alternativas. Foi uma fase com alguns dissabores e críticas, mas são discos, principalmente o Sin, que passaram o teste do tempo. Isto é algo natural, há um primeiro disco, depois há a pressão de o segundo disco não vir a ser tão bom, depois o segundo disco até consegue ultrapassar, então, se não é ao segundo, há de ser ao terceiro. Da forma como o metal estava acho que houve uma espécie de rutura epistemológica, embora nunca se apliquem estes termos para o metal [risos].

No final dos anos 1990 houve muita gente a decretar a morte do metal, mas a verdade é que nos anos 2000 houve um ressurgimento em grande forma. A que se deve esta vitalidade?

Ser metaleiro sempre foi uma espécie de acompanhamento. É injusto reduzir o metal a um nicho. Os dois maiores festivais de metal mundiais, os dois na Europa, o Wacken, na Alemanha, e o Hellfest em França, vendem perto de cem mil bilhetes. Por isso quando me dizem que este é um estilo de nicho ou que temos um público segmentado penso que é um preconceito, há sobranceria por se achar que as conquistas das bandas de metal não valem tanto porque têm um público fiel. Isto é completamente absurdo. Todas as bandas tentam ter um núcleo duro de público, a partir daí expandimos, regredimos. Mas há sempre ali uma base muito fiel que, apesar da agressividade, permite às bandas de metal ter uma existência mais feliz e independente do que o próprio indie.

Não podemos fugir a esta grande epopeia em que estão envolvidos para comemorar os 20 anos do Irreligious e iniciar as comemorações dos vossos 25 anos de carreira, tocar três álbuns (Wolfheart, Irreligious e Extinct) ao vivo, primeiro em Guimarães e no próximo ano em Lisboa. É uma forma de premiar os fãs?

Isto acabou por acontecer. Tivemos no ano passado os 20 anos do Wolfheart e andávamos também em digressão com o Extinct e, muito de vez em quando, tocávamos o Wolfheart na íntegra. A nossa editora, a Century Media, no início deste ano, quis fazer uma reedição em vinil do Irreligious e claro que nós nos envolvemos e até formámos uma editora, a Alma Matter Records. As coisas foram-se acumulando e começou a haver uma empatia do público e uma propensão à celebração desses 20 anos. Não que tivéssemos forçado alguma coisa, até porque andávamos em tournée com o Extinct. A partir daí começaram a surgir promotoras interessadas. O que queremos fazer nos concertos é recriar as três atmosferas diferentes. Mas não queremos pregar só para os convertidos ou fazer um espetáculo nostálgico, queremos é criar o ambiente lunar e pagão para o Wolfheart, o ambiente mais gótico para o Irreligious e um mais apocalíptico do Extinct. Mostrando assim que a banda tem respeito pelo seu passado e que acha que o deve celebrar com quem tornou esse passado, o presente e o futuro possíveis, que são os fãs, quer das velhas gerações, dos anos 1990, que vão para reacender um sentimento que estará mais adormecido, e o das novas gerações, que vão para experienciar esse sentimento em 2016. Temos a responsabilidade de cenicamente, a nível de efeitos e de som dar muito boa representação desses três momentos.

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