Melodrama de guerra renasce com Brad Pitt e Marion Cotillard

Autor da trilogia Regresso ao Futuro, Robert Zemeckis é considerado um mestre dos efeitos especiais. O certo é que, desta vez, com Aliados aposta em revitalizar o sabor clássico do melodrama de guerra

Será que neste nosso admirável mundo global até mesmo um filme como Casablanca, realizado por Michael Curtiz em 1942, já começou a ser desconhecido da maior parte dos espectadores? A pergunta não é banalmente nostálgica, mas visceralmente cultural. A saber: será que até mesmo a nobreza clássica de Hollywood está a ser esmagada por uma noção de cinema popular que se esgota em Harry Potter e seus companheiros mais ou menos monstruosos? Vem isto a propósito de alguém, Robert Zemeckis, que arrisca, precisamente, fazer um filme como Aliados (estreia-se amanhã), evocando e invocando a grande tradição do melodrama de guerra de que Casablanca continua a ser, apesar de tudo, o símbolo mais universal.

Para evitar confusões, Zemeckis situa mesmo a primeira parte do seu filme em... Casablanca! Humphrey Bogart e Ingrid Bergman não passam de uma memória inacessível, mas o seu simbolismo romântico surge revisitado por um novo par, Brad Pitt e Marion Cotillard, vivendo também uma aventura em que a frieza dos jogos de espionagem se combina com as intensidades do impulso amoroso.

Digamos, para simplificar, que se trata da história de um par assombrado. Max Vatan (Pitt) é um oficial canadiano que recebe a missão de assassinar o embaixador alemão em Casablanca, para tal contando com a colaboração de Marianne Beauséjour (Cotillard), das fileiras da Resistência francesa. Missão cumprida, apaixonam-se e vão viver para Londres até que, um dia, já casados e com uma filha, ainda sem se vislumbrar o fim da guerra, Max é informado pelos serviços britânicos de que há suspeitas de Marianne ser uma espia alemã...

No seu esquematismo, este resumo limita-se a corresponder à imagem promocional de Aliados (as peripécias referidas coincidem com as que estão no respetivo trailer). Como qualquer sinopse do género, pouco ou nada nos diz sobre a riqueza dramática do filme. Convém referir, a esse propósito, que Zemeckis contou com a colaboração essencial de um argumentista tão talentoso como o inglês Steven Knight que escreveu, por exemplo, Estranhos de Passagem (Stephen Frears, 2002) ou Promessas Perigosas (David Cronenberg, 2007), tendo também realizado o magnífico Locke (2013), em que Tom Hardy interpretava uma personagem solitária, ao telefone, a conduzir o seu automóvel.

Aliados pode definir-se como uma odisseia sobre as formas de coexistência de verdade e mentira, do desejo e das suas máscaras. Isso é particularmente importante logo no capítulo inicial, em Casablanca, com Max e Marianne a encenarem a relação romântica das suas personagens fictícias (observem-se as cenas no terraço, à noite, em que sabem que a vizinhança espreita os seus beijos e abraços). Tal encenação confunde-se já com a sua própria história de amor, ilustrando essa íntima crueldade que alguém definiu dizendo que "o amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer".

Fascinante anacronismo

Será, porventura, desconcertante encontrar um cineasta como Zemeckis, tido como mago dos efeitos especiais, a assinar um tão depurado melodrama de guerra. Afinal de contas, além de responsável pela trilogia Regresso ao Futuro (1985, 1989, 1990), ele é também autor de um título como Quem Tramou Roger Rabbit? (1988), marcante na evolução da manipulação das imagens.

Mas não simplifiquemos: o fôlego romanesco de Aliados não pode ser separado de um conceito de espetáculo "maior do que a vida" em que, justamente, a aplicação de sofisticados recursos técnicos é também essencial no envolvimento e na sedução do espectador. Para nos ficarmos por um exemplo esclarecedor, repare-se no espantoso plano de abertura do filme, com a paisagem desértica, os pés de Max a entrarem lentamente na zona superior da imagem, seguindo-se a revelação do seu paraquedas e a elegante queda nas dunas - não tem nada que ver com naves ruidosas ou monstros ameaçadores, mas tal plano é, em si mesmo, uma extraordinária proeza de efeitos especiais.

Com Aliados, Zemeckis realizou um filme esplendorosamente fora de moda e é muito provável que esteja a ser comercialmente penalizado por isso mesmo: nos EUA, arrancou com receitas modestas, acumulando no primeiro fim de semana pouco mais de 12 milhões de dólares (média por ecrã: quatro mil), em claro contraste com a nova produção Disney, Vaiana, que faturou 56 milhões (média por ecrã: 14 mil).

Mesmo as especulações grosseiras de alguns meios de comunicação, sugerindo que Marion Cotillard poderia ter algo que ver com a recente separação de Brad Pitt e Angelina Jolie, não produziram qualquer efeito "comercial". Aliás, com suave contundência, Cotillard respondeu a tais especulações quando entrevistada por Matt Lauer no programa televisivo Today (NBC): "Nunca encaro de forma pessoal as notícias que não têm que ver comigo."

Em todo este contexto, o mais insólito, e também o mais fascinante, é o anacronismo de uma produção como Aliados. Assim, em 2016, quando Hollywood se consagra através de títulos como Star Trek: Além do Universo, À Procura de Dory ou Doutor Estranho, o veterano Zemeckis mobiliza duas grandes estrelas para fazer um filme apostado em revitalizar a mais pura herança clássica. Dir-se-ia uma experiência de vanguarda.

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