Marx "racista" não escapa a José Rodrigues dos Santos

O próximo romance de José Rodrigues dos Santos é apresentado hoje. O 17.º, que completa A Trilogia do Lótus. Mas a sua intensa produção não se fica por aqui, pois lança em outubro um novo thriller.

Não vale a pena avaliar literariamente o mais recente romance de José Rodrigues dos Santos. O Reino do Meio segue-se a 1390 páginas dos outros dois tomos da Trilogia do Lótus e os leitores portugueses - bem como de muitos outros países - apreciam sem limites a capacidade ilimitada do autor em criar tramas tão simples como, ao mesmo tempo, incorporar questões de investigação pouco habituais neste género. O primeiro parágrafo é sintomático do seu registo, a partir daí é o leitor que sabe o que quer.

O autor é o líder de vendas desde que lançou O Códex 632. Nesta rentrée, vai ter a concorrência dos novos livros de Dan Brown e de Ken Follett, que não o preocupa: "Adoro a concorrência. Vou lê-los e espero que os leitores também, para compararem os autores, verem quais aqueles de que gostam mais. Só assim podemos melhorar." Despachada esta questão, Ken Follett volta à liça quando se pergunta a razão do atraso de O Reino do Meio em relação ao previsto: "Ken Follett, trabalhando com uma equipa de pesquisadores, publicou a sua Trilogia do Século em seis anos. Eu, sem ninguém a pesquisar por mim, publiquei A Trilogia do Lótus em dois anos. Acha mesmo que fui lento?"

Entrevista a José Rodrigues dos Santos

"Os escritos racistas de Marx estão bem documentados"

Com O Reino do Meio chega ao 17.º livro. Esperava escrever tanto?

Quando começamos um romance nunca sabemos quantas páginas escreveremos. Serão as necessárias para contar a história, agora transfira-se isto para uma obra inteira.

O seu estilo tem evoluído ou O Codex 632 já continha tudo?

O meu estilo assenta numa escrita clara e numa narrativa em que está sempre a acontecer alguma coisa. Nesse sentido, está presente desde o primeiro romance. Claro que há coisas em que vamos evoluindo, o estilo é uma coisa dinâmica.

O desafio era ser uma trilogia ou um retrato de época mais vasto?

A Trilogia do Lótus nasceu das exigências que as histórias que tinha para contar impuseram. Como lidar com quatro personagens de países diferentes com a emergência de autoritarismos nos seus países? Como foi que essas ditaduras afetaram as suas vidas? Pela história dessas quatro personagens passa a história do século XX.

Fazendo parte de uma trilogia, pode ler-se autonomamente?

Essa é de facto a parte fascinante de O Reino do Meio: é possível ler-se este sem ler os outros dois volumes. É como contar a vida de uma pessoa. Há episódios da sua infância, há episódios da sua juventude, há episódios da sua idade adulta. Claro que os episódios têm todos relação uns com os outros, mas da mesma maneira que é possível ouvir histórias da vida de um adulto sem conhecer a sua juventude, é possível ler estas histórias sem ler as contadas nos restantes tomos.

No 2.º volume da trilogia afirmou, com muita polémica, que "o fascismo é um movimento com origem marxista". Desta vez, volta ao ataque a Marx acusando-o de racista ao referir que escreve em O Capital que "a raça dos trabalhadores é um dos fatores que afetam a produtividade". É uma demanda contra Marx?

Não acuso ninguém nem faço demandas, a não ser para expor o que está escondido. Ao longo da minha obra faço-o em relação a uma multiplicidade de temas supostamente sagrados, incluindo o cristianismo e o islamismo. Uma das características dos meus romances é justamente tocar no proibido, questionar o inquestionável e dizer em voz alta a verdade que muitos apenas sussurram, pois penso que essa é a mais nobre função da literatura. Muitos acham que literatura é apenas a forma, escrever de maneira impenetrável, ou só com vírgulas ou sem vírgulas, ou com qualquer outro experimentalismo formal. Respeito essa visão, mas não me interessa. Para mim a literatura é conteúdo e mede-se pela capacidade de violar o proibido. D.H. Lawrence viu o seu livro O Amante de Lady Chatterley ser censurado por ter mostrado uma verdade que não se podia referir, a de que havia mulheres casadas que eram adúlteras. Viu partes censuradas e foi levado a tribunal por atentado à moral. Não poderia ignorar que sofreria retaliações na sociedade do seu tempo, mas superou o medo e expôs a verdade. É justamente para isso que existe a literatura. No caso em apreço, os escritos racistas de Marx estão bem documentados em vários textos, incluindo O Capital, embora este seja pelos vistos tema tabu. Pois se é tabu, então derrubemos o tabu.

Tal como considerar Marx judeu, que faz referências antissemitas. Racista e antissemita, portanto?

Como disse, isso está bem documentado. Se é verdadeiro e se o público em geral o desconhece, tem de ser dito. Lembro-me de que uma vez conversei com José Saramago sobre a polémica suscitada por o seu romance Caim criticar Deus. Ele disse-me: "Mas não é verdade que Deus mandou Abraão matar o filho? Não acha essa atitude cruel? Não tenho o direito de criticar quem manda alguém matar o filho?" Saramago estava apenas a dizer o indizível, é isso a literatura.

Na contracapa, escreve-se que é "uma das mais ambiciosas e controversas obras da literatura portuguesa contemporânea". O que se passa com a "concorrência"?

Não se trata de referência à concorrência, trata-se de assumir um facto. A revelação de que o fascismo tem origens no marxismo, feita em As Flores de Lótus e em O Pavilhão Púrpura, os dois primeiros tomos da trilogia, provocou aceso debate público, talvez a maior polémica dos últimos anos em Portugal em torno de uma obra de ficção. Isso mostra que a nossa ficção está viva, é provocadora, é incomoda, pisa terrenos proibidos, revela o que se quer escondido. Não é afinal para isso que existe literatura? Ou só queremos literatura desde que ela não ponha nada em questão?

Coloca na boca do seu narrador que a "escrita é o que mais me apazigua". É autobiográfico?

Não foi escrita com essa intenção, mas admito que também se pode aplicar a mim. Acho que a arte nos apazigua a todos.

Explica no início que se baseia em "eventos históricos verdadeiros" e no fim uma longa bibliografia. Para os leitores não acharem que a ficção foge à realidade?

É uma questão de honestidade e porque a ficção mais interessante é aquela que nos fala de coisas verídicas. A ficção é uma forma muito poderosa de contar a verdade, pelo que os assuntos que aborda devem ser bem pesquisados.

Dos quatro cenários, o português, o chinês, o japonês e o russo, qual foi o que mais o desafiou?

Os desafios de cada narrativa inserida em O Reino do Meio são diferentes uns dos outros. No caso do personagem português, o desafio era mostrar Salazar sem as lentes dos complexos ideológicos que tendem a deformar o seu retrato. No caso das outras, o desafio era ser capaz de compreender as culturas e explicá-las através de histórias.

Encontram-se ataques a ditadores. "O professorzeco" de Coimbra e a comparação física entre Hitler e Chaplin. Os leitores gostam?

O ataque a quem quer que seja não me interessa, antes explicar e mostrar o lado escondido da vida e da história. Trazer para o grande público uma série de informação que só é conhecida no círculo fechado da academia. A história que é apresentada publicamente aos portugueses assenta muito em mitos, dogmas e tabus. O meu trabalho é usar a ficção para os deitar abaixo, incomode quem incomodar.

O Reino do Meio

(3.º Volume da Trilogia do Lótus)

José Rodrigues dos Santos

Editora Gradiva

704 páginas

PVP: 22 euros

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