"Depois da Coca-Cola viria a minissaia, a pílula e sabe Deus que mais"

"Sem ressentimentos nem ódios" é como Maria Filomena Mónica volta a analisar a sociedade portuguesa em Os Ricos. Depois de ter radiografado as classes desfavorecidas, volta-se agora para as mais favorecidas.

"Durante muito tempo, pensei que nada existia no mundo para além da tribo que, ainda criança, conhecera em Cascais. Alguns dos meus amigos tinham antepassados que provinham da aristocracia de corte, coisa que, na altura, ignorava." É assim que a socióloga Maria Filomena Mónica inicia a sua mais recente investigação, Os Ricos, que se segue a Os Pobres. No primeiro volume deste díptico, os seus parágrafos iniciais revelavam o desconhecimento da pobreza durante os primeiros anos de vida e quando foi o momento em que descobriu as diferenças sociais.

O facto de ser "híbrida" - "pertencia e não pertencia ao grupo" -, confessa, foi uma vantagem pois só assim pôde "olhar os ricos por dentro e por fora, sem ressentimentos nem ódios". É essa intimidade que sobressai neste novo livro, um entre uma vasta obra em que se destacam as questões históricas sob vários géneros, que lhe permite desenvolver opiniões esclarecedoras e nem sempre presentes nas análises à sociedade portuguesa pelos académicos nos últimos séculos. Assim, usando o conhecimento de Eça de Queirós, por exemplo, o leitor confronta-se com parágrafos que valem por muitas páginas de ensaios.

Os Ricos inserem-se cronologicamente no período desde a Revolução de 1820 até ao presente, determinando o declínio da velha aristocracia, a dependência do Estado e o papel dos estrangeiros na modernização da indústria portuguesa, até à "paz social" assegurada pelo Estado Novo e os grandes projetos a partir de 1965. O relato conjuga-se com as várias biografias do empresário desde o século XVII, o primeiro duque de Palmela, até Belmiro de Azevedo.

Entre os amigos que fizeram uma leitura ao original de Os Ricos e a quem a autora agradece está Marcelo Rebelo de Sousa. O agradecimento tem também outra razão: "Não lhe agradeço o facto de ter lido um rascunho deste livro, mas sim a sua amizade ao longo do período em que o estava a redigir. Escrevi-o depois de ele ter sido eleito. Quando há dois anos lancei a outra face deste díptico, Os Pobres, ele apareceu na Livraria Ferin. Além disso, por saber que tinha cancro, telefonou-me várias vezes a saber da minha saúde. No meio dos seus afazeres, espantou-me que tivesse tempo para pensar em mim. Quando se está muito doente, estas coisas importam."

Define-se como uma "híbrida social". Foi o melhor que lhe aconteceu?

Em parte, sim. Apesar de existirem pessoas que talvez pensem que isto foi negativo, não é o caso. É bom conhecerem-se "tribos" para além daquelas em que nascemos. Existe, em Portugal, o risco de se ficar preso dentro de um aquário social.

Refere F. Scott Fitzgerald e Eça de Queirós para enquadrar os "mais ricos". Os escritores são os que melhor retratam a sociedade?

Tendo lido tantas obras de sociologia e de história ao longo da vida, acabei por chegar à conclusão de que a literatura era mais importante para o que eu queria escrever. Não digo que certos livros académicos não me tenham ajudado, mas foi nos grandes romances clássicos que me deparei com uma análise mais fina de como as pessoas vivem, se movem e respiram. A literatura, hoje infelizmente posta de parte nos curricula das escolas, é fundamental para a compreensão do que nos rodeia.

Fez uma investigação "determinada pelas fontes" e ausência de "cartas de natureza pessoal". Existe um descaso nacional perante a preservação dos espólios?

Para quem estuda Portugal, a inexistência de fontes, especialmente quando procuramos analisar a vida privada, é um drama. Raras são as famílias, e cito as que o fizeram no livro, que se deram ao trabalho de preservar a correspondência dos antepassados, como raros foram os ricos que deixaram memórias. Por isso, gosto tanto de José do Canto: foi ele que me permitiu conhecer por dentro uma família oitocentista. Sempre que posso, apelo a que os descendentes cuidem dos espólios que herdaram, mas frequentemente é tarde de mais. Muitos portugueses, em vez de legarem à Torre do Tombo os papéis que têm em casa, andam deliciados a analisar árvores genealógicas.

Os historiadores portugueses têm-se esforçado em fixar o retrato dos nossos empresários ou está-se perante um deserto na investigação?

Há alguns livros académicos, sobretudo no domínio da história económica. Mas a maioria foram escritos por jornalistas. Até recentemente, o género biográfico era desprezado em Portugal: as "estruturas" é que comandavam, sendo as pessoas relegadas para um limbo.

Considera que o "Portugal da segunda metade do século XIX era uma sociedade mais aberta do que por vezes se pensa". Essa abertura, creio, não se manteve. Porquê?

Há que estudar melhor a questão da mobilidade social no século XIX. Em parte, a mobilidade que se verificou deve-se aos efeitos da Revolução de 1820, que foram profundos, como podemos verificar se olharmos, por exemplo, a composição da Câmara dos Pares, de onde grande parte da velha aristocracia foi banida. Temos ainda de considerar que uma coisa era a entrada na vida política de gente com origens humildes, outra os casamentos entre jovens de diversas classes sociais. Diante da ausência de mais estudos, sobre o passado e o presente, é difícil pronunciar-me. Mas sei que hoje, entre alguns grupos com apelidos antigos, ainda há resistência em deixar os filhos casar com meninas que se chamem Vanessas, Sónias ou Tânias. Seria aliás curioso fazer-se um estudo sobre mobilidade social descendente após 1974.

Salazar acabou por ser o santo patrono de uma nova classe de empresários, mantendo o país com mão de obra muito barata e concedendo monopólios. Porque nem todos os empresários lhe agradeciam?

Champalimaud foi, de facto, uma exceção. No país do respeitinho, dizia e fazia o que pensava e queria. Não digo que não pretendesse muitas das regalias, como o protecionismo, de que gozavam os outros, mas era rebelde por natureza. De certa forma, aproxima--se mais dos tycoons americanos do que dos ricos portugueses. O que o fascinava era arriscar. Sei que é fácil simpatizar com ele, mas não nos podemos esquecer de uma sua outra faceta, a de bully.

Talvez um dos parágrafos mais humorísticos deste livro seja o dedicado à Coca-Cola e a sua proibição por Salazar...

É não só hilariante mas reveladora do que era o salazarismo. Melhor do que ninguém, Salazar, um "filho do campo", sabia que era mais fácil controlar os camponeses do que os homens que viviam na cidade. Era nestes que estava a pensar quando imaginou o horror que Portugal seria se os seus compatriotas começassem a beber Coca--Cola. Depois da Coca-Cola viria a minissaia, a pílula e sabe Deus que mais. O melhor era fechar o país à modernização. No fundo, Salazar era um pacóvio inteligente.

O mesmo se passa com a visão de Salazar em querer preservar o país "atrasado". Era aceitável esta filosofia num tempo em que a Europa mudava radicalmente?

Não. A sua visão do mundo rural era um mito que tentou impor através da escola. E que prejudicou profundamente o país. Divergiu, por exemplo, de Franco, que deixou que a Espanha se modernizasse na década de 1960.

Afirma que "para se enriquecer em Portugal nem sempre é preciso faro". Teria esta conclusão se não fosse a situação portuguesa atual?

Teria. Na maioria dos casos, hoje como ontem, o que conta não é a capacidade de se imaginarem empreendimentos inovadores, mas os contactos que se tem nos governos e nos partidos. O que, como estamos a verificar, leva à corrupção.

A sua descrição do encontro com Jorge de Mello é tão hilariante como assustadora. Porquê aquele receio em divulgar informação?

Eu sabia, ou julgava saber, que nos meios que ele frequentava eu era geralmente tida como uma comunista, uma esquerdista e uma loira desbocada. No que diz respeito à cor do meu cabelo, nada a objetar. Quanto ao resto, era um disparate.

O empresário Américo Amorim foi um dos muito ricos portugueses a beneficiar-se do 25 de Abril de 1974. Golpe de visão com pronúncia do Norte?

Sim, o ser do Norte ajudou, mas o mais importante foi o seu entusiasmo em expandir a empresa que herdara e, mais tarde, em se lançar em novos empreendimentos. Quem não arrisca não petisca. Ele arriscou e petiscou muito.

Inicia o seu encontro com Belmiro de Azevedo por referir que aconteceu num "dia de temporal". Não terá sido por acaso que inclui esta informação?

Lembro-me do temporal porque fui ao Norte numa companhia de aviação, creio que se chamava LAR. Eu, que nunca tive medo de voar, fiquei apavorada.

Na conclusão recorda a [revista] Olá Semanário como exemplo da abertura dos "ricos". A revista é uma boa fonte de investigação ou um snobismo?

É as duas coisas. Os ricos, mesmo os velhos ricos, que sempre tinham cultivado a reserva sob o Estado Novo, deram em ostentar a sua riqueza, o que me espantou. Notei então que algumas amigas minhas ficavam radiantes quando apareciam na Olá. A não ser quando lançava um livro jamais ali apareci, mas elas gostavam de exibir as suas famílias, as suas toilettes e as suas casas. As respostas que algumas destas "celebridades" davam nas curtas entrevistas publicadas eram não só estereotipadas mas de uma hipocrisia chocante.

Não deixa de referir as condições pessoais em que fez este livro, designadamente sobre o cancro. Como está a conviver com a doença?

Há dias e dias. Mas aos 75 anos, depois de uma vida levada como eu queria e tendo a meu lado pessoas que eu amo, a morte não me assusta. O que me irrita são as doenças parasitárias, que estão sempre a aparecer. E nem quero pensar no pesadelo que consistiu em ter de passar horas e horas deitada numa cama de hospital a receber transfusões. Felizmente que, como sou tagarela, acabei por ficar amiga de algumas das enfermeiras que me trataram e tratam. Agora, estou a experimentar um fármaco que parece estar a produzir efeitos. Tento não desanimar, para o que o trabalho é essencial.

"O dinheiro dá-me liberdade". Por isso escreve o que quer?

Em grande medida. Se fosse pobre, teria de dobrar mais vezes a espinha diante de um patrão. Como fiz carreira na universidade, nada nem ninguém me conseguiu calar. Surpreendentemente, tendo em conta o meu sexo e o meu temperamento, consegui chegar ao topo. Devo reconhecer que, em grande medida, isso se deve ao facto de o diretor do instituto onde trabalhei, o professor Sedas Nunes, ser um homem decente.

Alguma vez desejou pertencer aos "ricos"?

Não. Às vezes, até penso que se tivesse herdado dinheiro isso me teria feito mal, pois destruiria a minha capacidade de lutar.

Depois de Os Pobres e Os Ricos vai escrever Os Remediados?

Não, vou descansar por uns dias. Depois, logo se verá.

Os Ricos
Maria Filomena MónicaEditora
A Esfera dos Livros
294 páginas
PVP: 16 euros

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