Lu Nan fotografa os povos esquecidos

Durante quinze anos, o chinês Lu Nan fotografou aqueles que vivem à margem no seu país: os doentes mentais, os católicos, os camponeses do Tibete. Imagens estão expostas no Museu Berardo, em Lisboa.

Entre 1989 e 1990, Lu Nan viajou por dez províncias e grandes cidades da China, como Pequim, Sichuan ou Tianjin, com a sua pequena máquina fotográfica Nikon FM2. Visitou 38 hospitais psiquiátricos, contactou com 14 mil doentes e todo o pessoal médico, foi à procura de mais de cem famílias de pacientes e sem-abrigo, igualmente com problemas mentais. À série de fotografias que resultou dessa viagem, todas a preto e branco, chamou O Povo Esquecido. Nelas estão homens e mulheres que usam uniformes às riscas que nos fazem lembrar os prisioneiros de filmes antigos. Outros que se mostram completamente nus. Uns encolhidos num canto do seu quarto-cela. Outros que ficam de pé no meio de um pátio. Deitados em camas de ferro. Que olham o finito. Que tapam o rosto. Que enfrentam a câmara. Que nos enfrentam a nós, os que os tentamos esquecer.

Essas fotografias podem ser vista agora em Lisboa. O Museu Berardo inaugurou nesta semana Trilogia, exposição que reúne 144 fotografias das 225 que compõem o projeto do fotógrafo chinês e que se divide em três partes: depois de O Povo Esquecido: as Condições de Vida dos Doentes Psiquiátricos na China (1989-1990), Lu Nan fez Na Estrada: a Fé Católica na China (1992-1996) e, por fim, Quatro Estações: o Dia-a-Dia dos Camponeses Tibetanos (1996-2004).

Essa foi a trilogia que o ocupou ao longo de quinze anos. Depois de ter trabalhado durante cinco anos como fotojornalista para uma revista, Lu Nan decidiu em 1989 trabalhar sozinho nos seus projetos, com todos os riscos, inclusive financeiros, que isso acarretava. Em declarações através da intérprete Liu Zhen, o artista de 55 anos, nascido em Pequim, onde reside, explica que quis fazer algo que nunca ninguém tivesse feito, queria mostrar o que ninguém ainda tinha mostrado. Isso é válido para os esquecidos, os marginalizados, mas também para qualquer uma das outras partes da trilogia.

O curador da exposição de Lisboa, João Miguel Barros, olha para esta trilogia como uma viagem, um percurso - que foi feito por Lu Nan e que é feito também pelos visitantes da exposição -, e sublinha as semelhanças entre a trilogia e o percurso do livro de Dante Alighieri A Divina Comédia, que começa no Inferno (aqui na forma do imenso sofrimento de doentes e famílias, mostrando "a miséria humana"), passa ao Purgatório (a série sobre a vida de comunidades católicas em zonas isoladas, numa procura pela "redenção e salvação"), e finaliza com o Paraíso (na série que retrata a vida "harmoniosa, pacífica e transcendente" de camponeses no Tibete). Lu Nan admite que não tinha pensado nessa relação: "Fiquei muito surpreendido com as semelhanças entre esse livro e o meu trabalho. Só o li depois de terminar o meu projeto. E realmente têm algo em comum, com a diferença de que um foi criado através da palavra e o outro usa a imagem", diz.

Olhar as pessoas de perto

"A essência do trabalho de Lu Nan é a pessoa, e essa foi sempre a preocupação do artista" nesta trilogia, explica o curador. Isso "está, talvez, mais patente na primeira parte do projeto, sobre os doentes mentais, a quem chamou "as pessoas esquecidas". Isto não é um trabalho sobre instituições de saúde, é sobre as pessoas que lá estão e as suas famílias. Ele tentou dar uma cara a cada uma dessas pessoas que vivem em completa reclusão". Embora não estejam identificadas nas legendas, o seu nome é referido no catálogo da exposição. Para o fotógrafo é importante que não as vejamos apenas como doentes mas como indivíduos, cada um com uma história.

Apesar de poderem ser chocantes, estas imagens não nos são estranhas. Infelizmente, "muitas destas imagens não são características só da China, poderiam ser de outros hospitais psiquiátricos noutras partes do mundo", ressalva João Miguel Barros.

Depois deste projeto, o fotógrafo voltou à estrada, novamente privilegiando o contacto com as comunidades rurais. Lu Nan visitou mais de cem igrejas, mas na seleção final de fotografias apenas uma igreja é mostrada. Preferiu mostrar como em muitas dessas zonas, onde passou cinco anos, "não existiam espaços de culto, e as pessoas para exercerem a sua fé tinham de usar os espaços públicos ou as suas casas, com alguma reserva ou secretismo". Trata-se ainda da herança da Revolução Cultural iniciada por Mao, que tentou suprimir todas as religiões organizadas e impedir a prática dos cultos. A história dos católicos na China, nas últimas décadas, é uma história de resistência. E é isso que se mostra nestas imagens.

Por outro lado, ao fotógrafo interessava-lhe mostrar como a religião também, e acima de tudo, se vive fora das igrejas. Capta a forma como o amor e a fé se concretizam na vida quotidiana dos crentes e nas relações familiares.

João Miguel Barros chama a atenção para o facto de, mais uma vez, ser visível a proximidade entre o fotógrafo e as pessoas fotografadas. "Deixaram-no estar presente e fotografar os momentos mais íntimos, até o encontro com a morte", sublinha. "Isso só foi possível porque ele de facto passou muito tempo com aquelas pessoas e estabeleceu uma cumplicidade."

A este projeto Lu Nan chamou Na Estrada porque "para as pessoas que têm fé, a vida na terra é apenas uma passagem, uma viagem que termina noutro sítio, no além".

A trilogia completa-se com o retrato da vida quotidiana de camponeses no Tibete, com quem Lu Nan passou quase sete anos, retratando "as relações muito harmoniosas entre as famílias, as várias gerações e como se relacionam com o meio ambiente e a natureza", explica o curador.

As fotografias acompanham o ciclo das quatro estações e as atividades agrícolas que marcam o ritmo de vida da população. Nos retratos surgem crianças, homens e mulheres de todas as idades, avós abraçadas a netas, imagens tranquilas de camponeses com animais ou a tratar dos seus afazeres quotidianos. Há uma felicidade naquelas imagens que quase nos faz esquecer o horror das primeiras fotografias da exposição.

Sobre a lição que tira destes 15 anos a viver próximo de comunidades muito diferentes, Lu Nan conclui que "a felicidade não é ser rico ou pobre, mas ter paz no coração, viver em harmonia consigo próprio, com as outras pessoas, e a natureza".

Já para o curador João Miguel Barros, a exposição "não se explica": "Só é possível apreender o verdadeiro sentido, a riqueza, a emoção que cada fotografia contém vendo estas imagens."

Pobre mas feliz

Depois de fazer o primeiro projeto sobre os doentes mentais, o trabalho de Lu Nan ganhou alguma projeção internacional e o fotógrafo tornou-se correspondente da conhecida agência internacional Magnum Photos, o que lhe permitiu ter financiamento para continuar o seu trabalho.

A obra de Lu Nan tem sido exposta na China, no Japão, em Espanha, nos Estados Unidos, e em França, em mostras individuais e coletivas. Em 2012 participou na mostra Photo Espanha, em Madrid, e nos últimos anos no Centro Hive para a Arte Contemporânea, em Pequim, e no Centro de Fotografia de Xangai, na China.

Apesar deste reconhecimento, o fotógrafo continua a sua vida de dedicação ao trabalho, quase como um eremita: "Não casei, não tenho filhos nem família. O trabalho é a minha vida. Ou estou a fotografar, ou estou a preparar o projeto seguinte", conta. Trabalha sempre sozinho, sem qualquer assistente, quer quando anda em viagem quer depois no laboratório, onde imprime ele mesmo todas as fotografias, com um grande perfeccionismo. Repare-se: as "cópias" que estão expostas no Museu Berardo são, afinal, "originais", impressas pelo próprio fotógrafo.

Para realizar estes projetos, Lu Nan desaparece durante meses, integrando-se nas comunidades que quer fotografar. Usando parte do financiamento para comprar comida, medicamentos e outros bens para as pessoas que precisavam e com quem acabou por criar ligações. Lu Nan não acredita em deus mas é, admite, uma pessoa espiritual. "Sou feliz e tenho muita sorte. Mesmo sendo pobre. Às vezes acontece-me não ter dinheiro, mas sempre acontece alguma coisa e tudo se resolve. Nunca precisei de mais dinheiro do que aquele que tenho."

Depois desta trilogia, Lu Nan esteve a fotografar a vida no interior das prisões na Birmânia, tendo vivido durante quatro meses, de junho a setembro de 2006, na prisão de Yang Long Zhai. Dessa série fazem parte imagens igualmente impactantes da falta de condições nas instalações presidiárias, de prisioneiros a injetarem-se com heroína ou de crianças que vivem dentro das prisões com as mães.

Neste momento, o fotógrafo prepara a sua próxima trilogia que vai lançar um olhar sobre a vida nas cidades na China. "Sobre o corpo, a intimidade, a sexualidade", diz. O fotógrafo recusa, no entanto, que o seu trabalho tenha alguma motivação de crítica social ou uma mensagem política: "As minhas fotografias só abordam as pessoas. Há um amor muito grande por elas e pela humanidade nas suas vidas", diz Lu Nan. "O meu trabalho não tem crítica nem raiva." Tem apenas um amor e um respeito enorme pelas pessoas. Por todas as pessoas.

Trilogia, de Lu Nan

Museu Berardo
Centro Cultural de Belém, Lisboa
Até 14 de janeiro de 2018
Entrada para o museu: 5 euros

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