Lister, o artista que dá uma bailarina a Lisboa

É um dos mais conceituados nomes da arte urbana a nível mundial e inaugurou ontem uma exposição em resultado de duas semanas de vivência em Portugal. Hoje, o australiano sai para a rua e vai pintar uma bailarina, uma figura recorrente na sua obra

Estão mais de 30 graus na rua e dentro da galeria Underdogs, no bairro lisboeta de Marvila, não está muito mais agradável. A minutos de Slither between the blinds shows our fears abrir portas, Anthony Lister dá um retoque numa escultura feita nos últimos dois dias. Um lampejo artístico de última hora: a peça nem está na folha de sala. "Uma aranha! Dá boa sorte", diz enquanto pega com cuidado no pequeno aracnídeo. Lister não permite que se fotografe enquanto trabalha. "Prefiro que alguma da minha magia se mantenha. É quase como um pai que prepara um presente de Natal. Não queremos dizer à criança que o Pai Natal não existe até ter a idade suficiente", justifica. Mas é como diz, só algum do trabalho é que fica para si. Hoje mesmo, Anthony Lister, de 37 anos, vai deixar a sua marca na capital portuguesa e, durante a realização artística a ter lugar à tarde junto da Avenida de Ceuta, não se importa de ter público a assistir. A propósito, que vai sair da mente do criador e passar a ser a mais recente peça de arte urbana? "Vou fazer uma bailarina. Uma stripper é também uma pessoa e a nudez é uma coisa bonita. E a minha maneira de representar a nudez é com bailarinas porque dialogo sobre a forma como julgamos as coisas. A única diferença entre uma bailarina e uma stripper é o facto de a bailarina não tirar a roupa."

O australiano de Brisbane passou as últimas duas semanas em Portugal, tendo criado 16 peças. Estas juntam-se às quatro telas com mais de três metros de altura e de largura, que vieram com o artista. A ideia que preside ao trabalho aqui mostrado parte de uma mentira que o pai de Lister lhe contou quando este era uma criança. Na verdade, o artista cotado como um dos melhores do mundo na arte urbana, tem sangue inglês e escocês, mas o progenitor contava-lhe que tinha um tio aborígene. "Fiquei profundamente ofendido, sem dúvida." Anthony Lister, que tem três filhos (com 15, 14 e seis anos), explica: "As crianças não têm escolha para determinar o que é verdade e o que é mentira e através da sua inocência são forçadas a acreditar no que lhe inculcam. Por outro lado o meu pai dizia muitas tretas, mas esta era uma em que eu queria acreditar e deixou-me especialmente triste. Até agora morria de vergonha por ter acreditado nisto. Quando eu contava a história do tio aos meus amigos eles riam-se de mim por acreditar no meu pai." Este conjunto de obras é, portanto, uma reflexão sobre "identidade, cultura, mitologia, herança, parentalidade e estereótipos".

Em defesa dos aborígenes

À entrada da galeria deparamo-nos com o Grand Didjeridon't, feito de contraplacado, argila e acrílico. Não saem notas musicais deste piano, o quarto que fez na vida, mas uma afirmação, com fino recorte de humor. "Para esta exposição fiz um piano, um instrumento clássico europeu, e pintei-o como um instrumento aborígene, um didjeridoo. Chamo aqui a atenção para a questão do lowbrow e das belas-artes. Estou muito interessado em desestabilizar as formas de perceção artística e em igualizar tudo."

A homenagem aos aborígenes não é fortuita, e não é só em reação à historieta do pai. "As terras aborígenes estão a ser roubadas aos aborígenes, tal como os colonizadores britânicos o fizeram há 250 anos. É perturbador vermos tanto racismo. Eu sou a favor de devolver tudo aos aborígenes, sou um forte defensor dos seus direitos", afirma.

Sobre o humor que atravessa estas obras - a começar pelos títulos das obras -, faz questão de começar por explicar que leva a sua arte "muito a sério". E depois sustenta: "A utilização do humor é uma faca de dois gumes. Tento usar o humor de forma inteligente e dar aos meus espetadores a informação suficiente. O humor é uma forma que tenho para sobreviver porque, na realidade, como lutador pela liberdade, e lutador pela liberdade do discurso visual, como revolucionário, já estaria executado há muitos anos. A única maneira de sobreviver é ser pintor ou palhaço."

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