Kodály: Ensinar música às crianças e evitar um novo Kim il-sung

Quando partiu para a Hungria, Cristina Brito da Cruz não podia imaginar que, mais de trinta anos depois, receberia a Cruz de Mérito de Ouro do Estado húngaro pelo seu trabalho de décadas a dar voz a um método que quer levar a música a todas as crianças, através do canto da música erudita e tradicional

Cristina Brito da Cruz começou a dar aulas de formação musical tão nova que eram os pais os responsáveis pelo seu ordenado. Tinha 17 anos. Dez anos depois e já professora na Academia de Amadores de Música, instituição dirigida por Fernando Lopes-Graça - a quem o Estado Novo não permitia que desse aulas pelas suas ligações ao Partido Comunista - Cristina foi incentivada pelo compositor a aproveitar uma bolsa e ir para o Instituto Kodály, na cidade húngara de Kecskemét, que ele visitara na sua inauguração, em 1975.

Era e é ainda hoje a base do método de ensino da música criado pelo compositor e pedagogo húngaro Zoltán Kodály (1882-1967), o responsável por todas as crianças húngaras aprenderem música na escola desde o infantário até ao fim do liceu (antes da entrada do país na União Europeia em 2004, as aulas de música eram diárias em mais de uma centena de escolas). E fazem-no ainda hoje através do canto do cancioneiro de música erudita e música tradicional do seu país. Essa que Kodály recolheu com o seu amigo próximo, e também compositor, Béla Bartók, que Lopes-Graça admirava tanto que, no dia em que se cruzou com ele, em Paris, foi incapaz de lhe falar, envergonhado que estava.

Estávamos em 1986 e a professora seguiria para a Hungria, a par de Rosa Maria Torres, sem fazer ideia de que, mais de trinta anos depois, aquela viagem e aquele nome, Kodály, que os húngaros pronunciam sem o "l", fariam que ela estivesse, em 2017, a receber a Cruz de Mérito de Ouro do Estado húngaro numa pequena sala da embaixada da Hungria em Portugal, rodeada de amigos, alunos, colegas da Escola Superior de Música de Lisboa (ESML), da embaixadora húngara Klára Breuer, ou de László Nemes, diretor do Instituto Kodály da Academia Liszt (Universidade de Budapeste). Celebrava-se ainda uma outra coisa: a criação do Centro Kodály de Portugal, de que Cristina foi nomeada diretora.

A professora sentar-se-ia depois na sala ao lado, a escutar, de cabeça baixa, oito alunos seus a cantar, em coro, obras de Eurico Carrapatoso e Fernando Lopes-Graça, como Sombras e Acordai, respetivamente, ambas baseadas em melodias tradicionais portuguesas. E, claro, obras de Kodály; entre elas, Esti Dal. Há um vídeo no YouTube que mostra uma flash mob em Budapeste, organizada pelo festival Ars Sacra, onde, aos poucos, as pessoas se vão juntando numa praça a cantar essa mesma música. Quem não canta, parece turista. Crianças, os seus pais, jovens, homens e mulheres velhos, de caras já enrugadas, todos cantam juntos como um coro de escola que atravessasse décadas; na canção pedem a Deus que lhes dê uma boa noite, e um anjo para os guardar.

Música para todos

"Mudou imenso a minha visão da acessibilidade, de não precisarmos de um piano e de toda a gente poder cantar, de a educação musical ser para todos, e não para uma elite. O que me fez gostar imenso do sistema da Hungria foram frases como a de Kodály, em que ele diz que "só os melhores professores e só a melhor música deve ser dada às crianças"." Num pátio interior do Museu de Etnologia, em Lisboa, onde Cristina e László davam uma formação sobre o método húngaro, a professora fala do recém-criado centro que dirige. "Eu dou aulas há 40 anos e não vou durar para sempre. Daqui a 10 anos ou menos estou reformada, e quis ter uma instituição ligada a outra de prestígio, que é a Associação Portuguesa de Educação Musical. O centro só pode ser dirigido por alguém que tenha estudado no instituto [Kodály]. A seguir a mim, virá uma pessoa que acredita nos mesmos princípios: que a música é para todos e todos deviam ter aulas de música ou vivências musicais, [que] cantar é a maneira mais fácil de lá chegar e a mais barata. Mas não é só por ser mais barata: é porque ninguém devia tocar um instrumento sem primeiro conhecer o seu corpo e a sua voz."

Antes do começo da cerimónia na embaixada, no passado dia 13, a professora de harpa húngara Beatrix Schmidt contava, em português, que, quando chegou ao final da escola, teve um exame de canções tradicionais. "Tivemos de saber cem de cor. É engraçado." "Engraçado...", sorri Filipe Cerqueira, que fez Erasmus na Academia Liszt e conta que, assim que chegou à primeira aula, pensou: "Este sítio é especial." Agora professor, conta que durante um ano, no Conservatório de Felgueiras, onde ensina, só usou peças de Lopes-Graça, tão fortemente ligado quer à música tradicional portuguesa quer ao método húngaro, reconhecido no ano passado pela UNESCO entre as melhores práticas de salvaguarda do património imaterial.

Também todos os alunos do octeto Vozes Kodály que cantou naquele final de dia fizeram Erasmus no Instituto Kodály. Marcos Cerejo, que além de cantar dirigia o coro, conta que lhe vem à memória " as turmas das crianças da Hungria. Conseguiam cantar sem uma partitura, muito afinadas, e acima de tudo com muito gosto." No instituto onde estudou, e viveu, pois os alunos vivem por cima das salas onde têm aulas, conta que havia gente de diferentes idades e sítios: "Cheguei a ter no meu ano uma freira irlandesa com 50 e tal anos."

Cristina Brito da Cruz, professora na ESML, diz que já 40 alunos seus, "futuros professores de formação musical, de iniciação musical, e de coro", passaram pelo instituto. "E isto começou em 2010, o meu curso tem um número de oito alunos por ano, e tenho uma média de cinco a ir em Erasmus." A última formação que Cristina deu decorreu em Cabo Verde, com 75 pessoas. Tantas que a professora teve de as dividir por três grupos e trabalhar cerca de nove horas por dia. Usa as músicas tradicionais de cada lugar onde está. Defendendo a universalidade de cada indivíduo, dizia Kodály: "Mas que antes nos conheçamos a nós mesmos, para que não nos percamos no labirinto do mundo."

Para que não se repita a guerra

"Se quiser, tudo o que seja levar a música às crianças e tê-las envolvidas a fazer musica, pode ser Kodály. Mas também é Orff, Dalcroze, Willems [compositores e pedagogos]. Na maior parte das pedagogias os princípios são muito parecidos, depois há uma ou duas técnicas que variam, mas o que estas pessoas querem é que todas as crianças sejam tocadas pela música, e de uma forma que também desenvolvam capacidades individuais e sociais. É curioso porque a primeira tranche de pedagogos é quase da mesma idade. Têm as ideias do seu tempo. O que esta geração que sobreviveu às duas guerras queria era paz. Os escritos do Kodály e do Bártok falam imenso da fraternidade entre os povos", defende Cristina Brito da Cruz. E reforça: "Para acabar com estes ciclos de líderes da Coreia do Norte, ou dos Estados Unidos, ou de pessoas desvairadas que usam uma metralhadora e matam dezenas de pessoas. Acho que não aprenderam a gostar dos outros, e a ter um objetivo comum."

Qualquer voz pode cantar

Enquanto conversávamos, László Nemes dava a sua aula, pondo uma turma maioritariamente composta por professores - também lá estavam duas jovens professoras que haviam cantado na embaixada, as sopranos Sofia Vieira e Sofia Amorim -, a cantar, a fazer jogos com as mãos, a andar em roda. No fundo, a fazer em jogo uma tradução física da música. Parte da aula estava a ser filmada por uma equipa húngara que está a fazer um documentário acerca da presença do método no mundo: da Hungria aos Estados Unidos, ao Japão, Inglaterra ou China.

Kristine Gonçalves, uma das 40 pessoas a frequentarem a formação, é uma estónia que vive há 19 anos em Portugal e que ensina formação musical no Conservatório de Évora. Conta que usa As Canções Tradicionais Portuguesas no Ensino da Música, livro de Rosa Maria Torres, a também professora que nos anos 1980 foi com Cristina para a Hungria, e dali "usa canções tradicionais para aprendizagem da leitura musical".

Antes da aula de László, era Cristina quem conduzia a turma através de jogos e canções tradicionais portuguesas. Foi nessa altura que encontrámos o diretor do Instituto Kodály da Academia Liszt. Ele próprio uma criança de Kodály, uma vez que foi educado no método, conta que ainda neste verão teve uma reunião de turma de liceu. "Só eu me tornei profissional, mas quando estamos juntos começamos a cantar músicas que cantávamos no liceu. Músicas tradicionais, músicas do século XVI, música coral de Bach, afro-americana. Também introduzimos os alunos a diferentes culturas." E é significativo que se cantasse Bach, música erudita associada à religião, uma vez que o método Kodály conviveu durante anos com a ocupação soviética da Hungria. O compositor de Esti Dal fez finca-pé em muitas coisas. Entre elas, contara a embaixadora Klára Breuer, o hino nacional. "Ele é icónico para nós. Foi ele quem salvou o hino húngaro." E fê-lo afirmando perante os líderes soviéticos: "É suficientemente bom para nós."

László faz saber que, atualmente na Hungria, além dos concursos de talentos televisivos com música pop, existem ainda, no mesmo formato do "Britain"s Got Talent ou American Idol, concursos de música clássica e de música tradicional". E acredita que não há criança alguma que não possa cantar. "A capacidade de cantar é inerente a todos. Nunca conheci uma criança que não pudéssemos desenvolver até um certo grau." Não há, portanto, desculpas.

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