José Eduardo Franco: "Temos mecenas para a música pimba mas ignoramos o Marquês de Pombal"

Após o sucesso inesperado da Obra Completa do Padre António Vieira, o historiador José Eduardo Franco quer revelar em 32 volumes a produção - quase ignorada - do Marquês de Pombal. Só que faltam os mecenas!

A obra de Pombal está enterrada em mais de cem arquivos e bibliotecas de todo o mundo e o historiador José Eduardo Franco tenta há uma dúzia de anos revelá-la. Ainda não o conseguiu, apesar de ter batido à porta de mais de duas centenas de mecenas portugueses para obter a verba suficiente para montar um equipa de três dezenas de investigadores de várias áreas e países e fazer o levantamento de toda a produção intelectual do primeiro-ministro de D. José dispersa por várias bibliotecas mundiais, realizar o tratamento científico e publicá-la em 32 volumes - 50 mil páginas - como conseguiu fazer com a Obra Completa do Padre António Vieira e agora nas Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, ambos em 30 tomos.

Porquê esta dificuldade em obter um financiamento para a edição da Obra Completa do marquês de Pombal, tão desconhecida? Como o próprio diz, num tom que mistura o desespero científico e alguma descontração após tantas recusas, "enquanto for mais fácil em Portugal arranjar mecenas para financiar a música pimba do que para investigar o marquês de Pombal somos subdesenvolvidos". Eduardo Franco sabe que a área de investigação é a mais difícil para arranjar apoios: "Não é tão mediático como financiar um espetáculo e exige um trabalho de pesquisa muito longo que não apresenta resultados imediatos. Ando nesta luta com Pombal desde 2005 e em todas as empresas a que fui os gestores acham muito importante e confessam estar espantados com a dimensão da obra e do projeto, mas quando chega a hora de falar de dinheiro não é uma prioridade." A afirmação do historiador de que "temos mecenas para a música pimba mas ignoramos o marquês de Pombal" é trágica para o próprio Estado português. Principalmente após o sucesso em que se tornou a aventura da publicação da Obra Completa do Padre António Vieira, que se manteve por editar durante mais de dois séculos, tendo sido só possível após o financiamento de 500 mil euros da Santa Casa da Misericórdia. Um projeto a que os leitores portugueses aderiram bastante bem, pois foram vendidas mais de dez mil coleções de 30 volumes cada, superando mais de meio milhão de exemplares vendidos no país, além de muitas dezenas de milhares no Brasil e para bibliotecas de várias instituições internacionais.

Tanto mais trágica é esta realidade porque, explica o historiador, a "projeção da nossa cultura a nível internacional passa por publicações deste género, sendo fácil inverter no plano cultural a situação que vivemos: importamos mais do que exportamos na cultura". Uma situação em que o próprio Estado deveria ser rápido numa resposta que iria possibilitar esta iniciativa de resgate de um património em grande parte desconhecido, mas que até ao momento mais não fez do que a concessão do estatuto de mecenato pelo Ministério da Cultura, que proporciona benefícios fiscais para quem faz as doações.

Até ao momento, a única exceção nesta constante recusa de mecenato pelos empresários e fortunas portuguesas é o da Fundação Millennium BCP, cujo presidente já garantiu o financiamento de 10% do custo total desta Obra Completa. Fernando Nogueira é, aliás, um dos grandes apoiantes da iniciativa, como confirmou ao DN, pela "relevância" e "urgência" em pôr de pé uma iniciativa tão importante para a nossa historiografia.

Fora desse único apoio importante e do interesse da Fundação Marquês de Pombal, José Eduardo Franco refere que existe "apenas um pequeno número de instituições que manifestaram disponibilidade para entrar num consórcio de mecenas que assuma publicamente o custo total". Diz também que a "esmagadora maioria de potenciais mecenas consideram que o Estado deveria ser o primeiro a apoiar o projeto".

Não são apenas os mecenas a lamentar a ausência do apoio do Estado português ao projeto, pois, recorda Eduardo Franco, o "prestigiado historiador britânico Kenneth Maxwell, um dos mais importantes estudiosos de temas sobre o marquês de Pombal, já fez esse aviso público de ser uma obrigação do Estado português publicar todos os seus escritos". Para o historiador, esta opinião de um estrangeiro não é de desprezar, até porque Maxwell é autor da "biografia mais equilibrada sobre Pombal, O Paradoxo do Iluminismo".

"Goste-se ou não de Pombal, é uma figura grande e por isso mesmo uma personalidade em que as contradições são maiores", conclui Eduardo Franco, que considera que tudo o que se escreve sobre Pombal "não é original mas requentado, porque sem as fontes não se pode inovar". Refere também que para existir uma "renovação historiográfica do século XVIII é necessário fazer o trabalho de casa da cultura portuguesa" e que "existe muito em Pombal para resgatar porque em todos os renascimentos houve um regresso às fontes e, no caso português, é imensa a quantidade indisponível".

O historiador garante que a quase totalidade dos portugueses, mesmo os especialistas, desconhecem o que é o espólio do marquês de Pombal: "Tomei conhecimento desta importância quando fiz a minha tese sobre Pombal e os Jesuítas, ao percorrer os arquivos durante sete anos. Foi assim que ganhei consciência da dimensão dos seus escritos. Nem os grandes professores catedráticos sabem aquilo que é de sua autoria. Quem o estudou fê-lo de forma específica e nunca em geral."

Cinco anos no pó dos arquivos

Editar a Obra Completa é um trabalho que precisa de cinco anos exaustivos por parte de uma equipa coesa, composta por vinte investigadores a tempo inteiro e custará um milhão de euros. São dezenas de arquivos em todo o mundo onde existem fontes que exigem especialistas universitários de várias gerações e países: Alemanha, Brasil, Estados Unidos, França, Polónia e Portugal; e de áreas de trabalho: paleógrafos, latinistas, tradutores, entre outros, para cobrir as áreas de matemática, história, teologia, ciências económicas, literatura, linguística, latim, engenharia, arquitetura e educação.

"Pombal tocou em todas as áreas e era muito trabalhador. Vinha bem preparado da Universidade de Coimbra e muito empenhado no trabalho intelectual para fundamentar a sua governação em todas as áreas, exceto as biomédicas, e tinha a preocupação de deixar tudo escrito para memória futura e poder ser apreciado pelos que viessem depois", resume José Eduardo Franco, para explicar a abrangência desta iniciativa editorial. Acrescenta: "Se na Obra Completa de Vieira já existia uma grande parte do trabalho feito, em Pombal está tudo por fazer. No fim, ficar-se-á a saber quem foi a figura que mudou a face de Portugal - o que é hoje deve-se a ele - e também a Europa. Pombal montou um projeto para a renovação de Portugal e pôde fazê-lo a este nível porque era primeiro-ministro de um rei absolutista e convicto de que, como o cardeal Richelieu, a transformação dos países necessitava das medidas mais certas e daí tanto estudo."

Quanto à equipa universitária para dar corpo à Obra Completa do Marquês de Pombal, o historiador explica que ela já existe: "Desde 2005 que a tenho estado a montar. Entretanto, sem Pombal, ocupou-se com as Obra Completa de Vieira e em seguida as Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, outro conjunto de 30 volumes que está a ser publicado atualmente e que são da maior importância por serem as primeiras obras produzidas em português nos diversos domínios do saber e do conhecimento, em áreas como a medicina, geografia, botânica, pedagogia, entre outras."

Para o historiador, uma equipa de investigadores como a que fez a edição do Padre António Vieira não pode viver da "carolice" de cada um: "É preciso um financiamento ou ninguém trabalha a tempo inteiro e com a dedicação extrema necessária para algo desta importância. A equipa está constituída e até já houve especialistas em Pombal que morreram entretanto."

32 volumes com inéditos

A minuta do projeto a que o DN teve acesso enumera as razões da importância que a publicação das Obra Completa do Marquês de Pombal tem: "Sebastião José de Carvalho e Melo legou à posteridade uma vasta obra por ele escrita ou diretamente inspirada. Constituída por manuscritos inéditos e impressos, encontra-se dispersa e mal conhecida, merece uma edição global devidamente enquadrada e criticamente anotada. A preparação da edição da Obra Completa de uma das maiores figuras políticas de Portugal e da Europa das luzes será certamente um marco cultural de relevo e abre caminho para o conhecimento aprofundado da vida, do pensamento e da ação deste político controverso."

Para o responsável do projeto, a inexistência da Obra Completa "constitui uma tripla falha cultural: grave lacuna no campo da investigação sobre as coordenadas culturais do século XVIII português; impede o estudo da mentalidade iluminista nacional e o levantamento da conjuntura da formação do Estado contemporâneo nacional".

A carência da compilação da totalidade da obra, considera, "contribuiu fortemente para a consolidação no imaginário histórico português do mito do marquês de Pombal que a abundante bibliografia passiva caracteriza positiva e negativamente". Seria assim "esvaziado o mito" e conhecido "o plano historiograficamente real" no quadro dos 27 anos do seu consulado governativo e "resgatada uma verdadeira omissão histórico-cultural da historiografia portuguesa".

Entre os vários objetivos do projeto está o de "promover a renovação dos estudos pombalinos envolvendo na preparação um grupo intergeracional, interuniversitário, interdisciplinar e internacional de investigadores, em que jovens investigadores integram equipas coordenadas por investigadores academicamente reconhecidos, proporcionando uma experiência profissional na área da investigação e permitindo-lhes realizar formação pós-graduada".

Está prevista a seguinte distribuição em volumes da Obra Completa do Marquês de Pombal: 7 para a obra historiográfica; 2 para a política; 2 para a apologética; 3 para a pedagógica; 5 para a jurídico-legal; 1 para os escritos económicos; 3 para os escritos administrativos; 5 para a correspondência (oficial e particular); 2 para os escritos de teor artístico e urbanístico, e 2 para dispersos. Cada volume será sempre constituído por um estudo introdutório e textos criticamente anotados.

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