João Soares tem substituto para o presidente do CCB

Ministro da Cultura considera "um disparate total" o Eixo Belém/Ajuda que era liderado por António Lamas até à sua extinção no último Conselho de Ministros

O ministro da Cultura, João Soares, já tem em carteira substitutos para o cargo de presidente do Centro Cultural de Belém (CCB) e a decisão sobre a eventual saída de António Lamas não deverá tardar muito. No último Conselho de Ministros, o Governo decidiu extinguir a Estrutura de Missão - apelidada de Eixo Belém/Ajuda - criada em junho do ano passado e encarregada da elaboração do Plano Estratégico Cultural da Área de Belém.

"Se me perguntar se tenho pessoas capazes para substituir o presidente do CCB, tenho", disse João Soares ao Expresso, que escreve ainda que o ministro da Cultura considera o plano estratégico "um disparate total". Fonte do Ministério da Cultura disse ao semanário que Lamas "não tomou qualquer medida. Não colocou o cargo à disposição. Nada", acrescentando que João Soares "tomará a sua decisão depois de formar o seu juízo".

Contactado pelo DN o atual presidente do CCB não comenta a notícia.

A criação da Estrutura de Missão, liderada por António Lamas, tinha sido criada pelo Governo de Pedro Passos Coelho para criar um plano estratégico naquela zona de Lisboa. No entanto, o executivo de António Costa justificou a extinção "pelo não envolvimento no projeto da Câmara Municipal de Lisboa, que deve ser um parceiro privilegiado em qualquer modelo de gestão de uma parte importante da cidade de Lisboa".

O Eixo Belém/Ajuda integrava o Museu dos Coches, a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos e o Palácio da Ajuda, e inclui ainda o Museu Nacional de Arqueologia, o Museu de Marinha, o Museu da Presidência da República, a Capela de São Jerónimo, o Museu de Arte Popular e o Museu Nacional de Etnologia.

Com Lusa

Exclusivos

Premium

Primeiro-secretário da Área Metropolitana de Lisboa

Carlos Humberto: "Era preciso uma medida disruptiva que trouxesse mais gente ao transporte coletivo"

O novo passe Navegante abriu aos cidadãos da Área Metropolitana de Lisboa a porta de todos os transportes públicos, revolucionando o sistema de utilização dos mesmos. A medida é aplaudida por todos, mas os operadores não estavam preparados para a revolução e agudizaram-se problemas antigos: sobrelotação, tempos de espera, supressão de serviços, degradação de equipamentos.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Berlim, junto aos Himalaias

Há 30 anos exatos, Berlim deixou de ser uma ilha. Vou hoje contar uma história pessoal desse tempo muralhado e insular, num dos mais estimulantes períodos da minha vida. A primeira cena decorre em dezembro de 1972, no Sanatório das Penhas da Saúde, já em decadência. Com 15 anos acabados de fazer, integro um grupo de jovens que vão treinar na neve abundante da serra da Estrela o que aprenderam na teoria sobre escalada na neve e no gelo. A narrativa de um alpinista alemão, dos anos 1920 e 1930, sobre a dureza das altas montanhas, que tirou a vida a muitos dos seus companheiros, causou-me uma forte impressão. A segunda cena decorre em abril de 1988, nos primeiros dias da minha estada em Berlim, no árduo processo de elaboração de uma tese de doutoramento sobre Kant. Tenho o acesso às bibliotecas da Universidade Livre e um quarto alugado numa zona central, na Motzstrasse. Uma rua parcialmente poupada pela Segunda Guerra Mundial, e onde foram filmadas em 1931 algumas das cenas do filme Emílio e os Detectives, baseado no livro de Erich Kästner (1899-1974).Quase ao lado da "minha" casa, viveu Rudolf Steiner (1861-1925), fundador da antroposofia. Foi o meu amigo, filósofo e ecologista, Frieder Otto Wolf, quem me recomendou à família que me acolhe. A concentração no estudo obriga a levantar-me cedo e a voltar tarde a casa. Contudo, no primeiro fim de semana almoço com os meus anfitriões. Os dois adolescentes da família, o Boris e o Philipp, perguntam-me sobre Portugal. Falo no mar, nas praias, e nas montanhas. Arrábida, Sintra, Estrela... O Philipp, distraidamente, diz-me que o seu avô também gostava de montanhas. Cinco minutos depois, chego à conclusão de que estou na casa da filha e dos netos de Paul Bauer (1896-1990), o autor dos textos que me impressionaram em 1972. Eles ficam surpreendidos por eu saber da sua existência. E eu admirado por ele ainda se encontrar vivo. Paul Bauer foi, provavelmente, o maior alpinista alemão de todos os tempos, e um dos pioneiros das grandes montanhas dos Himalaias acima dos 8000 metros. Contudo, não teria êxito em nenhuma das duas grandes montanhas a que almejou. As expedições que chefiou, em 1929 e 1931, ao pico de 8568 metros do Kanchenjunga (hoje, na fronteira entre a Índia e o Nepal) terminaram em perdas humanas. Do mesmo modo, o Nanga Parbat, com os seus 8112 m, seria objeto de várias expedições germânicas marcadas pela tragédia. Dez mortos na expedição chefiada por Willy Merkl, em 1934, e 16 mortos numa avalancha, na primeira expedição comandada por Paul Bauer a essa montanha paquistanesa em 1937. A valentia dos alpinistas alemães não poderia substituir a tecnologia de apoio à escalada que só os anos 50 trariam. Bauer simboliza, à sua maneira, esse culto germânico da vontade, que tanto pode ser admirável, como já foi terrível para a Alemanha, a Europa e o mundo. Este meu longo encontro e convívio com a família de Paul Bauer, roça o inverosímil. Mas a realidade gosta de troçar do cálculo das probabilidades.