João de Melo e as confusões na Feira do Livro de Lisboa

O escritor

As confusões, os arrevesados caprichos (de pessoas que entendem ditar-me o que devo escrever nas dedicatórias), os encontros inesperados, o descaramento dos poucos que parecem apropriar-se do escritor, sonegando-o em diálogos confessionais, e não o partilhar com mais ninguém. Feira é feira, e tudo fica dito. Vão-se os anos, e a feira do livro cerca-nos de pequenas e difusas memórias. Há segredos de leitores que nos são confiados sob palavra de honra, e por isso não posso confiá-los a quem eles não pertencem. O escritor sentado é um homem à mão de semear; os leitores que por ele passam poderiam ser tipificados segundo alguns critérios de observação. Por exemplo, o facto de as senhoras lerem muito mais do que os homens: vê-se tanto na feira como um pouco por toda a parte. Tenho nisso alguma sorte: venho contando com a sensibilidade e a inteligência de muitas leitoras (e não me importo nada de ser "feminino" nessa medida!).

Falava de confusões. Não é raro ver os livros do angolano João Melo no meio dos meus, e os meus no meio dos dele. Quando tal acontece, chamo a atenção de editores e livreiros para as fotos das badanas: além de não sermos literalmente homónimos, vejam que ele é negro, gordo, de óculos, e mais ou menos bigodudo; e eu, branco, de olhos azuis e dentes tortos. Mais do que um pobre "de" entre nome e apelido, é a imagem imediata que nos distingue!

Mas outra, bem mais séria, confusão acontecia, não há muitos anos, entre mim e o escritor João Aguiar. Garantiam os maus fisionomistas que éramos parecidos. Vai daí, vinham leitores com os livros dele para que eu os autografasse. Eu quase protestava dizendo que não: além de ele ser Aguiar e eu de Melo, o João era seis anos mais velho do que eu, usava óculos e não tinha os dentes tortos! Se outros motivos de natureza literária não existissem, que nos valessem ao menos essa diferença de idade, os óculos e o sorriso! Numa ocasião, estando nós os dois na feira, cada um na sua editora, João Aguiar chegou-se a mim e revelou-me que o inverso também acontecia com ele: não poucos leitores distraídos iam dar-lhe livros meus a assinar. E ele assinava-os!, assegurou-me, com uma das suas gargalhadas. De modo que logo ali ficou acordado entre nós o seguinte: que passaríamos a autografar os livros de um e do outro, indistintamente. Aconteceu pouco, segundo creio, mas foi real. Porém, não muito tempo depois, João Aguiar adoeceu com gravidade e veio a falecer. Acabaram-se desde então as confusões. A nossa grande e absoluta diferença chama-se agora vida e morte. Pelo menos por enquanto, não?

O livro que eu queria encontrar na Feira: Gente da Sicília de Elio Vittorini, uma obra-prima italiana há muito fora de mercado entre nós.

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