Twin Peaks. Já estranhámos, agora continuamos a entranhar

É o regresso mais esperado do ano. A série de Mark Frost e David Lynch chega com muitas pontas soltas à espera de mais partes

É o regresso mais esperado do ano televisivo - e os fãs esperaram mais de 25 anos: Twin Peaks, a mítica série criada por Mark Frost e David Lynch, está de volta. Já se estreou nos Estados Unidos e no domingo chega ao pequeno ecrã em Portugal (no TV Séries).

É um regresso demorado a Twin Peaks, constata-se no primeiro episódio, ontem mostrado ao início da noite a uma plateia de jornalistas e fãs. A cidade da trama da série exibida em 1990 e 1991 vai pontuando a ação deste regresso da obra mas o espectador é levado também a Nova Iorque e a Buckhorn, no Dakota do Sul, em histórias paralelas que, por enquanto, não nos explicam o que podem ter que ver com Twin Peaks, mas que têm tudo a ver com o universo lynchiano.

Nuno Markl, o radialista que colecionou cromos numa caderneta sobre "tudo o que nos fez espernear de prazer", introduziu ontem com visível prazer a exibição desta nova temporada (e não é suposto, segundo Markl a citar Lynch, falarmos em "episódios" ou "temporada", mas já lá vamos). Este regresso é "mais David Lynch do que nunca", atirou - e é: já tínhamos estranhado este objeto televisivo feito de cinema dentro, no início da década de 1990, agora continuamos a entranhar, num universo que vai desconstruindo uma narrativa em torno da morte de uma jovem de Twin Peaks, Laura Palmer, e desvelando uma pequena comunidade que vive enfiada entre segredos, bizarrias, árvores e montanhas.

Para trás ficaram 30 episódios de como fomos descendo por aquele buraco de Alice no país das maravilhas, na comparação feliz de Markl, oito "maravilhosos" episódios numa primeira temporada e 22 numa segunda que se prolongou para lá do desejável e apresentando a resposta à pergunta que atormentava o agente do FBI Dale Cooper e todos nós, espectadores: "Quem matou Laura Palmer?"

Neste regresso, a narrativa desconcerta-nos entre o humor e o terror, entre o desejo e o surreal. É Lynch, como já tínhamos experimentado em Estrada Perdida (1997), Mulholland Drive (2001) ou Inland Empire (2006), que nos leva por uma viagem dos sentidos, sem grande vontade de nos ter de explicar tudinho. Por enquanto, o benefício da dúvida vem do facto de se tratar da "primeira parte" de "um longo filme de 18 horas" (e é assim que o realizador apresenta agora Twin Peaks), com muitas pontas soltas, sem preocupação de as atar para já - algures saberemos.

Este regresso à série e à cidade fez-se também de percalços: David Lynch ressuscitou o projeto, saiu dele e regressou para completar estas 18 novas partes atrás das câmaras, mas também a desenhar o som. Talvez por isso, o Gigante que conhecíamos dos sonhos da série original regresse logo no início para avisar o agente Cooper: "Escute os sons."

Escutemos também: com o genérico, aquelas letras transparentes envoltas num verde forte, regressa também a banda sonora de Angelo Badalamenti, aquelas guitarras e sintetizadores a marcarem os passos de uma cidade envolta num crime e em mistérios de muitos dos seus habitantes (e ontem já revimos a mulher do tronco).

Não sabemos ainda o que vai ser desvelado neste novo Twin Peaks. Naquela sala de pesados cortinados vermelhos e chão de mosaico, o agente Cooper ensaia uma resposta aos avisos do Gigante: "Eu entendo." Aquele homem quase disforme responde-lhe: "Está muito distante." No final desta primeira parte, só podemos concordar.

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