Ir com a maré

Nuno Júdice decidiu divertir-se, porventura mais do que dita o seu próprio currículo, com a escrita deste livrinho.

Será de bom tom, sinal de honestidade, ainda que parcialmente esta apareça movida a preconceito, começar por um aviso, tão próximo aos que nos são oferecidos diante de números de circo, provas de destreza física, momentos de coragem e aventura que não valem mais do que o frémito ocasional - por favor, não tentem fazer "isto" em casa. Não há, entenda-se, qualquer défice de legitimidade. Não há nenhuma limitação legal ou ética na possibilidade de ensaiar algo de semelhante. Mas há a superior questão do desfecho e da sabedoria que revela quem deixa proezas como esta nas mãos de quem delas pode sair-se a contento, sem traumas nem efeitos secundários perniciosos.

Aos espíritos mais agitados, aos que já se questionam sobre a relação entre este conselho - que, acreditem, não é paternalista, mas apenas prático e cheio de boas intenções - e a novela que traz Nuno Júdice de volta aos terrenos da prosa, ele que, por defeito ou comodidade, nos habituámos a arrumar, em lugar de destaque, entre os que mantêm viva e singular a Poesia portuguesa.

Desta vez, arrisco, o autor decidiu divertir-se, porventura mais do que dita o seu próprio currículo, com a escrita deste livrinho. Por isso, aposta na participação ativa e subversiva do narrador na reconstrução de uma trama que, além de contornos indefinidos a necessitar de investigação e clarificação, já fica a uma distância de séculos.

Dir-se-ia mesmo que, ao invés de buscar primordialmente as almas, as ideias e as relações do sucedido - uma conspiração que poderia ter ditado uma outra Europa, bem diferente da que hoje respiramos, mas que, de tão sumária e, vamos lá, ingénua, quase morre à nascença -, o autor prefere prestar atenção aos seus próprios estados de espírito, às suas próprias reações, às suas próprias dúvidas, diante do que vai conseguindo saber. E é sempre muito pouco, perante a sementeira de questões que nasce diante de cada revelação. Mais: o narrador, que, sem artefactos, é o próprio autor, decide interpelar diretamente quem o lê, técnica e tática que inviabilizam a ideia de estarmos perante um romance histórico.

Também este instinto sumário de classificação sai bastante abalado do encontro com A Conspiração Cellamare - já vimos que passa ao lado do romance histórico, mas também não se trata, com tantas idas e vindas entre o passado e o presente, de uma ficção. Poderia ser, pelos sobressaltos geográficos, tão acidentados como os solavancos temporais, um caderno de viagens, uma variante do roteiro cultural. Pois... Sim, mas não só. Melhor e mais rigoroso será considerá-lo a transposição, elegante e repetidamente provocadora, de um bloco-notas de observações e reflexões. O que explica que aí caibam, sem esforço ou calçadeira, reflexões académicas e filosóficas, nalguns casos de geração espontânea, como se o autor tivesse abdicado de todos os filtros de uma narrativa linear, lado a lado com desabafos que, à primeira mas não à segunda, ressoam quase fortuitos, como a referência a quartos de hotel exíguos, localizados em andares altos sem serviço de elevador, sem ares condicionados que abalem os efeitos da canícula.

O espantoso, o delicioso, o superior, está nisto: num livro que, em verdade, já se iniciou quando começamos a lê-lo, e não termina, mesmo depois de o pousarmos como resolvido, Nuno Júdice empurra-nos - sem violência, antes com mestria - para a condição de cúmplices, incapazes de interromper uma história (ou muito mais do que isso) que, dirão alguns, nunca chega a apresentar-se formalmente. O que acaba por ser largamente compensado pelos comentários (uns explícitos, outros a nem precisarem desse carácter evidente) do autor sobre o contraste ou a continuidade entre os tempos de ontem e os dias de hoje. Aprende-se com A Conspiração. E, se a soubermos aproveitar, acabaremos a divertir-nos tanto como aquele que a escreveu, sem precisar de a contar por aí além.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG