Invasão na Feira do Livro de Lisboa com Paula Hawkins

Foi preciso distribuir garrafas de água às centenas de fãs da autora de A Rapariga no Comboio. Paula Hawkins veio lançar Escrito na Água e deu uma entrevista ao DN.

Não é a primeira vez que a autora de A Rapariga no Comboio está em Lisboa, se bem que desta vez a vida lhe esteja a correr muito melhor. É que Paula Hawkins passou pela capital portuguesa em 2004 para assistir ao jogo de futebol entre as equipas inglesa e francesa, sendo que a britânica perdeu por dois a um, com golos de Zinédine Zidane. Também não se esqueceu do desafio entre Portugal e Inglaterra, como faz questão de recordar, onde a equipa do seu país perdeu por 6-5 num dos jogos mais emocionantes do Euro 2004. Desta vez, no entanto, veio autografar o seu primeiro romance e o recém editado Escrito na Água. Só que, sem o saber, acabou por participar noutro campeonato, o de entre autores que mais autógrafos iriam assinar ontem na Feira do Livro de Lisboa. De onde saiu já ao final da tarde com um "resultado" que lhe foi muito favorável.

Na Feira do Livro de Lisboa, Paula Hawkins disputava com rivais à altura. De um lado Luis Sepúlveda, a quem não faltam fãs fervorosos; de outro lado a milanesa Sveva Casati Modignani, a quem sobram leitoras hiper dedicadas. Sem perder de vista os estrangeiros, José Rodrigues dos Santos assinava em quantidade, seguido de António Lobo Antunes, a quem também nunca faltam admiradores da obra, e a alguma distância, uma dezena de autores que não facilitavam a vida às quatro estrelas, como Richard Zimler ou Lídia Jorge, e de mais longe por uma centena de autores que completavam uma das presenças mais maciça nesta Feira desta classe profissional.

Antes de ir para a Feira do Livro, Paula Hawkins esteve a conversar com o DN, tendo deixado o Hotel Evolution no Saldanha após uma refeição rápida. Hoje, repete a dose e estará de novo no Parque Eduardo VII para mais uma maratona de autógrafos. Quando se a questiona sobre o que espera desta vinda a Lisboa, Hawkins responde: "Como não conheço a Feira, nada posso adiantar, mas têm-me falado muito bem e estou curiosa. Parece que há milhares de pessoas. Vamos ver como será." Acrescenta-se se espera alguma coisa dos leitores portugueses: "Não tenho expectativas. Vou lá dizer olá e ouvir o que quiserem dizer. Já tenho sorte em os encontrar."

Fica a promessa de responder à primeira pergunta de novo na Feira do Livro. Foi assim: "Tanta gente. Não esperava nada disto." Faz um reparo: "E não são só leitoras, há muita gente nova, rapazes e raparigas. Estou mesmo surpreendida!" Tinha razões para isso, pois não é normal juntar-se tanto leitor à espera de um autógrafo desde os tempos em que José Saramago lançava novo romance. E, realmente, tem muitos jovens e bastantes homens, entre a longa fila que serpenteia à frente do palco onde foi colocada, que atravessa ainda uma boa parte do caminho que liga até à outra parte da Feira. O calor é tanto que o responsável da editora Top Seller, do grupo 20/20, manda distribuir garrafas de água pelos leitores que têm mais de duas horas pela frente até chegar junto da autora.

Ana, 26 anos, está à espera da sua vez. Confessa ser fã sem dificuldade: "Adoro os livros dela. Gosto mais do segundo." Vera, blogger de livros policiais, diz: "Gosto de ambos, mesmo que o novo seja diferente." Narciso, 56 anos: "A minha filha está em Espanha, soube que a escritora vinha cá. Não tive alternativa." Joana, 21 anos, e Inês, 24, estavam com o livro novo na mão: "Ainda não começamos a ler mas não íamos perder esta oportunidade." Filipa, 31 anos, e André, 21, trazem as edições inglesas: "Já lemos um pouco deste segundo." Eram 14.30 e a sessão só começava às 15.00, momento em que a mascote da Princesa Poppy já estava sem clientela interessada em si.

O segundo romance é sempre um desafio perigoso para o autor que escreveu um grande sucesso antes. Passou-se o mesmo com este Escrito na Água?

Foi um momento muito difícil para mim porque já o tinha começado a escrever antes de A Rapariga no Comboio. Conhecia bem a história e as personagens mas, devido ao sucesso deste livro, tive de andar em digressão para o promover por todo o mundo, desde os Estados Unidos à Austrália, e fiquei sem tempo para escrever. Foi muito difícil voltar a imergir na escrita e, principalmente, escrever sem pressão. Tudo é muito diferente quando o nosso nome já é conhecido. Há muita expectativa sobre o que vamos fazer de seguida, portanto foi uma situação muito difícil quando regressei a Escrito na Água, tanto assim que levei três anos entre o começar e o ficar terminado - aí sim foi um alívio. Espero que o terceiro seja muito mais fácil para mim.

Já está a escrever o terceiro thriller?

Ainda não estou nessa fase, tenho algumas ideias mas está por começar.

Já sabe do que vai tratar?

Tenho sempre muitas ideias, mas nem sempre sei o que fazer com elas.

É a ideia ou o protagonista que lhe dão sinal de partida para um novo thriller?

Por norma começo por encontrar o protagonista, mas desta vez estou com mais ideias, aliás diria demasiadas, tanto assim que a dificuldade é descobrir qual delas é que utilizarei. Estou nessa situação, a de perceber qual será a melhor ideia...

O Rapariga tem três narradores, este onze. Não se torna uma estrutura muito complexa?

Sim, é verdade que fica bastante complicada, mas era a melhor forma de contar a história que queria escrever. Parti da criação de uma comunidade onde vivem várias pessoas que guardam segredos e para o leitor compreender o que se passa necessita de escutar todas estas vozes. Gosto desse modelo, onde está um coro de vozes que expõe diversos pontos de vista. Inicialmente até parecerá complicado e confuso, mas muito rapidamente a intriga assenta e percebe-se quem está relacionado com quem e o significado dessas relações. Portanto, pouco depois do princípio tudo fica muito mais fácil.

A personagem Nel faz muitos inimigos por causa de estar a escrever um livro sobre as mortes por afogamento em Beckford. Não receia fazer inimigos com estes livros de grande sucesso?

Espero que isso não aconteça, mesmo que esteja consciente que nem todos gostarão do que faço ou até que mereça este sucesso. Talvez tenha criado alguns inimigos com este sucesso mas ainda não me confrontei com nenhum até ao momento.

Então, acredita que merece realmente todo este sucesso mundial?

Bem... eu trabalho muito para escrever estes livros. Criei muitas personagens, que considero interessantes e desafiadoras, e os leitores apercebem-se do meu empenho. É muito difícil destacarmo-nos entre tantos livros que são publicados. Ou seja, acho que mereço.

Em 2015, A Rapariga no Comboio sobressaiu entre os milhares de livros que foram lançados. Qual é o segredo?

Ai, essa pergunta é tão difícil! Só posso dizer a verdade, que ainda não encontrei a resposta. Porque ninguém sabe o segredo para o sucesso de um livro em relação aos outros. Haverá, talvez, coisas no livro que obrigam o leitor a devorá-lo. A personagem Rachel é pouco comum e nem todos gostarão dela, mesmo que todos tenham compaixão por si. Receio que o impulso voyeurista que ela tem para estar sempre a observar as pessoas seja comum a todos os leitores em qualquer parte do planeta e, por isso, os leitores identificam-se muito com ela. Creio que a ideia de escrever um policial com pessoas que reconhecemos e que não nos saem do pensamento poderá ser muito contagiante. E depois os editores fizeram um ótimo trabalho, tal como tive sorte com a data de publicação, mas mesmo assim continua a ser um mistério a razão de um livro subir às alturas e outros não o conseguirem. Ninguém perceberá jamais o porquê, pois não existe uma fórmula que possa ser repetida para se obter sucesso. É, diria, uma espécie de alquimia especial.

Grande parte do seu sucesso não se deve à grande quantidade de leitoras?

Isso de certeza que sim, porque há uma enorme legião de leitoras de romances policiais e elas gostaram da minha personagem e reviram-se na história. Creio que reconhecem as suas próprias vidas em grande parte do livro. Mas não será essa a única explicação.

O argumento tradicional para os livros é "rapaz encontra rapariga". Não o alterou-o para "homem mata mulher"...

Nem sempre, apesar de ambos os livros passarem-se em cenários domésticos. Quando uma mulher é vítima de violência, isso tende a acontecer em casa, onde é mais vulnerável ao marido ou alguém conhecido. Mas não creio que essa seja a história que vou escrever para sempre. É certo que em ambos os thrillers alguns dos homens são predadores, mesmo que as mulheres também o possam ser, como acontece no fim de A Rapariga, quando se vingam do homem que abusou delas.

Gostou da representação da atriz Emily Blunt na adaptação do livro?

Bastante, estava fantástica. Porque não é fácil protagonizar a Rachel, a sua insegurança e toda a desgraça em que vive. Acho que conseguiu personificar muito bem a personagem, pois representar uma pessoa alcoólica sem a fazer parecer estúpida e ridícula não é coisa fácil e Emily Blunt tornou-a muito convincente.

O filme usa um cenário norte-americano em vez do da Londres original. O que achou dessa alteração geográfica?

Essa decisão foi tomada logo de início. Não fiquei aborrecida nem me importei assim tanto porque não alteraram a história. Não nego que teria gostado mais de o ver filmado na periferia de Londres, como era no livro.

Estava preocupada com as críticas ao segundo livro. O Financial Times gostou, o The Guardian não... Qual foi a sua reação?

É verdade. Eu li as críticas todas e percebi que havia muita diversidade de opiniões. Umas eram boas, outras eram más, por isso não posso deixar de dizer que não foi horrível ler as que diziam mal. É uma sensação terrível para um escritor quando se diz mal do seu trabalho, principalmente porque estava muito ansiosa em relação ao que iriam escrever nas recensões. Confesso que fiquei uma semana fechada no quarto e nem queria sair da cama, no entanto as boas críticas deixaram-me satisfeita. É preciso compreender que nem todos gostam do mesmo! Penso que corri muitos riscos neste segundo livro, que fui mais ambiciosa. E prefiro ser assim em vez de não arriscar, continuando a repetir mais do mesmo uma e outra vez. Se nem toda a gente gostar tenho pena, mas a vida é assim. O meu propósito após o lançamento do primeiro livro foi começar a pensar no próximo e como conseguir fazer o que pretendo sem ser influenciada.

O Escrito na Água é mais literário?

Penso que sim, por isso fiquei satisfeita com o livro. É claro que nem toda a gente aceita que eu não faça mais do mesmo e ficam desapontados. Compreendo a reação, mesmo que seja difícil para mim que não vejam o lado positivo.

Os seus editores aceitam essas mudanças em relação à fórmula vencedora?

Acho que os meus editores ficam satisfeitos quando eu ambiciono tentar fazer algo novo e nunca me pediram para repetir A Rapariga no Comboio.

Antes de este livro ser lançado parecia fazer parte de um projeto secreto de tanta confidencialidade à sua volta. Foi uma forma de pressionar o leitor?

Ninguém queria levantar uma ponta do véu em relação ao que eu tinha escrito porque havia muita expectativa, no entanto também foi por minha culpa pois só entreguei o livro muito em cima do prazo, o que obrigou a grandes esforços de todos os envolvidos para se cumprirem as datas combinadas.

Este livro foi a sua primeira tentativa. Reescreveu-o como faria antes do sucesso de A Rapariga ou mudou muito?

O livro mudou muitas vezes e teve muitas versões, mas não foi por causa do sucesso, antes para ser o que eu queria no que respeita ao modo de contar a história. Aí sim, mudou bastante porque precisava de encontrar a forma de relatar como era a minha intenção. Foram muitas versões é verdade, mas nenhuma teve a ver com o sucesso do anterior, eram apenas as minhas dúvidas sobre o que desejaria fazer.

O segredo de um thriller é esconder a informação ao leitor?

Um dos grandes desafios para o escritor policial é entregar ao leitor informação suficiente para ir percebendo mas ao mesmo tempo esconder a suficiente para o surpreender também. Encontrar esse balanceamento é a grande dificuldade, até porque não se pode manipular demasiado ou ele irrita-se. Há uma técnica para se escrever um bom policial, que deve ser respeitada.

O síndrome do segundo romance vai manter-se no terceiro ou Escrito na Água foi o último a enervá-la?

Espero que sim. Creio que terei muito mais tempo para mim desta vez porque não pretendo fazer com este a promoção feita com A Rapariga, que me ocupou os últimos dois anos. Desta vez quero só atirar-me à escrita, estar mais focada e menos distraída.

Esperava que se transformasse num bestseller também em Portugal?

Nunca, nem aqui nem em lugar algum. Nunca esperei chegar ao primeiro lugar nas livrarias, isso espantou-me porque aconteceu em muitos países. Foi surpreendente.

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