Uma história de Portugal contada em 13 mil moedas

Antigo cofre do BES é agora uma exposição da coleção de numismática reunida por Carlos Marques da Costa

Foi na Feira da Ladra, em 1975, que o empresário Carlos Marques da Costa, um dos fundadores da fábrica de pastilhas elásticas Gorila, adquiriu as primeiras moedas da sua coleção, lembra a filha, Ana Paula. Criança à época, não se recorda de quais foram as primeiras aquisições, mas sabe que foi já nos anos 80 que a coleção ganhou corpo e importância até se tornar a "mais completa coleção de moedas portuguesas que se conhece a nível mundial", como a descreve a conservadora Isabel da Cunha Reis, numa visita à exposição no Novo Banco, onde este conjunto, avaliado em 25 milhões de euros, agora pode ser visitado.

Ricardo Salgado, então presidente do BES, comprou a coleção a Carlos Marques da Costa, também acionista do banco, em 2007. São cerca de 17 mil itens - 13 mil moedas, mas também notas e cédulas. "Em troca de ações", especifica a filha, agora à frente da fábrica Lusiteca. Explica que Carlos Marques da Costa "vendeu a coleção, porque não queria que fosse dividida". O empresário teve dois filhos (um já falecido) e oito netos (quatro da filha, quatro do filho). "As moedas eram as meninas dele. Todos os dias as via, era um álbum sentimental", recorda Ana Paula.

A numismática marcava a agenda nas férias e a família chegou a acompanhá-lo nestas viagens. Depois de vender o seu acervo, reunido por mais de 30 anos, continuou a ser uma das mais conhecidas figuras dos leilões de numismática, em Portugal e fora. "Fez uma coleção para mim", conta a filha. "Que eu continuei."

Carlos Marques da Costa morreu a 20 de maio de 2010, antes de poder ver como o banco se preparou para mostrar a coleção, mantendo-a una, num dos antigos cofres da sede do antigo BES, em Lisboa. Novo Banco Numismática, escrito à entrada, anuncia o tesouro, que se encontra em processo de classificação na Direção-Geral do Património Cultural. Está finalmente disponível ao público, após os anos da resolução que dividiu BES em bom e mau.

Isabel da Cunha Reis calcula que estejam aqui representadas "90% das moedas alguma vez cunhadas em Portugal". O empresário seguia os manuais de numismática, nomeadamente o catálogo de Alberto Gomes, para enriquecer a coleção.

Na exposição, é a história de Portugal que se desenrola à nossa frente, começando nos mais antigos exemplares que se conhecem. Recuamos ao período romano, aos suevos, visigodos e islâmicos, períodos muito anteriores às batalhas travadas por D. Afonso Henriques. Com o primeiro rei de Portugal aparece a primeira moeda do reino, o dinheiro.

D. Sancho II cria o morabitino, "uma grande raridade, a primeira moeda de ouro cunhada por um rei português". Este monarca, salienta a conservadora, é representado a cavalo e a peça ganha este nome por conviver com espécimes árabes que ainda circulavam no país. Esta e outras moedas são batizadas ao sabor das imagens que nela se representam. Há uma dobra pé-terra, porque o rei tem os pés no chão; ou uma degolada, porque a rainha D. Maria II é representada sem pescoço.

"A história das moedas é um espelho fiel da história das nações", afirmou um dia Carlos Marques da Costa. E, na exposição, os momentos de pujança ou depressão económica são fáceis de detetar. As vitrinas mais chamativas coincidem com o início dos Descobrimentos. Aparecem os justos, moedas do reinado de D. João II, cunhado no seu trono e com a inscrição que documenta a expansão - "Senhor de Aquém e Além-Mar...", lê-se.

Isabel da Cunha Reis chama a atenção para outra moeda, já do tempo de D. Manuel I, século XVI. "Era a maior moeda de ouro a ser cunhada por um país europeu à época. Circulava por todo o mundo, Ocidente e Oriente, era quase o dólar da época", explica. "É uma moeda que testemunha a nossa importância." Prossegue para o período de D. Sebastião, altura em que a moeda surge com data e, pela primeira vez, é cunhada por processos mecânicos. Chamam-lhe engenhoso.

Em contrapartida, "nos períodos conturbados, as moedas surgem menos ricas e menos elaboradas", nota a conservadora, mostrando as peças em circulação durante a crise dinástica. No século XVIII, com D. João V, e o ouro brasileiro, regressa o brilho. "Estamos a falar de ouro de 24 quilates, um dobrão pesa 50 gramas. Até se dizia que o perfil do rei português era mais conhecido em Inglaterra do que o próprio rei inglês", explica a conservadora. "São dezenas de moedas diferentes que se conhecem no mundo inteiro, de tipologias diferentes, e o trabalho artístico era muito importante, o cunho era desenhado por importantes artistas da época, como Francisco Vieira Lusitano." Resume: "É o apogeu da numismática portuguesa e uma das fases preferidas de todos os colecionadores."

Do período posterior à implantação da República, a conservadora chama a atenção para um pequeno centavo de 1922. Foi cunhada uma série muito curta e hoje só se conhecem seis exemplares, "o que faz que uma moeda tão pequena tenha ganho grande relevância".

A coleção que Marques da Costa juntou termina na entrada em circulação do euro (2001), mas, no subterrâneo do Novo Banco, ela contempla ainda uma sala destinada a todas as moedas cunhadas em antigas colónias. É aqui que se encontra o exemplar mais valioso da coleção: a peça da coroação, a primeira moeda mandada cunhar por D. Pedro I, imperador do Brasil, em 1822. É das mais caras da numismática brasileira e das mais raras. São conhecidos apenas 16 exemplares. Num leilão recente, uma delas foi arrematada por 300 mil euros, conta Isabel da Cunha Reis. Esta, e as restantes, podem ser vistas pelo público, por marcação, através do site do banco. A entrada é livre.

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