Tamás Érdi dedica a vida ao piano, algo que nunca viu

O pianista húngaro, cego, atua hoje num concerto para apoiar as Aldeias de Crianças SOS, na embaixada da Hungria

Era uma criança de três ou quatro anos, cega, quando descobriu o piano do bisavô na casa de fim de semana da família. A primeira obra que tocou foi A Marselhesa, com um só dedo. Ainda em miúdo, experimentou outros instrumentos, mas era preciso carregar todos eles às costas: "O piano já está sempre na sala", diz bem-disposto. Tamás Érdi é o pianista húngaro que hoje tocará às 18.30 na embaixada da Hungria em Lisboa, num concerto solidário que reverterá a a favor da associação Aldeias de Crianças SOS Portugal. Pianista e cego, como Ray Charles, Nobuyuki Tsujii, ou Moondog, Tamás, que cegou quando era recém-nascido, nunca viu o instrumento a que dedica "cinco a seis horas por dia".

A sua mãe falou do talento do filho a Zoltan Kocsis (1952-2016), um dos maiores pianistas húngaros. "Ele ficou interessado e começou a mexer-se para apoiar o talento do miúdo. Nessa altura, arranjou-me uma professora muito especial, Erika Becht, que é como uma segunda mãe." Foi com ela que, a partir dos "seis ou sete anos" Tamás desenvolveu um método especial de aprendizagem para alguém que não vê. "Há pautas em braille, mas só uma mão é que trabalha, e a outra está a ler, é muito limitativo. Inventámos um novo método para que eu tivesse capacidade plena." Primeiro, começaram com exercícios em que Tamás tinha de adivinhar como Mozart continuou aquele segmento que estava a aprender. "Havia grandes risadas", recorda. O método fixou-se depois num procedimento em que ele ouve a gravação feita pela professora com uma mão e depois com a outra. "Não tendo pauta, tenho de absorver essa pauta sonora como uma esponja. Quando tenho dúvidas, vou ouvir a gravação." Ainda hoje trabalham juntos, e Erika Becht continua a ajudar o pianista em novas peças, ou quando este trabalha com uma orquestra.

Diz que nunca teve curiosidade em perguntar aos que o rodeiam que aspeto tem o piano, que impacto causa numa sala. Interessa-lhe mais a sua sonoridade, a forma como ele próprio é tão rico como uma orquestra.

Depois de, aos 17 anos, vencer a Competição Internacional de Piano Louis Braille, em Moscovo, parte para Viena para estudar na Academia de Música, mas continuava então a viver em Budapeste. Seguiu-se o Royal Conservatory of Music de Toronto.

Já tocou em salas como o Carnagie Hall ou o Barbican Centre, mas Tamás recorda muito particularmente um concerto em Reykjavík, Islândia, quando foi celebrado com uma ovação de pé, gesto que não faz parte das tradições húngaras. Foi a mãe, crê, que lhe veio sussurrar o que estava a acontecer. Foi a mãe também, quem, de alguma forma, o apresentou à sua mulher, Réka Érdi-Harmos, fotógrafa. Ofereceram-lhe um bilhete para ver um dos concertos dele; ficou tão impressionada que escreveu à mãe, no Facebook, para lho comunicar. A mãe explicou-lhe que Tamás tinha um computador adaptado, e que podia escrever-lhe.

É Réka quem responde que, para o pianista, é difícil explicar o que leva para a sua vida dos compositores que lhe são queridos, de Schubert a Chopin, Liszt ou Bártok. "Para ele tocar é como para nós respirar." Contudo, ele evoca a terra natal de Chopin: ZZelazowa Wola. Significa "vontade de ferro", explica.

Apesar de o concerto de hoje ser reservado a convite, é possível, sob marcação, assistir.

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