Remate do Palácio da Ajuda vai custar, afinal, 21 milhões de euros

Projeto estará concluído no primeiro trimestre de 2020 e custará 21 milhões de euros, repartidos pelas verbas da taxa turística, associação de Turismo de Lisboa e ministério da Cultura

As obras de remate da ala poente do Palácio Nacional da Ajuda decorrem desde fevereiro, ontem foi dia de desvendar o projeto que albergará a Exposição Permanente do Tesouro Real e, de caminho, atualizar os valores do investimento. Os 15 milhões anunciados em 2016 são afinal 21.

O projeto estará concluído no primeiro trimestre de 2020, anunciaram o presidente da câmara municipal de Lisboa, Fernando Medina, o ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes e o presidente da Associação de Turismo de Lisboa (ATL), ontem, na Sala D. Luís do Palácio Nacional de Ajuda, ao lado do arquiteto responsável pelo projeto João Carlos Santos, subdiretor da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) e do designer Francisco Providência, que concebeu a museografia.

A caixa-forte que alberga, entre outros, 900 exemplares de joalharia real, 830 de joias do quotidiano, pratas utilitárias e decorativas que pertenceram à casa real portuguesa é, também, um percurso expositivo, circular, que acontece entre o terceiro e quarto pisos do novo edifício, tirando partido dos 12 metros de pé direito de cada piso. "Desdobrámos os pisos em outros pisos. Criámos três sub-pisos", esclareceu Francisco Providência, autor do projeto museográfico do Museu do Dinheiro. "Um banco junto às vitrinas que guardam as peças servirá de apoio aos visitantes e, ao mesmo, de suporte técnico para as peças", avançou ainda o designer.

A exposição desta coleção, "de grande qualidade e atratividade", nas palavras do ministro da Cultura, está pensada para que os visitantes "circulem" e existem duas propostas de percurso, esclareceu João Carlos Santos, uma mais longa e outra mais rápida, a pensar nos operadores turísticos que desejem realizar um percurso de menor duração à exposição permanente do Tesouro Real. Cerca de 100 pessoas podem estar no espaço ao mesmo tempo, calcula o arquiteto da DGPC.

Mais seis milhões de orçamento

O aumento de seis milhões de euros em relação aos números tornados públicos em setembro de 2016, na apresentação do projeto, foi justificado pelo presidente da ATL com "o aumento do projeto inicial", isto é, com a requalificação do espaço público envolvente, nomeadamente na Calçada da Ajuda, da Alameda dos Pinheiros à Rua das Açucenas, e a criação de "um restaurante de grande categoria". Este espaço ficará no quarto piso do edifício, segundo o arquiteto João Carlos Santos. A estas razões, Vítor Costa acrescentou as questões de segurança, a partir das recomendações de uma "consultoria internacional".

Dos 21 milhões de euros de investimento, 4 milhões saem dos cofres do Ministério da Cultura, e resultam do seguro pago ao Estado após o roubo das joias em Haia.

Cinco milhões são receitas da ATL, "que podem ou não ser um empréstimo bancário, em princípio não", uma hipótese que havia sido levantada por Vítor Costa na apresentação do projeto em 2016.

O Fundo de Desenvolvimento Turístico de Lisboa, isto é, a taxa de 1 euro diário cobrada aos turistas que visitam a capital, financia a mais importante fatia destas obras: 12 milhões de euros. "Repartidos por vários anos", esclareceu Vítor Costa, à margem da conferência de imprensa. "Já houve custos em 2017", notou. No ano passado, rendeu 15 milhões aos cofres da câmara.

Esta será a empreitada de maior envergadura paga pelo Fundo de Desenvolvimento Turístico de Lisboa, mas não a primeira. Custeou em 2017 a abertura da experiência do Pilar 7, que permite subir ao nível da Ponte 25 de abril, um monumento a aguardar classificação na DGPC.

Câmara municipal de Lisboa, ministério da Cultura e Associação de Turismo de Lisboa estão unidas por um acordo de 20 anos no projeto de conclusão da ala poente e abertura da exposição do Tesouro Real. "A DGPC fica com a gestão científica, a ATL com a gestão operacional e marketing", especificou Vítor Costa.

Um projeto com dois séculos de atraso

Como anunciado em setembro de 2016, neste novo projeto, assumidamente contemporâneo, "há analogia com a construção existente, não mimética, conforme às cartas e convenções de restauro e reabilitação",", disse o arquiteto João Carlos Santos, após uma introdução histórica dos vários planos e alterações que a ala poente do Palácio da Ajuda sofreu ao longo do tempo e, sobretudo, no século XX, como demonstra a cronologia do edifício. "O projeto respeita a massa edificada e a envolvente próxima", garante o autor, garantindo que se deixará memória do "inacabado" atual.

A ausência de caixilharia que se verá do pátio do Palácio é um exemplo dessa referência à história do edifício. Dentro será instalada a caixa forte que é também Exposição Permanente do Tesouro Real - joias da coroa e ourivesaria, um equipamento que deverá atrair 250 mil visitantes anualmente, de acordo com as estimativas "conservadoras" de um estudo pedido pela DGPC e citado por João Carlos Santos nesta apresentação.

Apresentados os detalhes em maquete, arquiteto, presidente da câmara, ministro da Cultura e presidente da Associação de Turismo de Lisboa visitaram o estaleiro das obras. O primeiro trimestre de 2020 é a data apontada para a conclusão dos trabalhos.

Na apresentação do projeto, com o primeiro-ministro, António Costa, a data avançada e até ontem nunca corrigida foi dezembro de 2018. João Carlos Santos explicou tratar-se de "lapso".

A primeira pedra do Palácio Nacional da Ajuda foi lançada em 1795, depois de um incêndio ter consumido a Real Barraca, o espaço de madeira para onde se mudou D. José após o terramoto de 1755 e a destruição do Paço da Ribeira. Eram ambiciosos os primeiros projetos para o novo edifício real. Deveria ter o triplo do tamanho e chegar ao rio. Evocando essa memória, João Carlos Santos explicou, na conferência de imprensa, que será assinalado na calçada da Ajuda o local onde deveria ficar o centro do palácio, caso tivesse sido construído.

O projeto de requalificação prevê ainda uma intervenção "mínima" na praça junto à ala nascente. Apenas no muro que dá acesso a estacionamento da Torre do Relógio, segundo João Carlos Santos, acrescentando que com este projeto ficará acessível pela primeira o Jardim das Damas que, até agora, nunca foi público.

Fernando Medina disse tratar-se de um "projeto único". "Não haverá muitos responsáveis políticos que tenham tido a oportunidade de tomar uma decisão com o carácter único desta", disse, lembrando que esta área, o eixo Belém-Ajuda, é palco de inúmeras intervenções. Do Jardim Botânico Tropical, que será reabilitado, à Casa Azul, que vai albergar a coleção de Julião Sarmento, passando pela ponte pedonal do Museu dos Coches, em fase de conclusão, entre outros.

O ministro da Cultura afimou que a exposiçãoo do Tesouro Real irá contribuir para o alargamento do eixo Belém-Ajuda, desde o Palácio da Ajuda ao Museu de Etnologia. E com o remate do edifício, após vários projetos, e avanços e recuos na conclusão do Palácio Nacional da Ajuda, "vamos superar a maldição do arquiteto".

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